Internacionalização da economia da América Latina e Caribe pode precarizar trabalho, alerta OIT

Organização Internacional do Trabalho (OIT) alerta que a crescente participação da região nas cadeias globais de fornecimento pode trazer crescimento econômico, mas não necessariamente ganhos sociais. Marcos políticos devem ser adotados para proteger trabalho decente.

Trabalhadores em projeto de expansão do canal do Panamá. Foto: Banco Mundial / Gerardo Pesantez

Trabalhadores em projeto de expansão do canal do Panamá. Foto: Banco Mundial / Gerardo Pesantez

A inserção de empresas e trabalhadores da América Latina e Caribe nas cadeias globais de fornecimento (CGF) poderá trazer crescimento para a região, mas a expansão econômica não vai necessariamente se traduzir em ganhos sociais para a população.

O alerta é de um novo relatório publicado em julho (26) pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), que propõe o fortalecimento da governança de atores públicos, privados e sociais como solução para proteger o trabalho decente em um cenário de internacionalização — que pode vir acompanhado de redução dos salários, subcontratações, extensão da jornada e redução dos investimentos em saúde e segurança.

Atualmente, as cadeias globais concentram de 60 a 80% do comércio mundial. O papel dos países emergentes tem ganhado destaque. Em 2013, 25% de todas as transações comerciais do mundo foram trocas Sul-Sul entre economias em desenvolvimento.

O documento da OIT, porém, adverte que se “nas últimas duas décadas se assumiu implicitamente que as melhorias econômicas resultam em conquistas sociais, ou seja, melhoram o bem-estar dos trabalhadores nas cadeias, evidências recentes de todo o mundo sugerem que a melhoria econômica não aumenta automaticamente o nível social”.

O organismo internacional destaca que, nos segmentos de menor valor agregado das CGF, que abrem o maior número de postos e utilizam trabalhadores menos qualificados, as empresas não têm incentivos para investir em proteções sociais se isso aumenta seus custos.

É o caso da agricultura e do setor têxtil, que requerem níveis menores de competências do que as etapas e processos mais complexos de indústrias como a de artefatos médicos.

Nos segmentos de tecnologia mais alta, as empresas são estimuladas a investir em sua força de trabalho para reter talentos. Nestes nichos, menos vagas estão disponíveis, mas estas concentram as melhores condições.

Para reverter disparidades dentro das cadeias e entre setores produtivos distintos, a OIT recomenda a adequação de políticas de acordo com os desafios particulares enfrentados por cada grupo de trabalhadores.

A agência da ONU também ressalta que o investimento em recursos humanos e competências é uma das chaves para melhorar a inserção dos latino-americanos e caribenhos nas CGF.

“Sob condições e marcos políticos apropriados, a melhoria econômica e a melhoria social podem andar de mãos dadas”, explica a pesquisa, que chama atenção ainda para a necessidade de garantir “processos de negociação justos, que protejam os direitos dos trabalhadores e garantam o desenvolvimento das empresas”.

Nesse sentido, organizações de trabalhadores e da sociedade civil deverão ser protagonistas da promoção do trabalho decente nas CGF.