Interiorização traz novas perspectivas aos venezuelanos no Brasil

A venezuelana Gabriela Peña fugiu da fome, da escassez generalizada e da repressão política em sua terra natal. Buscou segurança no Brasil, no estado de Roraima. Mesmo depois de finalmente ter acesso a alimentos e medicamentos, não conseguia encontrar o trabalho de que precisava para se sustentar.

Ela participou então do processo de interiorização promovido pelo governo federal com apoio de agências das Nações Unidas. Hoje, trabalha no departamento de Recursos Humanos de um laboratório de diagnósticos. Leia o relato da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).

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A venezuelana Gabriela Peña fugiu da fome, da escassez generalizada e da repressão política em sua terra natal. Buscou segurança no Brasil, no estado de Roraima. Mesmo depois de finalmente ter acesso a alimentos e medicamentos, não conseguia encontrar o trabalho de que precisava para se sustentar.

“Tentei muito encontrar alguma coisa – qualquer coisa”, disse a ex-agente aduaneira de 32 anos que se locomove com a ajuda de uma cadeira de rodas por conta de um acidente de infância que a deixou paralisada da cintura para baixo. “Mas era praticamente impossível.”

Aproximadamente 4,8 milhões de venezuelanos deixaram seu país em meio à crise atual e cerca de 200 mil buscaram segurança no Brasil. A maioria, como Gabriela, faz a viagem por terra, atravessando a fronteira até Roraima.

Uma vez em Roraima, muitos não encontram possibilidades de deixar o estado. Uma viagem de ônibus da capital Boa Vista até Manaus (AM), outra capital da região que pode ser alcançada por terra, demora 16 horas. Já a ligação com outras grandes metrópoles brasileiras por via aérea é cara.

O grande número de venezuelanos em Roraima dificultou qualquer chance de encontrar trabalho estável por lá. Felizmente, a sorte de Gabriela mudou depois que ela, sua mãe e seu marido foram transferidos de Boa Vista para São Paulo, lar de 12 milhões de pessoas.

Em solo paulista, Gabriela, que é formada em Administração, foi contratada pelo departamento de Recursos Humanos de um laboratório de diagnósticos. Seu marido encontrou trabalho como mecânico de automóveis. Graças aos salários, a família alugou um modesto apartamento de dois quartos e Gabriela está esperando seu primeiro filho.

“Aqui em São Paulo, conseguir um bom emprego é fácil”, disse. “Mas sem o voo que nos trouxe aqui, nada disso teria sido possível. Em Roraima, não teríamos conseguido juntar o dinheiro para comprar as passagens de avião.”

Mais de 16.000 refugiados e migrantes venezuelanos participaram do programa de interiorização, administrado pelo governo brasileiro, com o apoio do ACNUR, Agência da ONU para Refugiados e da Organização Internacional para as Migrações.

O ACNUR trabalha para aumentar o número de abrigos que recebem os interiorizados e para que o maior número possível de pessoas possa tirar proveito dos voos de realocação. A agência também distribui assistência financeira a alguns beneficiários para que comprem bens domésticos básicos e recomecem suas vidas em seus novos lares.

Os beneficiários já foram realocados para quase 300 cidades em todo o país, do Rio de Janeiro até a pequena cidade de Marco, no nordeste do Ceará.

Em alguns casos, os beneficiários são interiorizados em voos operados pela Força Aérea Brasileira. Eles são transferidos de abrigos temporários em Boa Vista para abrigos em suas novas cidades anfitriãs, o que lhes proporciona mais estabilidade para procurar trabalho e melhores condições de moradia.

Há ainda pessoas que são realocadas para se juntar a membros da família que já moram em outras partes do Brasil, enquanto outros são recrutados por empresas que precisam de mão de obra antes mesmo de deixar Boa Vista.

Foi o caso de Julio Abreu Machado, de 25 anos, que fugiu do estado venezuelano de Bolívar, devido à fome e à insegurança generalizada em seu país. Chegar são e salvo a Boa Vista foi um alívio que o permitiu suprir suas necessidades básicas, algo impossível em sua terra natal. No entanto, Julio emagreceu cerca de 40 kg devido à escassez de alimentos. Ele se esforçou muito para encontrar um trabalho para se manter.

“Eu gastava as solas dos meus sapatos de tanto andar todos os dias procurando trabalho”, afirmou. Depois de curtos períodos em vários empregos — alguns dos quais pagavam significativamente menos do que o salário mínimo — Julio foi contratado para trabalhar em um frigorífico e se mudou para o interior do Mato Grosso do Sul.

Desde que começou no novo emprego há oito meses, Julio foi promovido da linha de montagem de salsichas a supervisor assistente do setor. Com o salário que ganha, alugou a casa onde mora com sua esposa, Lorena, seu filho brasileiro, Paulo, de 1 ano e meio, a irmã gêmea de Lorena e seu parceiro.

“O programa de interiorização foi como um renascimento para a nossa família”, disse Julio, que espera economizar o suficiente para montar um ‘food truck’ como negócio paralelo no futuro. “Nossas vidas agora seriam muito diferentes – e piores – se não tivéssemos no Mato Grosso do Sul”.

A inclusão econômica de refugiados foi um dos tópicos discutidos no Fórum Global sobre Refugiados, reunião realizada em Genebra nos dia 17 e 18 de dezembro de 2019. Na ocasião, Estados, setor privado e outros atores anunciaram contribuições com o objetivo dedar aos refugiados a chance de exercer e desenvolver suas habilidades e contribuir para o crescimento econômico das comunidades que os acolhem.