Fotógrafo Araquém Alcântara retrata atuação dos Mais Médicos pelo país

“A fotografia pode ser um forte instrumento de conscientização, de provocação, e uma poderosa arma de conhecimento e de desvelar o que está oculto”, disse o fotógrafo em entrevista à representação da Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS).

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O livro do fotógrafo Araquém Alcântara sobre a atuação dos profissionais do Programa Mais Médicos foi apresentado na última sexta-feira (29) no Palácio do Planalto. Na ocasião, ele cedeu os direitos das imagens ao acervo da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ).

Na entrevista abaixo, concedida à representação da Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS) no Brasil, o autor conta que ficou impressionado com a relação afetiva entre os médicos do programa e os pacientes.

Araquém, 65 anos, é um dos fotógrafos mais conceituados do país. Atuando com fotografia desde 1970, dedicou-se a retratar a natureza e o povo brasileiro, colecionando cinco prêmios internacionais e 32 nacionais.

Em dezembro passado, lançou o livro “Mais Médicos”, com imagens da atuação dos profissionais do programa em todo o país. A publicação conta com edição de Eder Chiodetto e textos — em português e inglês — de Marcelo Delduque.

Por que decidiu participar desse projeto?

A fotografia pode ser um forte instrumento de conscientização, de provocação, e uma poderosa arma de conhecimento e de desvelar o que está oculto. A construção da minha carreira começou há 46 anos, andando pelo Brasil. Eu escolhi o caminho do andarilho, o caminho do fotógrafo viajante. Interessava-me e interessa cada vez mais o homem, a natureza, os bichos, as paisagens. E neste percurso, comecei a trabalhar com uma paisagem não só poética, mas também política.

E, quase intuitivamente, passei a ser um intérprete, sem medo, do Brasil. Neste país a informação pouco circula, ou circula de maneira equivocada. Nesse caminho, de fotografia e informação, cheguei a 49 livros publicados. O 49º é este, “Mais Médicos”, no qual rodei o Brasil durante um ano inteiro, na companhia do Marcelo Delduque. E a construção desse livro veio totalmente interligada àquilo que eu já fazia.

Como foi a execução do projeto?

Como fazer um livro dessa dimensão? Como encarar isso em um ano, um ano e dois ou três meses? Eu tive que construir esse livro por andares. À medida que fazia uma viagem, já tinha um editor, um curador, um design e o Delduque, que ia escrevendo durante a viagem. Nós trabalhamos por partes, para que a produção gráfica já estivesse pronta nos últimos três meses de trabalho. Quando chegamos em outubro, depois de praticamente um ano de trabalho, eu já tinha o livro configurado na minha cabeça. O grande desafio deste projeto era como mostrar médicos só com jaleco e transformar isso numa coisa agradável, não monótona.

Como eu faria uma publicação de arte de um tema que parecia árido, em função dos jalecos? Como mostrar que eram médicos? Como mostrar uma freira se ela não estiver usando o seu hábito? E aí eu tive a ideia de mostrar a paisagem dos lugares onde esses médicos trabalhavam. E não fotografá-los só nos seus consultórios, mas andar com eles pelas comunidades. Foi a partir deste conceito que surgiu o eixo narrativo do livro, e não só fotografando idosos ou lugares ermos, mas enfrentando também as periferias e fazendo com que a gente pudesse passar uma ideia de Brasil, da geografia brasileira.

Como você vê o programa hoje?

Nós percorremos cerca de 20 estados, entrevistamos mais de 40 médicos e nesse percurso deu para perceber a mudança de paradigma que esse programa trouxe ao Brasil. Principalmente aos desassistidos que começaram a sentir o apoio, a presença do Estado. Eu fiquei muito feliz de fazer mais esse trabalho de apelo social. Estou vendo uma repercussão muito grande, afetiva e amorosa, deste trabalho. E nós estamos fazendo também exposições itinerantes, físicas e virtuais. Em breve, vamos publicar uma segunda edição deste livro, para que esteja disponível nas principais livrarias do Brasil.

Como você construiu a narrativa?

Eu me lembro de uma história marcante de um médico no município de Maquiné, Rio Grande do Sul. Ele era eslavo, russo ou polonês, não me lembro ao certo. Quando nós o acompanhamos estava perto da hora do almoço e chovia muito. Nós chegamos a uma casa e testemunhamos aquela amizade recente. Ele começou a conversar com o dono da casa e eu estava atento, buscando o instante certo da foto.

Em um determinado momento, o morador convidou o médico para comer um peixe que tinha pescado no rio ali próximo. Essa relação afetiva entre os médicos e pacientes é que me impressionou muito, e que me ajudou bastante a construir a narrativa para o livro.

Qual outro momento você destacaria?

Em outra ocasião, havia três jovens médicos recém-formados pela primeira vez entrando em um acampamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. A velha história de ir ao lugar pessoalmente é um diferencial. Isso também me surpreendeu porque não há uma coisa forçada. As pessoas recebem atendimento nas suas comunidades. Às vezes, o médico se desloca em um barco durante horas e horas na Amazônia para chegar até a comunidade que vai atender. Antes, os pacientes tinham que ir até o médico. Agora, o médico vai até eles.

Qual o impacto desse projeto no seu trabalho?

Essa andança pelo Brasil, focando na atuação dos médicos, me tornou uma pessoa melhor, mais compreensiva. E marcou uma coisa que eu acho que é muito importante: o artista precisa espalhar benefícios. Isso reverberou muito mais forte agora para mim. Eu vou sempre explorar a fotografia como uma arma de conhecimento e arte. A minha preocupação foi sempre buscar a poesia nessas histórias. Eu espero que todos gostem e se emocionem com o livro.