Gastronomia traz novas oportunidades para família síria em Portugal

Após perder o pai e o seu lar, uma família síria faz novas amizades e retoma a tradição familiar em Portugal.

Fátima e sua família foram reassentadas em Portugal há mais de um ano. Foto: ACNUR/Bruno Galan Ruiz

Fátima e sua família foram reassentadas em Portugal há mais de um ano. Foto: ACNUR/Bruno Galan Ruiz

Em um subúrbio nos arredores de Lisboa, em Portugal, Fátima e suas duas filhas, Rana e Reem, arrumam-se para um jantar. À noite, elas convidarão amigos portugueses para que conheçam pratos sírios caseiros.

Elas têm cinco horas para terminar a variedade de pratos a serem servidos. Rana, de 28 anos, enrola pequenos pacotes de arroz em folhas de repolho para o waraq anab (folhas de videira), enquanto Reem, de 27, faz pequenas bolinhas de carne, prontas para serem recheadas e transformadas em quibe.

Fátima, a matriarca da família, corta grandes punhados de salsinha e hortelã para obter a textura certa para outra especialidade síria, a salada de tabule apimentada.

Enquanto cozinham, Rafat, o filho de 21 anos de Fátima, entra para verificar o progresso. Embora ele não esteja cozinhando, o jovem também se considera um chef. Em Damasco, antes da guerra, trabalhava no restaurante da família, denominado Zayn.

“Era um restaurante de kebab e frango e eu embalava os sanduíches, cortava os picles, os pepinos e os tomates”, explicou. “Tinha que ser rápido, pois era eu quem entregava os sanduíches aos fregueses depois”.

Esse tempo parece uma outra vida para a família. Em 2012, apenas um ano após o começo do conflito sírio, eles foram forçados a deixar tudo para trás e sair de casa, em razão dos confrontos entre as forças armadas sírias e a oposição.

Buscaram proteção no acampamento de Yarmouk, com o objetivo de esperar até que fosse seguro retornar. Mas quando o pai de Rafat visitou a casa da família, o mundo da família desmoronou. Seu corpo foi encontrado mais tarde em um edifício próximo, junto a outros 149.

“Os corpos foram deixados espalhados em todo o bairro”, explica Rafat. “Eles encontraram pessoas até nos banheiros da mesquita. Você não pode imaginar as cenas. Até hoje eu ainda não entendo por que o mataram”.

A família toma café da manhã na sua casa em Lisboa, Portugal. Foto: ACNUR/Bruno Galan Ruiz

A família toma café da manhã na sua casa em Lisboa, Portugal. Foto: ACNUR/Bruno Galan Ruiz

Devastado pela morte do marido, Fátima e seus quatro filhos decidiram deixar a Síria. Depois de duas semanas dormindo nas ruas, finalmente fugiram para o Egito, onde passaram nove meses sobrevivendo com vales-refeição e doações de instituições de caridade locais.

Fátima e suas filhas faziam pequenos trabalhos, como costura, para complementar o pouco dinheiro que tinham. Mas, em 2013, as tensões políticas resultaram em um endurecimento das atitudes em relação aos sírios, e elas acabaram sendo alvos.

A Agência das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) viu que Fátima e a sua família eram elegíveis para o reassentamento.

“Conhecíamos tantas pessoas que iam ilegalmente pela rota marítima para a Alemanha, colocando suas vidas em risco”, contou. “Muita gente estava morrendo. Eu disse aos meus filhos, esta é a nossa chance de ir para a Europa legalmente e começar de novo”.

Assim que chegaram a Portugal, iniciou-se a integração da família, com a ajuda do Serviço Jesuíta aos Refugiados (JRS), uma organização católica internacional. Fátima ficou impressionada com o apoio que receberam.

“Quando chegamos ao aeroporto, as pessoas estavam lá para nos receber. Eles nos levaram para a nossa nova casa, e rapidamente começaram os procedimentos burocráticos e de residência. Colocaram nossos filhos na escola imediatamente.”

“Eu acho que os portugueses gostam muito de nossa comida”, disse Fátima. Foto: ACNUR/ Bruno Galan Ruiz

“Eu acho que os portugueses gostam muito de nossa comida”, disse Fátima. Foto: ACNUR/ Bruno Galan Ruiz

Após 11 meses, quando o apoio financeiro terminou, Fátima preocupou-se com como sustentaria a sua família. Seu genro tinha um trabalho como alfaiate trabalhando para um designer local, e a família ainda recebia alguma ajuda. Mas com sete bocas para alimentar, incluindo os dois netos de Fátima, a pressão estava aumentando.

Então, Fátima recebeu um telefonema perguntando se ela e suas filhas participariam do novo programa, “Pão a Pão”, um projeto de integração de refugiados que seria lançado em dezembro de 2016 no Mercado de Santa Clara, em Lisboa. A ideia era que os refugiados sírios mostrassem a sua comida em jantares particulares durante a época de festas.

Francisca Henriques, uma das quatro fundadoras do Pão a Pão, ficou surpresa com a repercussão. “Ficamos totalmente surpresos, porque foi um enorme sucesso”, disse.

“Inicialmente, abrimos para grupos de mais de 20 pessoas, mas nunca tivemos menos de 100, era uma loucura. Um dia tivemos 130 pessoas. Não foi apenas porque as pessoas estavam curiosas sobre a comida do Oriente Médio — era porque as pessoas queriam ajudar e não sabiam como.”

Encorajados pelo sucesso, os fundadores decidiram abrir um restaurante permanente no mercado. Eles lançaram uma campanha de arrecadação de fundos para a renovação e, no prazo de um mês, atingiram o seu objetivo de ganhar 15 mil euros. Mezze abrirá em maio de 2017 e empregará 15 refugiados. Além de refeições, o espaço oferecerá workshops, intercâmbios culturais e música.

Para Fátima e seus filhos, Mezze permitirá continuar a tradição familiar iniciada pelo seu pai em Damasco. Esta oportunidade dará à família a chance de ser financeiramente independente no país que agora consideram seu lar. Seus deliciosos pratos caseiros também darão aos moradores um gosto da Síria.

“Descobrimos que os portugueses realmente gostam da nossa cozinha, porque é cheia de sabores e especiarias”, disse Fatima, enquanto dá os toques finais à sua salada de tabule, pronta para a chegada dos convidados. “É a maneira que nós nos comunicamos agora. Nós continuamos cozinhando e eles aprendem”.