Hondurenha busca refúgio no México para proteger filhos da violência das gangues

AUMENTAR LETRA DIMINUIR LETRA

Emily tinha toda uma vida em Honduras quando seus filhos passaram a ser ameaçados por membros de gangues, os chamados “maras”. Ela mesma chegou a ser agredida por um dos criminosos e, para sobreviver, decidiu deixar mãe e irmão para trás e proteger seus quatro filhos.

No México, a família teve que dormir nas ruas, mas logo foi acolhida por um abrigo apoiado pela Agência da ONU para Refugiados (ACNUR). Hoje, seus filhos recebem apoio psicológico e, o mais velho, conseguiu um emprego em território mexicano. Leia o relato feito pela agência da ONU.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Tudo estava dando certo para a Emily* até o momento em que a gangue chegou. Emily, uma mãe solteira, morava com sua mãe e seus quatro filhos na cidade de San Pedro Sula, em Honduras. Tinha o seu próprio negócio: uma pequena loja perto de casa, e vivia rodeada por amigos e vizinhos. Seus dias eram cheios de alegria, e ela tinha a satisfação de saber que estava cuidando de si mesma e de suas crianças.

Emily é cristã devota e criou seus filhos para que soubessem que a violência não é a resposta para os problemas do país. Ela viu a devastação que os maras – termo comum na América Central para descrever gangues – causaram em sua cidade e em sua vizinhança. Famílias foram destruídas, comerciantes honestos foram aterrorizados e mulheres passaram a ter medo de andar sozinhas. Sua oração diária pedia que as crianças não entrassem em gangues, mas ajudassem a trazer paz ao país.

“Algumas crianças não veem problema em se juntar a gangues”, conta. “Isso faz com que se sintam poderosas e lhes dá o sentimento de pertencer a um grupo. As chances de ter uma vida decente são tão pequenas que se unir a uma gangue não parece tão terrível. Acredito que, nesse contexto, dar às crianças uma boa educação é essencial. Ensinei meus filhos o que é certo e o que é errado. Assim, eles nunca pensaram em virar criminosos”, diz.

No entanto, os maras tinham outros planos. O filho mais velho de Emily, Daniel, recusou-se a fazer parte de uma gangue. Ele trabalhava de forma honesta como soldador e ajudava a sustentar sua avó e irmãos mais novos.

Em setembro de 2015, integrantes de uma gangue começaram a assediá-lo no caminho para o trabalho. Depois disso, vieram as ameaças e, em seguida, as extorsões. Emily foi forçada a pagar “impostos de guerra” às gangues para poder manter seu negócio. Mas ela havia dado uma boa educação ao filho. E ele, apesar da imensa pressão, recusou-se a entrar na vida do crime.

Contudo, os membros da gangue fizeram o impensável. Esperaram até que a Emily estivesse caminhando na rua com seu filho de 5 anos, Mateo, e a atacaram. Um grupo de homens a agrediu na frente do filho. Aconteceu em plena luz do dia, e os policiais que estavam ao lado assistiram a tudo sem fazer nada.

Ela implorou que poupassem sua vida e a de seu filho. Perguntou várias vezes por que a atacavam. “Estamos nessa vizinhança há anos, por que nós?”, lembra. “Eu sabia que não podia entrar em acordo com eles. Eles queriam o nosso dinheiro e sabiam exatamente quanto ganhávamos. Eles sabiam tudo”.

O ataque teve um efeito perturbador em Mateo. “Se eu fosse grande e forte teria te protegido, mãe”, ele diz, com uma voz tremendo.

Emily ficou feliz por ter sobrevivido — mas sabia que algo tinha que mudar. Ela e sua família precisavam sair da cidade rapidamente, antes que a gangue atacasse ou chantageasse os quatro filhos e os convencesse a trabalhar para eles. Até Diego, seu filho de 14 anos que tinha deficiências mentais, estava exposto aos riscos.

Mas era preciso cuidado. Enquanto Emily se recuperava do ataque, a família colocou barreiras na frente da porta da casa — para ganhar tempo na fuga caso os criminosos voltassem. Os vizinhos sabiam o que tinha acontecido, mas, em vez de ajudar a família, evitavam-na. Era muito arriscado ter contato com eles agora que estavam na lista dos maras. Emily e seus filhos estavam sozinhos.

As crianças ficavam constantemente com medo de outro ataque e mal saíam de casa. Os maras, muitas vezes, usam crianças pequenas, de até 5 anos, como mensageiros, informantes. Os filhos sabiam que, se fossem pegos, seriam forçados a fazer coisas terríveis. Até o filho mais novo, Alejandro, de 3 anos, sabia que havia algo errado.

