Grupo de amigos cria casa de acolhimento para refugiados venezuelanos em Manaus

Já era noite quando a amazonense Irajane Souza recebeu uma ligação de seu irmão, que trabalha no Aeroporto Internacional de Manaus. Ele dizia que uma família de 17 venezuelanos tinha sido enganada. Os bilhetes aéreos que haviam comprado eram falsos, e não teriam como continuar a viagem. Ele queria ajudá-los, mas não sabia de que forma.

Como grande parte dos cerca de 3,7 milhões de venezuelanos que saíram do país em busca de proteção e uma chance de recomeço, a família havia vendido todos os pertences para comprar as passagens e não trazia consigo nada além de alguns itens essenciais.

Quando recebeu a ligação, em agosto de 2017, Irajane estava no grupo de estudos bíblicos do qual participa com jovens manauaras. Ao compartilhar a notícia, os amigos se mobilizaram para abrigar a família.

“Na hora, olhamos uns para os outros e decidimos: vamos trazê-los para cá!”, afirmou o advogado Caio Andrade, um dos membros do grupo de estudos. Naquela noite, os 17 venezuelanos dormiram provisoriamente no escritório de um dos integrantes e, na noite seguinte, em um hotel pago por eles.

Além de abrigar a família, Irajane e seus amigos também se mobilizaram para atenuar seu prejuízo financeiro. Em menos de 48 horas, 17 novas passagens foram compradas, e a família estava pronta para seguir viagem. Irajane, que trabalha no setor de turismo, encontrou bilhetes baratos e acionou amigos e parceiros, que doaram dinheiro e milhas aéreas para que a família pudesse continuar sua jornada.

Este foi mais um de uma série de casos de famílias venezuelanas enganadas em um esquema de venda de passagens falsas, que as impediu de fazer a conexão no aeroporto de Manaus. “O pessoal do aeroporto acabou conhecendo a gente, então, cada vez que chegava um grupo eles ligavam para nós”, relata Irajane. Até agora, ela e sua rede de amigos já ajudaram mais de 200 venezuelanos.

Desde o episódio, Irajane e seus amigos começaram a oferecer comida, itens básicos de higiene, roupas e abrigo em suas casas aos venezuelanos vivendo em situação de vulnerabilidade na capital amazonense. O envolvimento do grupo continuou a crescer à medida em que mais e mais venezuelanos chegavam à cidade, e hoje coordenam a casa de acolhida Oasis, na região centro-sul de Manaus. “Daí surgiu nossa motivação de ter um espaço de acolhimento”, contou Irajane.

Oasis

Administrada por Irajane, Soraya, Isabela, Magali, Jhonatas e Amáliaa, o local de acolhida foi inaugurado em agosto de 2018. “Um dia antes de conseguirmos a casa, tínhamos seis pratos, três panelas e um refrigerador pequeno”, lembrou Irajane.

“Conforme mais itens iam chegando, as famílias foram sendo acolhidas. (…) Hoje, temos a casa completa — freezer, geladeira, os ar condicionados acabaram de chegar. Tudo por doação. Temos um espaço para eles estudarem, comida para todas as refeições. Cada dia chega algo novo, justamente o que estava faltando. Realmente, a gente considera que vive um milagre todos os dias”, comemorou.

De acordo com a Polícia Federal, em 2018, 10,5 mil pessoas solicitaram status de refugiadas no estado do Amazonas, o segundo estado brasileiro com maior número de requerimentos, atrás apenas de Roraima. Iniciativas de organização da sociedade civil são parte significativa do processo de acolhida, abrigamento e integração local.

Desde a inauguração, o abrigo se mantém por meio de doações voluntárias, e a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) apoia a casa por meio de doações de produtos necessários e acompanha os pedidos de refúgio.

Desde sua abertura, 90 pessoas já foram abrigadas pelo grupo e, atualmente, cerca de 40 famílias fora do abrigo continuam sendo apoiadas pelo Oásis. Lá, receberam assistência psicológica e foram orientados sobre regularização de documentos e inserção social e laboral.

Irajane, Soraya, Isabela e outros voluntários trabalham diariamente para construir um ambiente acolhedor e seguro para as crianças e adultos que, pouco a pouco, conseguem superar as dificuldades do caminho até o Brasil.

Atualmente, vivem na casa 13 adultos e sete crianças venezuelanas, incluindo dois recém-nascidos. Grande parte das famílias abrigadas estava vivendo em situação de rua, como o engenheiro de gás e petróleo Francisco, de 27 anos, e a estudante de medicina Sofía, de 20.

