Iêmen: plano para retirada de tropas de porto é aceito, mas confrontos aumentam em outras áreas

Um plano de retirada de forças de linhas da frente dentro e em torno do porto iemenita de Hodeida foi aceito por forças pró-governo e por rebeldes houthis, afirmou na semana passada (15) ao Conselho de Segurança o enviado especial das Nações Unidas para o país.

No entanto, a guerra que deixou 80% da população iemenita em necessidade de ajuda humanitária não mostra sinais de diminuição em outras partes do país, alertou Martin Griffiths.

Crianças caminham por uma parte do centro de Craiter, em Aden, no Iêmen. A área foi seriamente danificada pelos ataques aéreos em 2015, quando os houthi foram expulsos da cidade pelas forças da coalizão. Foto: OCHA / Giles Clarke

Crianças caminham por uma parte do centro de Craiter, em Aden, no Iêmen. A área foi seriamente danificada pelos ataques aéreos em 2015, quando os houthi foram expulsos da cidade pelas forças da coalizão. Foto: OCHA / Giles Clarke

Um plano de retirada de forças de linhas da frente dentro e em torno do porto iemenita de Hodeida foi aceito por forças pró-governo e por rebeldes houthis, afirmou na semana passada (15) ao Conselho de Segurança o enviado especial das Nações Unidas para o país.

No entanto, a guerra que deixou 80% da população iemenita em necessidade de ajuda humanitária não mostra sinais de diminuição em outras partes do país, alertou Martin Griffiths.

Ele afirmou que após um “longo e difícil processo” em torno dos detalhes de um plano apoiado pela ONU, “ambas as partes agora aceitaram o plano detalhado de remobilização”.

Os detalhes foram assinados em dezembro na Suécia por partes conflitantes para reduzir confrontos em torno de Hodeida, como início de um processo para futuramente encerrar confrontos em todo o país.

Ele afirmou que o acordo marca as “primeiras retiradas voluntárias de forças neste longo conflito”, destacando que casos de violência foram significativamente reduzidos em torno da cidade portuária.

O porto de Hodeida é ponto de entrada para a grande maioria da ajuda e de bens que chegam ao país desde que o frágil cessar-fogo começou.

Griffiths disse a membros do Conselho que está comprometido em ajudar a facilitar uma solução política para o fim da guerra.

“Minha responsabilidade primária nas próximas semanas será amenizar as diferenças entre as partes para que, quando se encontraram, possam responder de forma eficaz perguntas precisas sobre a natureza dos arranjos para terminar a guerra”, afirmou.

“Busco apoio deste Conselho para esta abordagem. Peço para colocarem sua fé na necessidade desesperada de paz, que é pedido diário de milhões de iemenitas que ainda acreditam nesta possibilidade.”

Sem maior apoio, ‘o fim está próximo’ para iemenitas, diz chefe humanitário da ONU

O coordenador humanitário da ONU, Mark Lowcock, discursou ao Conselho de Segurança em seguida, via videoconferência, reforçando o pedido de Griffith por ações da comunidade internacional para salvar “incontáveis vidas”.

Ele reiterou seu pedido anterior por um cessar-fogo nacional, acrescentando que “todos os homens com armas e bombas precisam parar a violência”.

Mas tiros não são o único risco à vida, alertou. Até agora neste ano, 200 mil possíveis casos mortais de cólera foram relatados, quase três vezes mais em relação ao mesmo período no ano passado.

“Vimos as consequências da destruição do sistema de saúde em outras áreas também. Mais de 3.300 casos de difteria foram relatados desde 2018 – o primeiro surto no Iêmen desde 1982. Mais cedo neste ano, novos casos de sarampo cresceram quase duas vezes em relação ao mesmo período em 2018.”

Além disso, o risco de fome continua, alertou Lowcock, dizendo que o Programa Mundial de Alimentos (PMA) está intensificando o alcance de apoio para a maior operação de ajuda do mundo. O apoio irá passar de 9 milhões de pessoas ao mês para 12 milhões ao mês “nos próximos meses”.

O acesso às pessoas mais vulneráveis ainda é um desafio. Grãos estocados nos Moinhos do Mar Vermelho, em Hodeida, que podem alimentar 3,7 milhões de iemenitas, estão inacessíveis por conta do conflito. Além disso, o dinheiro está se esgotando para salvar vidas, disse Lowcock. Dos 2,6 bilhões de dólares prometidos, apenas 267 milhões foram recebidos.

Segundo o coordenador, a OMS “projeta que 60% dos centros de tratamento para diarreia podem fechar nas próximas semanas e serviços em 50% dos centros de assistência secundária podem sofrer problemas”.

“Permanecemos profundamente cientes de que uma paz sustentável – como Martin Griffiths disse muitas vezes – será a solução mais eficaz para a crise humanitária no Iêmen”, concluiu Lowcock. “Sem paz, iremos simplesmente continuar tratando os sintomas desta crise, em vez de responder à causa.”

“Me permitam resumir. A violência aumentou novamente. A operação de ajuda está ficando sem dinheiro. Impedindo mudanças, o fim está próximo.”

Violência e abusos contra crianças

A representante especial da ONU para Crianças e Conflitos Armados, Virginia Gamba, focou em como as pessoas mais vulneráveis do Iêmen sofrem com a guerra, destacando mais de 3 mil crianças “verificadas como recrutadas e usadas”.

Além disso, mais de 7.500 crianças foram mortas ou mutiladas, com mais de 800 casos de acesso humanitário negado, durante quase cinco anos de batalhas.

Quase metade das crianças mortas ou mutiladas, disse Gamba, foi vítima de ataques aéreos, pelos quais a coalizão de apoio ao governo liderada pela Arábia Saudita “possui a principal responsabilidade”.

Em solo, no entanto, “os houthis foram responsáveis pela maioria” das mortes, predominantemente através de bombardeios, morteiros e tiros de armas de pequeno porte.

Ela também pediu para a comunidade internacional priorizar fundos para o Iêmen, “para fornecer às crianças uma chance de sobreviverem, estudarem e construírem o Iêmen do amanhã”.