Iêmen poderá passar por ‘maior fome que mundo já viu em décadas, com milhões de vítimas’

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Chefe humanitário da ONU visitou país abalado por conflitos no final de outubro e alertou sobre bloqueio promovido pelo país. Apesar das condições desafiadoras e da falta de financiamento, as Nações Unidas e parceiros humanitários estão prestando assistência direta a mais de 7 milhões de pessoas por mês.

Desde março de 2015, o número de mortos nos combates no Iêmen é de 5.295. Mais de 8,8 mil pessoas ficaram feridas. O país também está passando pela epidemia de cólera de crescimento mais rápido já registrado. Até o dia 1º de novembro, houve cerca de 895 mil casos suspeitos – mais da metade em crianças –, com cerca de 2,2 mil mortes associadas desde 27 de abril.

Civis desalojados no Iêmen. Foto: ACNUR

Civis desalojados no Iêmen. Foto: ACNUR

Ao final de uma missão de cinco dias no Iêmen, o chefe humanitário da ONU, Mark Lowcock, ressaltou, no final de outubro (28), a necessidade de mais financiamento e melhor acesso humanitário para ajudar a população em situação de vulnerabilidade.

Assolado por uma guerra civil desde 2015, o Iêmen enfrenta uma das maiores emergências humanitárias da história, incluindo uma epidemia de cólera sem precedentes, insegurança alimentar e grave crise migratória.

“Durante minhas visitas às cidades de Áden, Sana’a, Lahj, Hudadydah, Hajjah e Amran, conheci centenas de iemenitas e escutei suas histórias de sofrimento atroz”, disse Lowcok, que também chefia o Escritório das Nações Unidas de Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA).

Ele disse que as Nações Unidas e seus parceiros têm capacidade para expandir ainda mais seu trabalho, mas que, para isso, um maior financiamento é necessário e todas as partes devem facilitar – e nunca prejudicar – a assistência.

Assolado por uma guerra civil entre rebeldes houthi e apoiadores do governo internacionalmente reconhecido em 2015, o Iêmen enfrenta uma das maiores crises humanitárias do mundo, incluindo a epidemia de cólera com maior crescimento já registrado, grave emergência alimentar do mundo e o deslocamento populacional generalizado.

O chefe do OCHA, Mark Lowcock, conversa com um grupo de deslocados no Iêmen. Foto: OCHA Iêmen

O chefe do OCHA, Mark Lowcock, conversa com um grupo de deslocados no Iêmen. Foto: OCHA Iêmen

Em sua primeira vez no país desde a nomeação em 1º de setembro deste ano, o chefe do OCHA manteve discussões francas com as autoridades em Áden e Sana’a sobre formas de aliviar o sofrimento da população e abordar o ambiente operacional desafiador.

Em Áden, ele pediu que o primeiro-ministro, Ahmed Obeid bin Dagher, assegure o progresso no pagamento de salários aos profissionais de saúde, professores e outros funcionários públicos. Pediu ainda que o aeroporto de Sana’a fosse reaberto para voos comerciais e humanitários, além de melhorar a operação dos portos.

“Estou preocupado com os níveis crescentes de interferência no trabalho das agências humanitárias, incluindo atrasos na concessão e a negação de vistos, atrasos de equipamentos essenciais e suprimentos nos portos, impedimentos burocráticos que afetam ONGs e prevenção de avaliações essenciais de necessidades para que possamos direcionar nossa assistência de forma mais eficaz”, disse.

Lowcock enfatizou que o fim do horrível sofrimento no Iêmen exige o fim do conflito, para o qual é necessária uma resolução política.

“Na ausência de progressos substanciais em todos esses pontos, a situação já grave irá piorar. O sofrimento humano, já extremo, crescerá cada vez mais”, acrescentou.

Apesar das condições desafiadoras e da falta de financiamento, as Nações Unidas e parceiros humanitários estão prestando assistência direta a mais de 7 milhões de pessoas por mês.

Sem acesso, Iêmen terá ‘maior fome em décadas’ no mundo

Lowcock alertou em meados de novembro (9) ao Conselho de Segurança que, se o acesso aéreo, marítimo e terrestre não for reaberto no Iêmen, “haverá fome” no país.

