Iraque: mais de 1 milhão são afetados por operações militares em Mossul

A ONU informou que cerca de 1,5 milhão de pessoas estão sendo afetadas pelas operações militares promovidas pelo Iraque para a retomada de Mossul. Desse contingente, milhares são mulheres que precisam de serviços de saúde reprodutiva e de cuidados básicos para evitar violência sexuais.

A segunda maior cidade iraquiana está sob controle do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIL) desde 2014.

UNFPA distribui kits contendo itens de higiene para preservar a dignidade de mulheres e meninas que fogem de Mossul, no Iraque. Foto: UNFPA Iraque

UNFPA distribui kits contendo itens de higiene para preservar a dignidade de mulheres e meninas que fogem de Mossul, no Iraque. Foto: UNFPA Iraque

A ONU informou na semana passada (9) que cerca de 1,5 milhão de pessoas estão sendo afetadas pelas operações militares promovidas pelo Iraque para a retomada de Mossul. Desse contingente, milhares são mulheres que precisam de serviços de saúde reprodutiva e de cuidados básicos para evitar violência sexuais.

De acordo com o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), estima-se que 34 mil pessoas tenham sido deslocadas pelo conflito até o momento, sendo 8.500 mulheres em idade fértil, incluindo 1.360 que estão grávidas e precisam de serviços de saúde para um parto seguro.

O UNFPA observou que desde 17 de outubro está fornecendo serviços de saúde reprodutiva de emergência e serviços para mulheres e meninas afetadas pelos conflitos.

“As mulheres deslocadas que fogem das ofensivas muitas vezes são privadas de serviços de saúde reprodutiva. Para as mulheres grávidas, esse risco pode se tornar um cenário de vida ou morte”, disse o representante do UNFPA no Iraque, Ramanathan Balakrishnan.

A resposta do UNFPA à situação em Mossul inclui 25 equipes de saúde reprodutiva móveis e a criações e/ou restauração de 20 instalações de saúde materna. Mais de 4 mil kits, que contêm sabão, absorventes, roupas e outros suprimentos, também estão sendo distribuídos.

Além disso, a agência organizou 23 equipes móveis que fornecerão, entre outras assistências, apoio psicossocial e gestão de casos de emergência. Cerca de 2 mil consultas de saúde reprodutiva já foram realizadas em Qayyarah, Hajj Ali e I’jhala desde o início das operações militares.

O UNFPA informou também que está oferecendo treinamentos aos profissionais de saúde nas províncias vizinhas a Mossul e aos assistentes sociais, que vão oferecer ajuda a sobreviventes de violência de gênero.

OMS entrega suprimentos médicos

O porta-voz da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tarik Jasarevic, afirmou na semana passada (8) que a equipe da agência da ONU no Erbil Hospital, a cerca de uma hora de Mossul, está entregando suprimentos médicos para mais de 90 mil beneficiários.

“Desde que a ofensiva militar começou em 17 de outubro, o hospital recebeu 29 casos de traumas, sendo 10 por ferimentos de bala, quatro por morteiros e dois por minas. Onze dos feridos eram mulheres, e seis eram crianças”, disse Jasarevic.

Em outras áreas, a OMS está oferecendo cuidados de saúde através de clínicas móveis. Em alguns casos, essas clínicas são responsáveis por prestar os primeiros socorros aos feridos.

A agência da ONU observou ainda que está trabalhando com as autoridades sanitárias para garantir que departamentos de saúde reprodutiva e de emergência sejam reabilitados nos próximos dias e semanas, bem como para garantir cuidados de referência para trauma e partos complicados. Noventa profissionais de saúde já foram treinados para a gestão de vítimas em massa e descontaminação dos pacientes.

De acordo com a OMS, vários iraquianos foram vítimas de asfixia ao inalarem dióxido de enxofre devido ao poços de petróleo em chamas há várias semanas.

ACNUR abre novo campo de refugiados

A Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) anunciou que abriu um campo em Hasansham, ao norte do Iraque, para ajudar a acomodar as milhares de pessoas deslocadas de Mossul.

