Iraque: jovens deslocados de Mossul dizem ter sido torturados por extremistas

Mais de 100 mil moradores de Mossul e arredores fugiram desde que as forças do governo iraquiano lançaram uma ofensiva, em 17 de outubro de 2016, para retomar a segunda maior cidade do Iraque, ocupada pelo Estado Islâmico.

Os irmãos Haidar e Zaineb, de 20 e 23 anos, foram alguns dos jovens sequestrados e torturados pelas milícias extremistas que ocuparam o país. Eles agora vivem com a família em um assentamento construído pela Agência da ONU para Refugiados em Dohuk, no Iraque.

Jovem deslocado de Mossul fala sobre tortura sofrida na mão de extremistas. Foto: ACNUR

Jovem deslocado de Mossul fala sobre tortura sofrida na mão de extremistas. Foto: ACNUR

Toda vez que Haidar* vê um carro preto atravessando o campo de refugiados em que vive em Dohuk, no Iraque, o jovem de 20 anos teme que sejam sequestradores. Cinco meses antes, ele foi sequestrado em sua cidade natal, Mossul, e levado a um suposto tribunal.

“Meus olhos foram vendados e um juiz me acusou de postar poemas provocativos na Internet”, lembra. “Neguei as acusações e soube que eles só tinham me levado porque meu pai trabalhava para as forças iraquianas. Eu não sabia que eles também tinham levado minha irmã, Zaineb, até escutá-la em outro quarto implorando para que nos libertassem”.

Mais de 100 mil moradores de Mossul e arredores fugiram desde que as forças do governo lançaram uma ofensiva, em 17 de outubro de 2016, para retomar a segunda maior cidade do Iraque, ocupada por extremistas do Estado Islâmico.

Alguns iraquianos, como Haidar e Zaineb — que agora estão a salvo e sob os cuidados do da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) na região do Curdistão do Iraque —, relatam terríveis violações sofridas sob o regime extremista.

Levado do suposto tribunal em Mossul para uma prisão, Haidar foi torturado. “Durante um período de 18 dias, colocaram fios elétricos na minha língua e me deram choques”, diz. “Me penduraram de cabeça para baixo e me bateram no rosto, nas costas e nas pernas com mangueiras”.

Detida na mesma prisão, Zaineb, de 23 anos, foi acusada de bruxaria e forçada a assistir a outras presas serem executadas. “Eles decapitaram duas mulheres na minha frente. Uma delas era uma policial”, diz. “Quanto a mim, levei muitos choques na cabeça, nariz e pernas. A dor era insuportável. À noite, eu sabia seria torturada novamente no dia seguinte”, completou.

A mãe dos dois irmãos, Rima, de 50 anos, passava os dias no tribunal dos extremistas, exigindo a libertação de seus filhos. No vigésimo dia de cativeiro, Haidar e Zianeb foram finalmente libertados, após o pagamento de 1 mil dólares.

Os jovens vivem agora com os demais 16 membros da família em um acampamento do ACNUR. No entanto, eles continuam lutando contra as memórias de tortura e violência que testemunharam e enfrentaram.

“Sinto que não acabou, que eles vão voltar para me pegar novamente”, diz Zaineb. “Preciso de um médico. Sinto dor em diferentes partes do corpo por causa dos choques elétricos. Não me sinto mentalmente bem, preciso de alguém para sentar e conversar”.

Seu irmão diz o mesmo: “também quero ver um médico, porque tenho dificuldade de falar após os choques que recebi na língua”.

Com o número de deslocamentos de Mossul aumentando, o ACNUR está empenhado em fortalecer o apoio psicossocial e serviços de aconselhamento nos seis acampamentos que foram abertos desde o início da libertação da cidade, há mais de dois meses. Muitos daqueles que abandonaram a cidade testemunharam a morte de parentes, amigos e vizinhos, e lutam contra essas lembranças.

Nos acampamentos recentemente inaugurados, a agência da ONU e parceiros fornecem primeiros-socorros psicológicos, que incluem aconselhamento especializado conhecido como “escuta reflexiva”, bem como avaliação das necessidades e ajuda adequada.

Agentes de proteção visitam regularmente Haidar, Zaineb e sua família, e organizam atendimento médico e apoio psicológico por meio de uma ONG local. Depois de uma experiência tão angustiante, eles finalmente podem olhar para o futuro.

“Estamos muito felizes por estarmos no acampamento”, diz Haidar. “É o melhor momento que tivemos em dois anos. Estávamos vivendo no inferno. Agora sentimos que renascemos”.

A resposta de emergência do ACNUR em Mossul conta com menos que metade do valor total solicitado para atender as demandas existentes. O ACNUR lançou uma campanha de arrecadação de recursos para cobrir as lacunas de investimentos necessários ao bem-estar da população civil da cidade. Doações podem ser feitas diretamente aos projetos no Iraque clicando aqui.

*Todos os nomes foram alterados por razões de proteção.