Segundo Lowcock, não será uma fome como a vista no Sudão do Sul no início deste ano, que atingiu dezenas de milhares de pessoas ou a que custou a vida de 250 mil na Somália em 2011.

Lowcock declarou que está seria a “maior fome que o mundo já viu em décadas, com milhões de vítimas”.

No início do mês (7), a ONU havia confirmado que as operações humanitárias para o Iêmen estavam bloqueadas devido ao fechamento de acessos aéreos e marítimos no país.

O fechamento ocorreu após a morte de um príncipe saudita e sete outras pessoas na queda de um helicóptero perto da fronteira do Iêmen com a Arábia Saudita, país que lidera a coligação que atua no conflito iemenita.

Falando a jornalistas na sede da ONU na quarta-feira (8), em Nova Iorque, após seu informe ao Conselho de Segurança, Lowcock defendeu a realização de cinco medidas.

Em primeiro lugar, o subsecretário-geral pediu a retomada imediata de serviços aéreos regulares da ONU e de outros parceiros humanitários a Sana’a e Áden, seguida de uma garantia “clara e imediata” de que não haverá outras interrupções a esses serviços.

Lowcock citou ainda um acordo sobre o posicionamento do navio do Programam Mundial de Alimentos da ONU (PMA) na costa de Áden, com garantias de que as funções que ele apoia não seriam mais interrompidas; e a retomada imediata do acesso humanitário e comercial a todos os portos do Iêmen, especialmente para comida, combustível, medicamentos e outros suprimentos essenciais.

Por fim, o chefe humanitário das Nações Unidas pediu a redução da interferência, com atrasos ou bloqueios, a todos os navios que tenham passado por inspeção do Mecanismo da ONU de Verificação e Inspeção para que possam seguir em direção aos portos o mais rápido possível.

Segundo o subsecretário-geral, isso seria “muito importante”, já que o acesso humanitário através dos portos já “era inadequado mesmo antes das medidas anunciadas em 6 de novembro”.

Desde março de 2015, o número de mortos nos combates no Iêmen é de 5.295. Mais de 8,8 mil pessoas ficaram feridas. O país também está passando pela epidemia de cólera de crescimento mais rápido já registrado.

Até o dia 1º de novembro, houve cerca de 895 mil casos suspeitos – mais da metade em crianças –, com cerca de 2,2 mil mortes associadas desde 27 de abril.

ONU preocupada com série de ataques no Iêmen que matou dezenas de civis

Uma série de ataques no Iêmen ocorridos no início do mês tem preocupado “profundamente” o Escritório de direitos humanos das Nações Unidas.

Mais de 30 pessoas morreram – incluindo crianças – em dois bombardeios aéreos, em 1º de novembro, realizados pela coalizão liderada pela Arábia Saudita, que agora está investigando o incidente.

Os ataques deixaram 24 feridos. Um dos bombardeios ocorreu num mercado aberto na região de Saada. Entre as vítimas estavam hóspedes de um hotel e vendedores.

A ONU lembra que, mesmo em situações de conflitos armados, os civis jamais devem ser submetidos a perigos. O direito internacional proíbe ataques a alvos civis e obriga a todas as partes a proteger a população.

Prédios destruídos após bombardeios na cidade de Saada, no Iêmen. Foto: OCHA/Philippe Kropf

Prédios destruídos após bombardeios na cidade de Saada, no Iêmen. Foto: OCHA/Philippe Kropf

Um dia após as mortes, sete membros da mesma família numa fazenda foram mortos durante um outro ataque na região, que não continha nenhum alvo militar.

Cinco crianças perderam a vida e duas ficaram feridas num outro atentado em Taizz, realizado pelo Comitê Popular, que é afiliado aos rebeldes houthis, além das unidades do Exército leais ao ex-presidente Abdullah Saleh.

Neste último caso, as crianças brincavam na rua quando um foguete lançado da área houthi caiu sobre elas.

No fim de semana, um míssil do Iêmen foi lançado contra a capital saudita Riad. O projétil foi interceptado e parte caiu no mar, segundo autoridades locais.

O alto-comissário da ONU para os direitos humanos, Zeid Al Hussein, disse que em breve nomeará membros de um Grupo de Peritos Eminentes, que foi formado pelo Conselho de Direitos Humanos para apurar alegações de violações cometidas no conflito iemenita.

(Com informações da sede da ONU em Nova Iorque)


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