Indígena brasileiro premiado pela ONU luta há mais de 20 anos para salvar sua tribo e floresta

Almir Narayamoga Surui durante cerimônia de premiação da ONU ‘Herói da Floresta’. Foto: ONU/Metehan Kurt

O indígena brasileiro Almir Narayamoga Surui foi um dos cinco homenageados pelo Prêmio ‘Herói da Floresta’ no Fórum das Nações Unidas sobre Florestas, que ocorre entre os dias 8 e 19 de abril em Istambul, Turquia. O prêmio reconhece “heróis desconhecidos” de todo o mundo que estão trabalhando para sustentar, proteger e gerir florestas.

Almir nasceu em uma tribo indígena da Amazônia — os Paiter-Surui — em Rondônia, num momento em que o seu povo tinha muito pouco contato com o mundo fora da floresta. Ele é o primeiro membro dos Surui a cursar a faculdade e há mais de 20 anos vem lutando para salvar a sua tribo e a floresta amazônica.

Os Paiter-Surui sofreram o impacto do desenvolvimento quando a região onde moram passou a ser explorada economicamente.”O meu povo foi reduzido de 5 mil para 295 pessoas”, afirmou Almir.

Luta por direitos dos indígenas

Desde os 17 anos, ele luta pelos direitos da sua e de outras tribos na floresta e já conseguiu que o governo do Estado construísse escolas, poços e clínicas médicas para os indígenas da região. Ele também liderou a criação de um plano de 50 anos que engloba esforços em grande escala de conservação, projetos de reflorestamento e atividades que oferecem alternativas econômicas à exploração da floresta.

“Hoje em dia, as florestas da Amazônia estão localizadas no interior das terras indígenas. Nos territórios que não pertencem a grupos indígenas, as florestas que não existem mais”, disse ele, ressaltando que sua luta é contra a tendência que existe no Brasil de “igualar o desenvolvimento com o corte de árvores”.

De acordo com o Departamento da ONU para Assuntos Econômicos e Sociais (UNDESA), o processo de demarcação de terras indígenas no Brasil tem sido lento e os povos indígenas continuam a pressionar os governos para o pleno reconhecimento legal de seus direitos sobre terras tradicionais.

O Relator Especial da ONU sobre os direitos dos povos indígenas, James Anaya, também alertou que a extração de recursos naturais e outros grandes projetos de desenvolvimento em ou perto dos territórios de povos indígenas é uma das fontes mais importantes de abuso dos direitos humanos em todo o mundo.

Realizações de Almir fortalecem indígenas na região

Entre suas muitas realizações, Almir convenceu o Banco Mundial a re-estruturar um programa de desenvolvimento regional para melhor beneficiar os grupos indígenas locais. Ele espera gerar renda para os Paiter-Surui vendendo créditos de carbono florestais. Para atingir esse objetivo, ele convenceu a gigante de tecnologia Google a ajudar sua tribo a usar tecnologia digital para monitorar e mapear a floresta.

“É um verdadeiro desafio para nós manter nossa floresta como era antes”, destacou. No ano passado, 12 líderes Surui foram ameaçados. Hoje, há sete líderes que são alvo de ameaças e estão sob a proteção da polícia e de representantes do escritório de direitos humanos do Governo.

“Meu povo, os Suruí, tem uma relação muito próxima com a floresta. Nós nascemos na floresta, a floresta é tudo para nós. A floresta nos ensina coisas, nos dá nossa comida e medicamentos. Ela fornece materiais para a nossa vida espiritual. Todas estas coisas que a floresta nos oferece é parte de nossas vidas”, explicou.

“Eu não estou dizendo que as florestas devem permanecer intocadas. O que estou dizendo é que as florestas devem ser respeitadas, admiradas e utilizadas de uma forma que nos permitam ser capazes de continuar a ter uma relação com elas”, acrescentou.