‘Iêmen desmorona diante de nossos olhos. Não podemos ficar de braços cruzados’, alerta chefe da ONU

Com uma crise política perigosa, uma situação humanitária delicada, ataques do Al-Qaeda e um movimento separatista em ebulição, o Iêmen se encontra à beira do colapso, alertou Ban Ki-moon ao pedir a colaboração dos Estados-membros da ONU para ajudar o país.

Estima-se que os danos à propriedade e infraestrutura causados por lutas entre tropas do governo e militantes é de 95% em algumas áreas no Iêmen. Foto: OCHA/EmanAl-Awami

Estima-se que os danos à propriedade e infraestrutura causados por lutas entre tropas do governo e militantes é de 95% em algumas áreas no Iêmen. Foto: OCHA/EmanAl-Awami

Com uma crise política perigosa, uma situação humanitária delicada, ataques do Al-Qaeda e um movimento separatista em ebulição, o Iêmen se encontra à beira do colapso, alertou o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, ao Conselho de Segurança nesta quinta-feira (12), lembrando a comunidade internacional sobre sua “obrigação solene”, segundo a Carta das Nações Unidas, de ajudar a um país a evitar uma escalada do conflito.

“Temos seguido os recentes desenvolvimentos no Iêmen com a mais profunda preocupação”, informou Ban aos 15 membros do Conselho. “Deixe-me ser claro: o Iêmen está desmoronando diante de nossos olhos. Não podemos assistir de braços cruzados”, advertiu.

Apesar da formação de um novo governo em novembro de 2014, com o objetivo de pôr fim a um período de turbulência política e completar a transição total do país para a democracia, o Iêmen continua atormentado pela violência e manifestações políticas em massa.

Há duas semanas, o chefe da ONU expressou sua grave preocupação sobre a evolução da situação no país, após o rapto do chefe da equipe do presidente pelo grupo de oposição Ansarallah, da demissão do presidente e seu primeiro-ministro e do controle da capital do país, Saná, pelos militantes separatistas Huti. Estes fatos vieram acompanhados pela deterioração constante da segurança desde o início do ano, com forças do governo enfrentando grupos militantes em toda a capital.

Mistura explosiva

O secretário-geral também citou os ataques “generalizados e letais” do Al-Qaeda na Península Arábica. A escalada de hostilidades entre esse grupo e os Hutis está levando o país à beira de uma guerra civil. Somada à crise humanitária que já afeta 61% da população, a situação no Iêmen representa hoje uma ameaça para a paz e as seguranças regional e internacional, adicionou Ban.

Os Estados-membros têm a obrigação de ajudar ao Iêmen a sair dessas circunstâncias preocupantes e voltar para o caminho certo dentro do processo político, insistiu Ban, lembrando o compromisso assumido por estas nações no âmbito da Carta das Nações Unidas.

O assessor especial das Nações Unidas sobre o Iêmen, Jamal Benomar, que continuou a facilitar as negociações com todas as partes nacionais interessadas apesar das circunstâncias operacionais muito difíceis, também advertiu o Conselho de que o Iêmen encontra-se em uma “encruzilhada”.

“Ou o país vai acabar em uma guerra civil e desintegração, ou o país vai encontrar uma maneira de colocar a transição de volta ao caminho certo”, declarou ele. “Isso depende muito da vontade política dos líderes iemenitas. Todos eles têm sua responsabilidade na atual situação, bem como a responsabilidade de encontrar uma maneira de tirar o país da beira do abismo”, disse.

Os efeitos dessa contínua instabilidade transformaram o Iêmen em uma colcha de retalhos de feudos em ebulição – uma mistura explosiva de queixas não resolvidas que correm o risco de inundar todo o processo de construção da paz. Na província rica em petróleo de Mareb, por exemplo, Benomar observou que muitos moradores temiam um confronto entre os Hutis e os membros das tribos locais. Enquanto isso, no Sul, a situação permanece volátil.

O assessor especial também mostrou sua preocupação com o ressurgimento do grupo do Al-Qaeda na Península Arábica e a insegurança financeira do país, que apenas ajudará a aumentar ainda mais a profunda crise humanitária no Iêmen.