Indígena warao compartilha conhecimentos em oficina de artesanato em SP

Antes mesmo do primeiro dia de aula, as vagas já estavam esgotadas para a oficina “Criação de Artesanato com Fibras de Buriti”, realizada em janeiro pelo SESC-SP, na unidade do Belenzinho, região central de São Paulo. A grande procura reflete o interesse da população paulistana em aprender técnicas de trançado e pintura de duas etnias indígenas, Warao e Macuxi.

São muitas as diferenças sociais, culturais e regionais entre as duas etnias. Os Macuxi habitam a região de fronteira entre o Brasil e a Guiana, ocupando áreas de campo e de serras no extremo norte do estado de Roraima e o norte do distrito guianense de Rupununi.

Já os Warao são provenientes do Delta do Orinoco, nordeste da Venezuela e, desde 2016, passaram a viver na cidade fronteiriça de Pacaraima (RR), como resultado da delicada situação da Venezuela. Em comum, as etnias utilizam as fibras do Buruti, uma palmeira amazônica, como forma de produção de artesanatos e geração de renda. O relato é da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).

Este slideshow necessita de JavaScript.

Antes mesmo do primeiro dia de aula, as vagas já estavam esgotadas para a oficina “Criação de Artesanato com Fibras de Buriti”, realizada em janeiro pelo SESC-SP, na unidade do Belenzinho, região central de São Paulo. A grande procura reflete o interesse da população paulistana em aprender técnicas de trançado e pintura de duas etnias indígenas, Warao e Macuxi.

São muitas as diferenças sociais, culturais e regionais entre as duas etnias. Os Macuxi habitam a região de fronteira entre o Brasil e a Guiana, ocupando áreas de campo e de serras no extremo norte do estado de Roraima e o norte do distrito guianense de Rupununi.

Já os Warao são provenientes do Delta do Orinoco, nordeste da Venezuela e, desde 2016, passaram a viver na cidade fronteiriça de Pacaraima (RR), como resultado da delicada situação da Venezuela. Em comum, as etnias utilizam as fibras do Buruti, uma palmeira amazônica, como forma de produção de artesanatos e geração de renda.

“Nossa comunidade já estava estabelecida em Pacaraima e, com a chegada dos Warao, que se caracteriza como uma migração forçada pelas dificuldades que eles enfrentam na Venezuela, entendemos que seria preciso integrá-los em nossa rede. Esse é um importante passo para promover sua autossuficiência, sendo o artesanato um caminho possível”, disse a macuxi Marineide, de 49 anos.

Maricela é uma das seis artesãs Warao que integram esta troca de saberes entre ambas as etnias. A proposta, idealizada por Marineide, é buscar fortalecer o trabalho e a comercialização conjunta dos variados artesanatos produzidos, como cestarias, bolsas, miçangas, colares e outros produtos feitos à mão.

“Estou muito feliz de estar aqui em São Paulo para mostrar um pouco de como o nosso trabalho é feito. É muito bom também saber do interesse das pessoas daqui, que valorizam nossos saberes. Solicitei refúgio no Brasil e é difícil ter que recomeçar a vida, sem perspectivas de quando poderemos voltar para o nosso país com segurança. Espero que, por meio do artesanato, consigamos nos manter”, disse a artesã.

O abrigo Janokoida (que em Warao significa “casa grande”), localizado em Pacaraima, reúne cerca de 420 indígenas Warao e busca integrá-los à sociedade urbana. Gerido pela organização não governamental Fraternidade, parceira da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), além do abrigamento, o objetivo é garantir os direitos básicos dessa população e, da mesma forma, propiciar meios para que suas culturas e tradições sejam preservadas.

“Em Janokoida, onde estão registradas 40 mulheres indígenas artesãs, distribuímos alimentos uma vez por semana para que nos demais dias elas possam preparar sua própria comida, conforme sua tradição. Esta prática possibilita que não se tornem dependentes da ajuda humanitária, propiciando também a manutenção dos vínculos culturais e hábitos sociais”, declarou Rafael Levy, chefe do escritório do ACNUR na cidade fronteiriça.

Como facilitador do processo de adaptação dos Warao, a administração do abrigo promove ações socioeducativas, incentiva a prática de esportes e oferece aulas de português, história, educação cidadã, além de orientações sobre higiene e saúde. Apesar das importantes iniciativas de integração, o grande dilema para fortalecer a troca de saberes entre as diferentes comunidades indígenas é o custo de transporte entre o abrigo Janokoida e a comunidade Macuxi.

“Contamos com a solidariedade de pessoas que, por vezes, realizam o transporte das mulheres do abrigo Janokoida para a nossa comunidade. Nossa ideia era de realizar uma atividade todo fim de semana, mas por conta dessa dificuldade, os encontros só acontecem a cada quinze dias, dependendo da disponibilidade de caronas”, afirmou Marineide.

Ao saber desta dificuldade no norte do país, a aposentada Eunice, que participou da oficina de artesanato do SESC-SP, reforçou o potencial desta troca de saberes para que as identidades das etnias sejam preservadas e novos conhecimentos sejam compartilhados.

“Sou aprendiz de artesã e nunca havia tido contado com essa arte de cestarias. É impressionante o cuidado dos traçados, a forma sustentável como são utilizados os materiais naturais, o conhecimento por trás de cada gesto. E o produto final, é mesmo lindo”, declarou.

A oficina “Criação de Artesanato com Fibras de Buriti” terminou na última sexta-feira (25), quando a cidade de São Paulo comemorou 465 anos. Um bolo comemorativo desta data e pelos artesanatos que foram feitos ao longo da oficina simbolizou o agradecimento da turma às mulheres indígenas.

Estas, por sua vez, regressarão a Pacaraima com o sentimento de que seus saberes são muito valorizados na maior cidade da América do Sul – e seguramente os serão em qualquer cidade que sejam apresentados.

O ACNUR atua de forma articulada para integrar em seu plano de trabalho os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), incorporando a Agenda 2030 para promover sociedades pacíficas, justas e inclusivas, livres do medo e da violência.