O campo de Hasansham terá capacidade para abrigar 1.800 famílias ou o equivalente a 11 mil pessoas. O acampamento é um dos 11 campos que o ACNUR planejou para responder de forma antecipada ao deslocamento de grande escala em Mossul. Quando concluído, o estabelecimento poderá abrigar até 120 mil pessoas.

Atualmente, o ACNUR tem 27 mil tendas prontas no Iraque para abrigar 162 mil pessoas. Este número aumentará para 40 mil tendas (com capacidade para abrigar 240 mil pessoas) até o final de novembro, e 50 mil tendas (para 300 mil pessoas) até meados de dezembro. O ACNUR também planeja fornecer 50 mil kits de abrigo emergencial.

A resposta de emergência do ACNUR em Mossul conta atualmente com 95 milhões de dólares, ou seja, menos de metade do valor total solicitado para atender as demandas que corresponde a 196,2 milhões de dólares. Destes, 60 milhões de dólares serão especificamente destinados a oferecer assistência durante o inverno às famílias que poderão ser deslocadas de Mossul nos próximos dias.

Uma família iraquiana forçada a se deslocar devido a conflitos na aldeia de Shora caminha em direção a um posto de controle do exército iraquiano perto de Qayyarah. Foto: ACNUR/Ivor Prickett.

Uma família iraquiana forçada a se deslocar devido a conflitos na aldeia de Shora caminha em direção a um posto de controle do exército iraquiano perto de Qayyarah. Foto: ACNUR/Ivor Prickett.

Batalha para retomar Mossul

O representante especial do secretário-geral da ONU para o Iraque, Jan Kubis, informou ao Conselho de Segurança sobre o “constante progresso” das forças iraquianas em sua “histórica batalha para libertar Mossul”.

A segunda maior cidade iraquiana está sob controle do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIL) desde 2014.

De acordo com Kubis, recapturar o território e o poder não é suficiente. O representante afirmou que líderes de todas as comunidades e grupos devem resolver desavenças do passado e encontrar uma forma de viverem juntos após o ISIL, num ambiente de “justiça e igualdade para todos”.

Para Kubis, é fundamental que haja proteção de civis, prevenção de ataques de vingança e prestação de contas para combatentes do ISIL capturados e seus simpatizantes de maneira justa e com o devido respeito às normas internacionais de direitos humanos.

Ele fez um apelo às autoridades iraquianas para que continuem as operações de libertação da cidade neste espírito, garantindo pleno respeito a princípios como precaução e justiça para as vítimas, entre outros.

“A reconstrução de infraestruturas, a restauração de serviços essenciais, do Estado de direito, das escolas e a criação de oportunidades de emprego são cada vez mais importantes para restaurar a confiança no governo”, disse Jan Kubis ao Conselho de Segurança.

“O retorno dos deslocados internos é a chave para reconstruir um tecido social sólido no Iraque. É parte da reconciliação e cura”, acrescentou.

O número de civis mortos no Iraque no mês passado quase dobrou em relação a setembro, advertiu um novo relatório divulgado pela Missão de Assistência das Nações Unidas no país (UNAMI).

A missão informou que 1.120 pessoas foram mortas em outubro, contra 609 em setembro; e 1.005 civis ficaram feridos, um aumento de 951 em relação a setembro. “O número de mortos entre civis continua subindo e os civis continuam pagando o preço final”, disse o representante especial do secretário-geral da ONU, Jan Kubis.

De acordo com a Missão, 672 pessoas das forças de segurança iraquianas também foram mortas e 353 ficaram feridas. Bagdá sofreu as piores baixas, com 268 mortos e 807 feridos. Em Ninewa, 566 civis foram mortos e 59 feridos. Em Kirkuk, houve 58 óbitos e 112 feridos; Salahadin registrou 16 mortos e dois feridos e houve quatro mortos e dois feridos em Diyala.

“A ONU novamente enfatiza que todas as medidas necessárias devem ser tomadas para assegurar a proteção dos civis dos efeitos do conflito armado e da violência”, insistiu Kubis.