Fugindo da violência, das gangues e do ‘imposto de guerra’, família deixa Honduras

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“Massacres acontecem o tempo todo em Honduras. Quando o mara Salvatrucha [mara é como são conhecidas as gangues] chegou na área onde eu morava, as duas gangues rivais estavam atirando, no meio do dia, sem se importarem com civis e crianças inocentes que estavam por perto. Os maras queriam ‘limpar’ o bairro, e assim, uma média de seis ou sete pessoas eram assassinadas todo dia”, conta Eduardo, que hoje vive no México e cuja família é apoiada pela Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).

Foto: Jordan Hay

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Eduardo (*) trabalhou durante muitos anos para conquistar o seu sonho – mas essa conquista durou pouco. Aos 34 anos, o pai de quatro filhos pequenos enfrentava dificuldades para encontrar emprego na instável economia de Honduras. Porém, finalmente conseguiu trabalho como cabeleireiro e descobriu que era bom no que fazia. Sonhava em ter seu próprio salão. Trabalhando arduamente, Eduardo conseguiu enfim realizar seu sonho.

Infelizmente, nas violentas cidades de Honduras, coisas boas raramente duram por muito tempo. Devido ao aumento de atividades criminosas, o país é um dos lugares mais perigosos e sangrentos no mundo.

No caso de Eduardo, pouco antes de abrir seu próprio salão, a gangue local exigiu que ele pagasse o “imposto de guerra”. Caso Eduardo se recusasse, ele e seus filhos seriam mortos. A gangue exigia 50 pesos por semana, uma quantia inconcebível. Isso foi somente o começo – enquanto o negócio do Eduardo prosperava e sua renda crescia, o imposto também aumentava.

A situação era difícil, porém manejável. Até que um dia, Eduardo estava no lugar errado na hora errada. E em Honduras, isso pode facilmente custar uma vida. A família de Eduardo vivia em uma rua que dividia o território de duas gangues rivais. Eles estavam cercados pela violência. Os filhos de Eduardo não estavam imunes a isso. Eles até mesmo testemunharam o assassinato de seus vizinhos – uma lembrança terrível que levarão para sempre com eles.

Uma tarde, Eduardo saiu de casa para buscar seus filhos na aula de piano e acabou entrando no meio do fogo cruzado das gangues rivais.

“Massacres acontecem o tempo todo em Honduras”, ele explicou. “Quando o mara Salvatrucha [mara é como são conhecidas as gangues] chegou na área onde eu morava, as duas gangues rivais estavam atirando, no meio do dia, sem se importarem com civis e crianças inocentes que estavam por perto. Os maras queriam ‘limpar’ o bairro, e assim, uma média de seis ou sete pessoas eram assassinadas todo dia”, conta Eduardo.

“Às vezes o ‘imposto de guerra’ era suspenso, mas os massacres nunca cessavam e geralmente envolvia muitas vítimas inocentes. Me acostumei, de alguma forma. Mas nesse caso específico eu me senti mais inseguro, porque os assassinos me encaravam de forma agressiva. Não sei por que não me mataram imediatamente quando tiveram a oportunidade. Eu continuava me sentindo ameaçado”, acrescentou.

Eduardo reconheceu alguns dos assassinos, e eles também o reconheceram. Ele sabia que estava em perigo. No dia seguinte, ficou evidente que estava certo. Um funcionário de seu salão o avisou que alguém havia procurado por ele, pedindo o endereço de sua casa. Dois dias depois, um outro estranho ligou ao salão declarando que era de um órgão governamental e pediu novamente as informações de contato do Eduardo.

Ele sabia que era apenas uma questão de dias antes que os maras descobrissem onde ele morava. Se continuasse lá, toda sua família estaria em perigo.

Ele sabia que precisava deixar o país, porém queria fazer de forma legal. O problema era que ele tinha dinheiro suficiente para somente um visto de turista e uma passagem de ida. Seu plano era sair do país, esperando que os maras deixariam sua família em paz. Ele planejou se reunir com sua esposa e filhos assim que tivesse dinheiro suficiente para as passagens e vistos.

Depois de uma viagem longa e árdua, embarcando em muitos ônibus e atravessando um rio, Eduardo chegou ao México. Ele imediatamente conseguiu um emprego em uma loja de frutas, sabendo que quanto antes conseguisse se estabelecer, poderia se reunir com sua família. Quando seu visto de turista expirou, solicitou refúgio. Ele esperou por quatro meses para sua solicitação ser aprovada.

Assim que recebeu a boa notícia, ele enviou uma carta à sua esposa Angelina que eles poderiam se juntar a ele. Angelina estava muito nervosa e tinha medo de abandonar sua casa.

Mas um dia, ela percebeu que não podia mais esperar. Seus filhos chegaram da escola com um bilhete da gangue dizendo que as crianças deveriam ficar em casa – ou sofreriam as consequências. Ela decidiu arrumar as malas imediatamente.

Finalmente, a família se reuniu no México. As crianças estavam com medo e exaustas, e tinham saudade de seus amigos e da vida em Honduras. Eduardo passa muito tempo com os filhos, escutando seus anseios, confortando-os e dizendo que a situação vai melhorar de agora em diante.

Os professores de sua nova escola são solidários e trabalham para promover uma atmosfera de união e compreensão entre as crianças locais e refugiadas. Também encontraram uma grande rede solidária em sua nova igreja, que oferece ajuda prática e espiritual.

Eduardo sabe que suas vidas nunca serão as mesmas de antes das ameaças dos maras. Mas ele se esforça para garantir que seus filhos tenham um futuro próspero. A Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) também tem apoiado a família durante o caminho.

Eles estão registrados no programa de assistência financeira do ACNUR, que complementa a renda de Eduardo, ajuda a pagar o pequeno apartamento em que a família vive no sul do México, e outras necessidades básicas. A equipe do ACNUR na região visita regularmente a família e assegura que eles tenham tudo que precisam enquanto planejam sua próxima fase de vida.

“Eu não podia fechar meus olhos e esperar que as gangues nos recrutassem ou mesmo tirassem nossas vidas”, ele disse. “O ambiente em Honduras era perigoso e imoral. Muitas crianças pequenas são treinadas pelas gangues e aprendem que a vida criminosa é a única opção. Quero que meus filhos ingressem na universidade, tenham uma carreira, sejam felizes e, finalmente, encontrem um lugar seguro no mundo.”

(*) Todos os nomes foram alterados por motivos de proteção.


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