Iêmen: ONU elogia diálogo para redistribuir tropas em polo de recursos humanitários

O enviado especial das Nações Unidas para o Iêmen, Martin Griffiths, afirmou nesta semana (19) que “progresso significativo” está sendo feito para implementar o acordo de redistribuição de tropas na cidade portuária de Hodeida, a principal porta de entrada da assistência humanitária no país. Em dezembro, o governo iemenita e lideranças houthis, atualmente em conflito, concordaram com um cessar-fogo na região.

Médico mede o braço de menino iemenita de 12 anos que sofre de desnutrição, num centro de tratamento em Sanaa. Foto: UNICEF/Huwais

Médico mede o braço de menino iemenita de 12 anos que sofre de desnutrição, num centro de tratamento em Sanaa. Foto: UNICEF/Huwais

O enviado especial das Nações Unidas para o Iêmen, Martin Griffiths, afirmou nesta semana (19) que “progresso significativo” está sendo feito para implementar o acordo de redistribuição de tropas na cidade portuária de Hodeida, a principal porta de entrada da assistência humanitária no país. Em dezembro, o governo iemenita e lideranças houthis, atualmente em conflito, concordaram com um cessar-fogo na região.

Em acordo firmado em Estocolmo, na Suécia, autoridades e opositores também se comprometeram a redistribuir seus militares em determinadas localidades do Iêmen. A expectativa é de que o rearranjo dos contingentes melhore a distribuição de mantimentos para a população.

Em relatório divulgado mais cedo neste mês, o Escritório das Nações Unidas de Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) destacou que mais de 20 milhões de pessoas no país não têm comida suficiente para satisfazer suas necessidades diárias de alimentação. Metade delas vive com níveis extremos de fome.

Em pronunciamento no Conselho de Segurança da ONU por meio de videoconferência, Griffiths elogiou a “forte liderança” do general Michael Lollesgaard, que comanda a operação das Nações Unidas de monitoramento do cessar-fogo. Sob a gestão de Lollesgaard, as autoridades e os opositores concordaram com a primeira etapa da redistribuição de tropas, que vai começar pelos portos de Saleef e Ras Isa. O segundo passo será o porto de Hodeida.

“Isto irá facilitar o acesso humanitário aos Moinhos do Mar Vermelho”, afirmou Griffiths em referência a um armazém que guarda suprimentos suficientes para alimentar 3,7 milhões de pessoas por mês. Mas o depósito fica num local de difícil acesso por causa de questões de segurança.

O enviado da ONU disse ainda que foi observado um fortalecimento das atividades civis em Hodeida. “As pessoas da cidade já estão, neste estágio muito inicial, vendo alguns benefícios tangíveis da redução de hostilidades na área, como resultado do acordo de Estocolmo”, explicou o dirigente.

Na avaliação de Griffiths, o consenso sobre a primeira fase da redistribuição de tropas demonstra que as partes em conflito são capazes de transformar as suas palavras em progressos concretos no terreno. O diálogo também fortalece a confiança entre os atores e mostra disposição política.

Sobre o acordo de troca de prisioneiros, o representante das Nações Unidas agradeceu o empenho do governo iemenita e das forças afiliadas aos Houthi, que têm se articulado para libertar e trocar todos os detidos e desaparecidos. “Todos por todos. Esta é a palavra de ordem para este processo”, disse Griffiths.

Embora Hodeida seja frequentemente citada como o “epicentro do conflito”, o representante da ONU ressaltou que “o verdadeiro epicentro para nós precisa ser avançar na direção de uma solução política”.

O conflito do Iêmen tem suas raízes em levantes que começaram em 2011, mas os confrontos armados se intensificaram em março de 2015, quando uma coalizão internacional, liderada pela Arábia Saudita, interveio militarmente, a pedido do presidente do Iêmen. O país já era um dos mais pobres do mundo antes da escalada de violência.

Crise humanitária

Também no Conselho de Segurança, o chefe humanitário da ONU, Mark Lowcock, alertou que os números sobre as necessidades de assistência no país são “consideravelmente piores que os do ano passado”.

Estima-se que 24 milhões de pessoas, ou 80% da população, precisem de ajuda humanitária. Desse contingente, 14,3 milhões são classificadas como em necessidade aguda, com cerca de 3,2 milhões precisando de tratamento para má-nutrição aguda. Esse grupo inclui 2 milhões de crianças com menos de cinco anos e mais de 1 milhão de mulheres grávidas e lactantes.

“Cerca de 3,3 milhões (de iemenitas) permanecem deslocados, fora de suas casas, incluindo 685 mil que fugiram do confronto ao longo da costa oeste, desde junho de 2018”, explicou Lowcock ao Conselho.

O dirigente atribuiu a piora nas condições de vida da população ao conflito, ao desrespeito ao direito humanitário internacional e ao colapso econômico de 2018. “A violência foi reduzida em Hodeida após o acordo de Estocolmo, mas tem continuado em outras áreas e se agravou em algumas áreas da linha de frente, especialmente em Hajjah”, disse Lowcock.

“Em meio ao conflito, a economia continua a se desmantelar.”

A moeda iemenita, o rial, está perdendo valor e agências humanitárias estão ficando sem verba.

Lembrando que a resposta humanitária coordenada pela ONU no Iêmen é a maior do mundo, Lowcock ressaltou os “resultados impressionantes” das operações de assistência, que conseguem ajudar quase 8 milhões de pessoas por mês desde o ano passado.

Apesar dos números positivos, agências continuam enfrentando obstáculos, que incluem não só questões orçamentárias, mas também atrasos de vistos, restrições da movimentação, atrasos em importações e impedimentos burocráticos. “Estamos particularmente preocupados com o fato de que o ambiente operacional está se tornando mais restritivo do que nunca no norte do Iêmen”, acrescentou o coordenador.


Comente

comentários