Globalização e mudanças tecnológicas podem aumentar estresse no trabalho, diz OIT

Uma das metas do Objetivo 8 da Agenda 2030 da ONU para o Desenvolvimento Sustentável pede “ambientes de trabalho seguros para todos os trabalhadores” — garantir locais de trabalho seguros vai além da proteção da segurança física dos trabalhadores, se estendendo ao seu bem-estar mental e psicológico.

Globalização e mudanças tecnológicas têm transformado padrões de trabalho, muitas vezes contribuindo para aumentar o estresse. Foto: EBC

Globalização e mudanças tecnológicas têm transformado padrões de trabalho, muitas vezes contribuindo para aumentar o estresse. Foto: EBC

A globalização e as mudanças tecnológicas têm transformado padrões de trabalho e de emprego, muitas vezes contribuindo para intensificar o estresse relacionado ao trabalho, disse o diretor-geral da Organização Internacional do Trabalho (OIT), Guy Ryder, na quarta-feira (27), na ocasião do Dia Mundial de Saúde e Segurança no Trabalho.

“Os altos níveis de desemprego, em particular na ausência de medidas adequadas de proteção social, também podem ter consequências indesejáveis para a saúde mental dos trabalhadores”, disse o chefe da organização.

O estresse relacionado ao trabalho afeta pessoas de todas as profissões em países desenvolvidos e em desenvolvimento da mesma maneira, segundo o diretor-geral da OIT. “Ele pode seriamente prejudicar não apenas a saúde dos trabalhadores, mas também, e com frequência, o bem estar de suas famílias”, afirmou em comunicado.

De acordo com Ryder, o estresse dos trabalhadores têm consequências nas empresas, na forma de redução do desempenho geral, aumento das faltas e da rotatividade de pessoal, além de dificuldades nas relações de trabalho.

“Mais dados e análises são necessários para quantificar totalmente os custos financeiros de estresse no trabalho, mas já é muito claro que o fardo é considerável”, disse Ryder.

Estudo recente citado no relatório da OIT “Estresse no ambiente de trabalho: um desafio coletivo”, indicou que mais de 40 milhões de pessoas são afetadas por estresse relacionado ao trabalho na União Europeia, e que o custo estimado da depressão relacionada ao trabalho é de 617 bilhões de euros por ano.

Embora muito ainda precise ser feito para resolver o problema, o chefe da OIT disse ser possível afirmar que, nos últimos anos, tem havido evolução na compreensão do problema.

“A conscientização tem aumentado e, na maioria dos países, formuladores de políticas, parceiros sociais e redes de profissionais estão cada vez mais envolvidos no desenvolvimento de legislações, políticas, estratégias e ferramentas para a avaliação e a gestão do estresse relacionado ao trabalho”, declarou.

“É claro que a proteção da saúde mental dos trabalhadores deve se concentrar em estratégias preventivas. A avaliação e a gestão de riscos psicossociais na sua origem irão ajudar na elaboração das medidas coletivas e individuais necessárias para melhorar a qualidade de vida no trabalho para homens e mulheres”, disse.

Segundo Ryder, a OIT está comprometida em trabalhar com governos, trabalhadores e empregadores e suas organizações ao redor do mundo para desenvolver e implementar políticas eficazes em nível nacional, regional e empresarial para prevenir e minimizar o estresse relacionado ao trabalho.

O Dia Mundial de Saúde e Segurança no Trabalho tem como foco a carga que incide sobre a saúde e o bem-estar dos trabalhadores em todo o mundo devido ao estresse no ambiente de trabalho.

A Meta 8 do Objetivo 8  da Agenda 2030 da ONU para o Desenvolvimento Sustentável  pede “ambientes de trabalho seguros para todos os trabalhadores” – garantir locais de trabalho seguros vai além da proteção da segurança física dos trabalhadores, se estendendo ao seu bem estar mental e psicológico.

“Nenhum de nós está livre de estresse no trabalho”, disse Francisco Becerra, diretor assistente da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS), em Washington, durante a abertura de uma webconferência.

“O mundo do trabalho atual – dados os desafios do progresso industrial, globalização, desenvolvimento tecnológico e comunicação virtual – nos impõe condições que excedem os limites de nossas habilidades e capacidades. O resultado é o estresse no ambiente de trabalho, que pode causar disfunções físicas, psicológicas e até sociais que prejudicam nossa saúde, minam nossa produtividade e podem afetar até nossas famílias e círculos sociais.”

Riscos psicossociais

As causas mais comuns de estresse no trabalho são riscos psicossociais relacionados à organização do trabalho, projetos de trabalho, trabalho e suas condições, bem como as condições externas que podem influenciar o desempenho do trabalhador, satisfação na ocupação e saúde.

Embora o impacto do estresse no local de trabalho varie de um indivíduo para o outro, ele é conhecido por trazer consequências para a saúde que variam de transtornos mentais a doenças cardiovasculares, músculo esqueléticas e reprodutivas.

O estresse no trabalho também pode levar a problemas comportamentais, incluindo abuso de álcool e drogas, aumento do tabagismo e distúrbios do sono.

“Todos esses problemas são associados à falta de motivação, satisfação, comprometimento e desempenho no trabalho, também às faltas e rotatividade de funcionários e aposentadoria antecipada – tudo isso pode levar à diminuição da produtividade, competitividade e arranhar a reputação das organizações”, afirmou Julietta Rodriguez, da área de saúde do trabalho da OPAS/OMS.

Em busca de soluções

A OIT e a OMS emitiram diretrizes e recomendações para sanar estes problemas, entre elas a promoção do empoderamento do trabalhador, participação e satisfação, assim como a adoção do conceito da OIT de “trabalho decente”, cujos elementos incluem emprego justo, respeito pelos direitos humanos, regras laborais, proteção ao meio ambiente, transparência e diálogo social.

A OIT também recomenda que os países incluam em suas listas de doenças ocupacionais o estresse e os transtornos mentais, garantindo assim que esses possam ser identificados, quantificados e posteriormente tratados.

A OPAS/OMS também emitiu recomendações, orientações e intervenções para a prevenção de problemas de saúde mental devido a riscos psicossociais e publicou a série “Protecting workers’ health” (Protegendo a saúde dos trabalhadores), que promove medidas e políticas para minimizar a exposição a esses problemas.

De acordo com as recomendações da OMS, a política de trabalho apropriada deve ser baseada nos seguintes princípios éticos: cobrir todas as exposições perigosas dentro do ambiente de trabalho; aplicar normas de bom comportamento, atenção e responsabilidade; incluir abordagens que impeçam comportamentos antiéticos, agindo sobre eles, caso ocorram; e promover a responsabilidade e prestação de contas de todos no local de trabalho.

“A carga de estresse no trabalho e os transtornos mentais dentro desse ambiente sinalizam para a necessidade urgente que criar e promover locais de trabalho saudáveis em que a saúde física, segurança e bem estar são protegidos, não prejudicados”, concluiu Kira Fortune, chefe do programa Desenvolvimento Sustentável e Igualdade na Saúde, da OPAS/OMS.