‘Genocídio é um processo. Requer recursos, planejamento e tempo’

AUMENTAR LETRA DIMINUIR LETRA

Declaração é do conselheiro especial da ONU para Prevenção do Genocídio, Adama Dieng. Após visitar refugiados rohingya em Mianmar, ele diz que já é hora de a Ásia promover sociedades inclusivas. No último 7 de abril, mundo lembrou os 24 anos do genocídio em Ruanda.

Conselheiro das Nações Unidas diz que o genocídio é um processo que requer recursos, planejamento e tempo. Na Europa dos anos 30, por exemplo, já se poderiam ver os sinais. E que naquele momento alguém poderia ter tomado uma ação para evitar o Holocausto. Dieng lembrou que o Holocausto não começou com as câmaras de gás, mas sim com o discurso de ódio com a desumanização dos judeus.

Adama Dieng realizou uma visita oficial a Cox’s Bazar, em Bangladesh, para ver de perto as condições de vida de refugiados rohingya. Foto: ONU/Claudia Diaz

Adama Dieng realizou uma visita oficial a Cox’s Bazar, em Bangladesh, para ver de perto as condições de vida de refugiados rohingya. Foto: ONU/Claudia Diaz

O advogado Adama Dieng, do Senegal, foi escolhido em 2012 pelo então secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, para ser o conselheiro especial da organização para a Prevenção do Genocídio.

Dieng participou dos trabalhos do Tribunal Penal Internacional para Ruanda como secretário-geral assistente, em 2001, e tem uma larga trajetória em temas de direitos humanos.

No posto atual, ele realizou uma visita oficial a Cox’s Bazar, em Bangladesh, para ver de perto as condições de vida de refugiados rohingya que estão escapando da violência em Mianmar, o país vizinho. Até o momento, mais de 700 mil rohingyas chegaram a Bangladesh.

Ao retornar a Nova Iorque, conversou com a ONU News sobre o que viu ao se encontrar com refugiados e autoridades locais.

Conselheiro especial da ONU para Prevenção do Genocídio, Adama Dieng. Foto: ONU/Amanda Voisard

Conselheiro especial da ONU para Prevenção do Genocídio, Adama Dieng. Foto: ONU/Amanda Voisard

Para o conselheiro especial, os rohingya estão enfrentando umas das crises humanitárias mais graves do mundo. Muitos têm fugido de Mianmar a pé e enfrentado horas de caminhada até Cox’s Bazar, com relatos de horror.

Para Dieng, o mundo precisa estar atento e oferecer proteção.

Adama Dieng afirma que é preciso prestar mais atenção à prevenção. Lembrou que, quando a Segunda Guerra Mundial acabou, o mundo dizia “nunca mais”, mas mesmo assim ocorreram os genocídios dos tutsis em Ruanda e o genocídio de muçulmanos em Srebrenica – e por isso é preciso tomar ações urgentes hoje.

Responsabilidades

Adama Dieng lembrou ainda que antes da onda atual de fuga de rohingyas para Mianmar, já havia centenas de milhares deles vivendo em Bangladesh. Atualmente, 1,1 milhão se encontram no país. Para ele, é hora de a comunidade internacional assumir suas responsabilidades.

O conselheiro falou de um encontro que teve com uma mulher rohingya que lhe contou sobre o ataque de soldados à aldeia dela com minas e, depois, colocou os moradores em linha e começou a atirar contra eles.

Para Adama Dieng, o mundo aprendeu poucas lições após o genocídio em Ruanda, em 1994. Ele disse que hoje existe um sistema de alertas sobre genocídio e outras atrocidades. Dieng falou da cooperação entre organizações regionais como a União Europeia, que acaba de completar um conjunto de diretrizes sobre prevenção do genocídio com a União Africana, que também coopera com o escritório dele.

Dieng citou o caso da Rede Latino-Americana para Prevenção do Genocídio e Atrocidades em Massa.

No entanto, no caso da Ásia, não existe uma arquitetura forte como em outros continentes.

Dieng acredita que a Ásia precisa promover sociedades mais inclusivas, porque o que se vê são casos de exclusão, discriminação baseada em religião e etnia – um cenário que não é favorável quando se quer evitar atrocidades.

Conselho de Segurança

O conselheiro da ONU afirma que o Conselho de Segurança tem a responsabilidade primária de zelar pela paz e segurança internacionais. Ele falou sobre os casos da Síria e perguntou o porquê de ainda se permitir que isso aconteça.

