Irmão de George Floyd pede ao Conselho de Direitos Humanos ação da ONU contra o racismo

O Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, ouviu na quarta-feira (17) um poderoso testemunho do irmão de George Floyd, um homem negro norte-americano cuja morte capturada em vídeo após asfixia por um policial branco em Mineápolis provocou protestos em todo o mundo.

Em um pedido gravado para que o Conselho estabeleça uma comissão internacional com o objetivo de investigar assassinatos de negros nos Estados Unidos e a violência contra manifestantes, Philonise Floyd instou a ONU a agir.

George Floyd morreu após ter o pescoço prensado por um policial branco nos EUA. Foto: ONU/Daniel Dickinson

George Floyd morreu após ter o pescoço prensado por um policial branco nos EUA. Foto: ONU/Daniel Dickinson

O Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, ouviu na quarta-feira (17) um poderoso testemunho do irmão de George Floyd, um homem negro norte-americano cuja morte capturada em vídeo após asfixia por um policial branco em Mineápolis provocou protestos em todo o mundo.

Em um pedido gravado para que o Conselho estabeleça uma comissão internacional com o objetivo de investigar assassinatos de negros nos Estados Unidos e a violência contra manifestantes, Philonise Floyd instou a ONU a agir.

Ecoando essa mensagem, a vice-secretária-geral das Nações Unidas, Amina Mohammed, disse: “hoje, as pessoas estão dizendo, em voz alta e comovente: ‘Basta’. As Nações Unidas têm o dever de responder à angústia que muitos sentem há tanto tempo.”

“Essa causa está no coração da identidade da nossa organização. Direitos iguais estão consagrados em nossa Carta fundadora. Assim como lutamos contra o apartheid anos atrás, devemos combater o ódio, a opressão e a humilhação hoje.”

‘Estou pedindo que nos ajudem, nós negros dos EUA’

Floyd entregou sua mensagem no primeiro Debate Urgente do Conselho sobre racismo, brutalidade policial e violência contra manifestantes, que protestaram após o assassinato de George Floyd. A reunião foi convocada por países africanos.

“Vocês viram meu irmão morrer. Poderia ter sido eu”, disse Philonise Floyd. “Eu sou o guardião do meu irmão. Você nas Nações Unidas são os guardiões de seus irmãos e irmãs nos Estados Unidos e têm o poder de nos ajudar a obter justiça para meu irmão George Floyd. Estou lhes pedindo que o ajudem. Estou lhes pedindo que nos ajudem. As pessoas negras na América.”

Discursando ao Conselho no início do debate, Michelle Bachelet, alta-comissária da ONU para os direitos humanos, adotou um tom igualmente urgente. “Tempo é essencial. A paciência acabou”, disse ela. “Vidas negras são importantes. Vidas indígenas são importantes”, disse. “Todos os seres humanos nascem iguais em dignidade e direitos e é isso que este Conselho, assim como o meu escritório, representa.”

Lembrando os delegados do Conselho as circunstâncias que cercaram a morte de seu irmão de 46 anos em 25 de maio em Mineápolis, Floyd observou que, mesmo depois de ele ter ficado “inconsciente, sem se mover e respirar, o policial manteve o joelho no pescoço do meu irmão por outros quatro minutos enquanto muitas testemunhas imploravam” para que ele parasse.

“Os policiais não mostraram piedade nem humanidade, e torturaram meu irmão até a morte no meio da rua em Mineápolis, com uma multidão de testemunhas observando e implorando para que parassem, mostrando a nós negros a mesma lição mais uma vez: a vida negra não importa nos Estados Unidos da América.”

Bachelet pediu a reforma de instituições específicas e órgãos de aplicação da lei em todo o mundo, e medidas para combater o “racismo generalizado que corrói as instituições do governo, fortalece a desigualdade e está subjacente a tantas violações dos direitos humanos”.

“A brutalidade gratuita passou a simbolizar o racismo sistêmico que prejudica milhões de pessoas de ascendência africana”, disse ela, acrescentando que este causa “danos generalizados, diários, ao longo da vida, geracionais, e são muitas vezes letais”.