Emily teve várias conversas difíceis com seu irmão e mãe — que estava de cama e não seria capaz de viajar com eles. O irmão aceitou cuidar da mãe. A idosa queria que Emily deixasse Alejandro, seu filho mais jovem, em Honduras. Mas Emily se recusou a fazê-lo. Não poderia deixar seu filho em risco. Logo em seguida, ficou sabendo que o filho de 15 anos de uma de suas amigas havia sido assassinado. Ela tinha que fugir.

Numa manhã de julho, recolheu silenciosamente roupas e documentos e os guardou em malas. Deixou os demais objetos da casa intactos, na esperança de simular uma viagem curta. Disse aos filhos mais novos que iam visitar uma tia no México, pois assim eles ficariam calmos e calados. Mas tanto ela como Daniel sabiam que nunca voltariam.

Emily despediu-se de forma emocionada da mãe e saiu com os filhos pela porta de trás enquanto o sol nascia. Não conseguiu evitar olhar para trás enquanto colocava os filhos no ônibus. Estavam sendo observados? Seguidos? Seu irmão e mãe teriam que pagar o preço do que ela fez para proteger os filhos?

Enquanto se aproximavam da fronteira Guatemala-México, começou a sentir a sensação de liberdade. Mas ainda não tinham chegado a seu destino final, e ainda havia a possibilidade de as coisas darem errado. Depois de viajar por horas, um último obstáculo: atravessar o rio que separa a Guatemala do México. Cuidadosamente, colocou os filhos em um barco pequeno arranjado por um amigo. Às 10 da manhã, chegou no centro de migração no México.

Emily e seus filhos tinham se libertado da gangue de Honduras que os aterrorizava, mas os problemas não acabavam ali. Nenhum abrigo tinha espaço para os cinco. O governo mexicano não podia detê-la por causa das crianças e seu filho com necessidades especiais. Então, durante dias, dormiram nas ruas, amontoados para se proteger.

As crianças estavam com fome, exaustas e com muito medo. Os mais jovens não entendiam por que não podiam voltar para casa. Durante alguns dias, parecia que as coisas não iam melhorar.

Por fim, a equipe de um abrigo apoiado pela Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) encontrou a família desesperada e os acolheu. O Albergue de Migrantes Samuel Ruiz é administrado pela organização Daughters of Charity. Nos primeiros meses de 2016, o lugar chegou a abrigar mais de 8 mil famílias – um aumento incrível quando comparado ao ano anterior. A segurança é intensa para proteger os refugiados, já que muitos ainda estão sendo procurados pelos maras.

Emily e sua família ficaram no abrigo durante vários dias. Lá, um advogado custeado pelo ACNUR esclareceu seus direitos como solicitantes de refúgio e ajudou sua família a se integrar nesse novo ambiente. Uma das funcionárias do local deu roupas a Emily e seus filhos. Quando o tempo dela no centro de acolhimento estava acabando, o ACNUR a registrou no Programa de Assistência Financeira, cujo montante permitiu à família alugar um apartamento pequeno e comprar itens básicos enquanto esperava os resultados de sua solicitação de refúgio.

Agora, que ela e os filhos não estão mais em perigo imediato, perceberam a magnitude do que lhes havia acontecido. Emily luta contra depressão, ansiedade e medo. “Meus filhos são tudo para mim, e não quero que o peso da minha tristeza os afete”, conta. “A vida foi muito dura para eles, apesar de tão novos”.

Mas o futuro parece promissor. Os filhos estão começando a se ajustar, e as sessões de aconselhamento oferecidas pelo ACNUR estão contribuindo para que possam superar os traumas. Daniel, o filho mais velho, encontrou um trabalho como faxineiro. Emily está orgulhosa e feliz pelo filho, e procura um trabalho para si.

“Já encontrei alguma coisa, mas os meus familiares não estão comigo para cuidar dos filhos pequenos enquanto trabalho. É um bom trabalho, mas dura o dia todo e eu não posso deixá-los sozinhos. Eu realmente queria ter meu pequeno negócio, uma cozinha e um carrinho para vender meus produtos”, disse.

Com sorte, os sonhos de Emily se tornarão realidade algum dia. No momento, ela e seus filhos estão juntos, seguros e têm uma nova vida pela frente.

*Todos os nomes foram alterados por motivos de proteção.


Mais notícias de:

Comente

comentários