Para Dieng, não é possível permitir que seres humanos sejam mortos apenas por causa da identidade deles. Mas infelizmente, o mundo está experimentando um crescimento de casos de ódio, antissemitismo, anti-islamismo e outros que não podem continuar.

Ele encerrou a entrevista lembrando o terrível momento em que escutou sobre o genocídio em Ruanda. Ele havia deixado o país dias antes, onde tinha sido recebido no Palácio Presidencial.

Analisando o tema, Dieng lembrou que outros genocídios como o Holocausto e o de Ruanda não aconteceram da noite para o dia.

O conselheiro diz que o genocídio é um processo que requer recursos, planejamento e tempo. Na Europa dos anos 30, por exemplo, já se poderiam ver os sinais. E que naquele momento alguém poderia ter tomado uma ação para evitar o Holocausto.

Falha

Dieng lembra que o Holocausto não começou com as câmaras de gás, mas sim com o discurso de ódio com a desumanização dos judeus.

O especialista diz que, mais do que nunca, é preciso revisitar a razão pela qual se tem a Convenção sobre o Genocídio de 1948. E que o documento começa com a prevenção antes mesmo de falar de punição.

Dieng lembrou que outros genocídios, como o Holocausto e o de Ruanda, não aconteceram da noite para o dia. Foto: ONU/JC McIlwaine

Dieng lembrou que outros genocídios, como o Holocausto e o de Ruanda, não aconteceram da noite para o dia. Foto: ONU/JC McIlwaine

Ao comentar o genocídio em Ruanda, Dieng lembra que já em 1959 houve o primeiro êxodo da população tutsi e que foram feitos cartões de identidade baseados na etnia, o que facilitou a identificação durante o genocídio.

Adama Dieng afirma que é preciso investir mais em prevenção e que foi por isso que o novo secretário-geral da ONU, António Guterres, fez do tema sua alta prioridade.

Para o conselheiro da ONU é importante recordar e jamais permitir que o que ocorreu em Ruanda e Srebrenica volte a acontecer em qualquer outra parte do mundo.

Para ele, a responsabilidade é do mundo. E é também a responsabilidade do Conselho de Segurança. Ele lembrou que o escritório dele foi criado com esta missão e, se uma resolução sobre a responsabilidade de proteger foi adotada pelo órgão, é porque houve uma falha da comunidade internacional.

Por isso, segundo Adama Dieng, é preciso assegurar que os genocídios ocorridos na Segunda Guerra Mundial, em Ruanda e na Bósnia terão sempre de ser lembrados como uma forma de honrar as vítimas, mas também de aprender lições para o futuro.

‘Ruanda aprendeu com sua tragédia; assim deve fazer a comunidade internacional’

Enquanto o mundo oficialmente trouxeram à memória o assassinato genocida de 800 mil ruandeses em 1994, líderes das Nações Unidas alertaram que a limpeza étnica e as atrocidades em massa continuam a atormentar a humanidade e exigiram ações mais acertadas para evitar tais violações generalizadas.

Vinte e quatro anos atrás, no dia 7 de abril, os hutus étnicos em Ruanda começaram o massacre de tutsis, hutus moderados e outros no que é amplamente considerado como um dos episódios mais sombrios da história recente.

Em memória das vítimas de Ruanda – e como uma lembrança sombria do fracasso da comunidade internacional em intervir –, a ONU observa 7 de abril de cada ano como um “dia internacional de reflexão”.

“Hoje lembramos todos aqueles que foram assassinados e refletimos sobre o sofrimento dos sobreviventes, que mostraram que a reconciliação é possível, mesmo depois de uma tragédia de proporções tão monumentais”, disse o secretário-geral da organização, António Guterres, em uma mensagem para o triste aniversário.

“Ruanda aprendeu com sua tragédia; assim deve fazer a comunidade internacional”, disse Guterres, expressando preocupação com “a ascensão do racismo, discursos de ódio e xenofobia em todo o mundo”.

“Essas manifestações básicas da crueldade humana fornecem o terreno fértil para atos muito mais perversos”, disse o secretário-geral, acrescentando que estava particularmente preocupado com as mortes sistemáticas, tortura, estupro e humilhação dos muçulmanos rohingya em Mianmar.


Comente

comentários