Eles foram acolhidos pela equipe do Oasis na rodoviária de Manaus em setembro de 2018, onde dormiram por cinco dias e não fizeram quase nenhuma refeição. Os dois foram para a capital amazonense após dormirem um mês em uma barraca em Boa Vista e terem todos os seus pertences roubados.

“Conseguimos caronas de Boa Vista até aqui. Saímos de lá porque perdemos tudo o que tínhamos”, disse Francisco. “Uma noite, depois de tentarmos ganhar dinheiro vendendo chiclete na rua, voltamos para a barraca e vimos que a porta estava escancarada: tinham levado tudo o que tínhamos”.

“Roupas a gente consegue comprar de novo. Mas nossos documentos não. Nossas identidades venezuelanas, meu diploma de engenharia, meus antecedentes criminais da Venezuela e do Brasil, o pré-natal dela, o certificado de ingresso na faculdade de medicina… tudo”, lembrou o jovem.

Quando chegou ao abrigo Oásis, Sofía estava grávida de 6 meses e, a partir de então, encontrou condições para cuidar de si e de sua gravidez, que foi diagnosticada como de risco.

“Eu caminhei demais para chegar ao Brasil. Muito, muito mesmo. Até que comecei a sentir contrações. Aqui em Manaus, o médico disse que era por conta de tanto caminhar. Ele me indicou repouso total, e por causa do abrigamento pude fazer isso”.

Após concluírem a estadia prevista de três meses, Francisco conseguiu emprego formal, e família pôde se mudar para uma casa, onde o bebê nasceu com segurança. Segundo Sofía, deixar a família venezuelana para trás foi o mais difícil.

“Só viemos nós dois, pensando em nosso filho. Queríamos ficar, mas nosso dinheiro não dava nem para comer, imagina comprar fraldas”, disse. Recentemente, conseguiram financiar a viagem das avós do bebê ao Brasil.

Em meio a tantas adversidades, a casa de acolhida se tornou um verdadeiro oásis manauara na dura e turbulenta jornada de venezuelanos que buscam um lugar seguro para viver.

Além dos atuais 20 moradores, durante o dia a casa recebe visitantes venezuelanos que participam das refeições, preparadas coletivamente, e assistem às aulas de português, ministradas por um voluntário diferente a cada dia da semana.

Caio é um dos voluntários e entusiastas do projeto. Além de doar uma hora de sua semana para as aulas com os adultos, ele apoia diversas demandas da casa e ajuda a mobilizar mais voluntários para compor a rede de acolhida.

“Consegui incluir até minha mãe no projeto. Ela é professora aposentada, e estava em casa sem fazer nada. Agora, ela vem toda segunda-feira dar aulas. É muito pouco que a gente doa, mas significa muito para quem recebe”, disse o advogado.

O programa de aulas de português foi elaborado por uma voluntária pedagoga, e tem como objetivo promover a troca entre a cultura venezuelana e a brasileira, e também ajudá-los na integração social e laboral.

“Não é um processo de desapropriação da cultura deles, é o acréscimo de uma nova cultura”, disse Caio. “Temos o cuidado de não tirar a Venezuela deles, porque é deles. Mas de incluir o Brasil. Sempre dizemos: ‘se um dia você puder voltar, você terá essa bagagem. Mas, agora, vocês têm a oportunidade de ter mais um país te dando suporte’”, declarou.

Com planos para o futuro, o grupo está usando a criatividade e a união para conseguir pagar as contas fixas, como água, energia e gás no final de cada mês. Com a doação de um fogão industrial e mais uma geladeira, um dos cômodos da casa está se tornando uma cozinha na qual os abrigados e voluntários irão começar um pequeno empreendimento de entrega de marmitas no horário comercial.

“Queremos aproveitar que estamos em uma área com muito comércio para incentivar a geração de renda e autonomia das famílias”, declarou Caio.

Para Irajane, o mais gratificante é ver que os moradores do abrigo conseguem recuperar a autonomia e autoestima. “Eles deixam para trás muito mais do que coisas materiais. Eles deixam famílias, eles deixam sonhos, o trabalho de uma vida inteira”.

“As pessoas que acolhemos aqui chegaram com o olhar perdido, desesperado. E no dia-a-dia a gente percebe a transformação em cada um, porque eles sentem que são acolhidos, e sabem que tem pessoas que se importam.”

Apoiando o ACNUR você ajuda venezuelanos a reconstruir suas vidas no Brasil. Doe agora!