O debate urgente, apenas o quinto ocorrer desde que o Conselho iniciou seu trabalho, em 2006, foi iniciado pelo Grupo Africano, após um pedido de mais de 600 organizações de direitos humanos para investigar a alegada violência policial após a morte de Floyd.

“O Grupo Africano está profundamente preocupado com atos recorrentes de assassinato racial e brutalidade policial e com violações recorrentes dos direitos humanos contra pessoas de herança africana em algumas partes do mundo”, disse o representante do Grupo Africano, embaixador Léopold Ismael Samba (República Centro-Africana) . “O Grupo Africano condena firmemente o assassinato sem sentido e injustificado de George Floyd.”

Em um apelo a reformas e compromissos renovados com a implementação das principais promessas assumidas para combater o racismo em 2002, na Conferência Mundial de Durban, o embaixador Samba acrescentou ser “inaceitável” estarmos “falando e lutando por igualdade para algumas pessoas, 72 anos após a adoção da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que proclama que todas as pessoas nascem livres e com dignidade”.

Em uma sessão marcada por manifestações de solidariedade à família de George Floyd, os palestrantes também abordaram o tema da violência contra manifestantes – uma questão também levantada por Philonise Floyd.

Manifestantes e jornalistas espancados

“Quando as pessoas ousaram levantar a voz e protestar por meu irmão, foram atingidas por bombas de gás lacrimogêneo, atropeladas por veículos da polícia, várias perderam a visão e sofreram danos cerebrais por balas de borracha, e manifestantes pacíficos foram baleados e mortos pela polícia”, disse.

“Os jornalistas foram espancados e cegados enquanto tentaram mostrar ao mundo a brutalidade que acontecia nos protestos. Quando as pessoas levantam suas vozes para protestar contra o tratamento dos negros na América, elas são silenciadas; elas são baleadas e mortas.”

Destacando como os muitos protestos em todo o mundo foram “o culminar de muitas gerações de dor e longas lutas pela igualdade”, Bachelet observou que “muito pouco mudou ao longo de muitos anos. Devemos isso a quem veio antes, assim como aos que estão por vir, para aproveitar este momento, finalmente, para exigir mudanças fundamentais e insistir nisso.”

Alguns manifestantes agiram com violência

No entanto, a alta-comissária da ONU para os direitos humanos sublinhou ter ficado “perturbada com atos criminosos cometidos por um pequeno número de pessoas em meio a muitos protestos pacíficos ao redor do mundo, o que muitas vezes danificou propriedades de minorias raciais e étnicas”.

As evidências em vídeo também mostraram uso excessivo da força contra manifestantes pela polícia, inclusive durante protestos inteiramente pacíficos, disse. “Todos esses incidentes devem ser investigados e os responsáveis ​​devem ser levados à Justiça.”

Falando pelo secretário-geral da ONU, António Guterres, Amina Mohammed observou aos delegados do Conselho que ele compartilhava sua “aversão ao racismo” e estava empenhado em combatê-lo com todas as ferramentas que temos”.

A vice-secretária-geral da ONU também lembrou que Guterres iniciou um processo de um ano para enfrentar sérias preocupações da equipe das Nações Unidas sobre o assunto, antes de citar uma carta recente enviada aos funcionários, na qual insistiu que o “flagelo (do racismo) viola a Carta das Nações Unidas e rebaixa nossos valores fundamentais”.

Por experiência pessoal e em provável referência às suas raízes nigerianas e britânicas, Mohammed acrescentou: “o veneno do racismo ainda é violento e, portanto, a luta ainda deve ser travada. No nível pessoal, desde os meus dias de ensino médio no Reino Unido até minha carreira em todo o setor privado, sociedade civil e agora serviço público internacional, desenvolvi resiliência”.

“Eu até me tornei anestesiada, na medida em que esquecemos como é sentir a injustiça dos insultos raciais e meu direito humano de viver uma vida de dignidade e respeito.”