FMI responde oito perguntas sobre plano de recuperação econômica da Argentina

A Argentina colocou em prática um novo plano econômico destinado a colocar a dívida do país em uma trajetória de queda sustentada, reduzir a inflação e reforçar a independência do banco central. A expectativa é de que o plano, apoiado por um acordo de 50 bilhões de dólares com o Fundo Monetário Internacional (FMI), ajude a restaurar a confiança do mercado na economia do país, a terceira maior da América do Sul.

Em entrevista, o chefe da missão do FMI na Argentina, Roberto Cardarelli, discute os detalhes do plano econômico. “Visa restaurar a confiança dos mercados financeiros e diminuir progressivamente as pressões sobre a capacidade do país de pagar suas contas”, declarou.

Ponte das Mulheres, em Buenos Aires. Foto: Geoff Livingston/Wikimedia Commons (CC)

Ponte das Mulheres, em Buenos Aires. Foto: Geoff Livingston/Wikimedia Commons (CC)

A Argentina colocou em prática um novo plano econômico destinado a colocar a dívida do país em uma trajetória de queda sustentada, reduzir a inflação e reforçar a independência do banco central. Espera-se que o plano, apoiado por um acordo de 50 bilhões de dólares com o Fundo Monetário Internacional (FMI), ajude a restaurar a confiança do mercado na economia do país, a terceira maior da América do Sul.

Na entrevista a seguir, Roberto Cardarelli, chefe da missão do FMI na Argentina, discute os detalhes do plano econômico.

Por que a Argentina decidiu recorrer ao FMI?

A Argentina decidiu procurar o FMI em meados de maio, pois uma série de choques combinados com vulnerabilidades econômicas levaram a uma mudança no sentimento do mercado, que resultou em severas pressões sobre o peso, um prêmio de risco soberano mais alto e riscos de liquidez no curto prazo. Os investidores começaram a vender seus ativos em pesos, e o governo estava tendo problemas para pagar suas contas pelo resto do ano.

O que o novo plano econômico busca atingir?

O plano econômico da Argentina visa restaurar a confiança dos mercados financeiros e diminuir progressivamente as pressões sobre a capacidade do país de pagar suas contas. Para isso, o governo se comprometeu com um programa econômico que reduza os empréstimos, coloque a dívida pública em uma firme trajetória de queda e fortaleça a credibilidade da estrutura de metas de inflação do banco central.

Ao mesmo tempo, o plano pretende proteger a sociedade mais vulnerável dos inevitáveis ​​efeitos negativos que os cortes de alguns tipos de gastos terão na economia. Em última análise, o objetivo do programa é preparar o caminho para um crescimento mais forte, mais sustentável e equitativo que possa beneficiar todos os argentinos.

Um dos principais objetivos é reduzir o déficit fiscal. Como o governo fará isso?

Sim, a meta do governo é alcançar um saldo primário — ou seja, um saldo de receita e gastos no nível federal que não inclua pagamentos de juros — até 2020.

Esse prazo é um ano antes do anunciado originalmente pelo governo, e é baseado em medidas que visam reduzir os gastos do governo federal. Estas medidas incluem, por exemplo, novos cortes nos subsídios à energia, uma redução da massa salarial e uma redução das transferências para as províncias e empresas estatais.

Há também algumas medidas fiscais — em particular, a suspensão dos cortes de impostos anteriormente anunciados —, mas elas representam apenas uma pequena parte do reequilíbrio fiscal.

Como o governo protegerá os gastos sociais no plano?

O governo propôs algumas medidas que ajudariam os mais vulneráveis.

Em primeiro lugar, o programa estabelece um montante mínimo de gastos do governo federal em alguns programas de assistência social bem direcionados e altamente eficazes, como as transferências condicionadas de renda que atingem a maioria dos pobres e vulneráveis.

Em segundo lugar, se a economia piorar, o governo pode aumentar os gastos em até 0,2% do PIB (ou 30 bilhões de pesos) por ano, se achar que existe espaço no orçamento.

Em terceiro lugar, o governo pode decidir tomar medidas para proteger pessoas que estão insuficientemente cobertas pela rede de seguridade social existente.

Qual será o foco da política monetária e por que é importante que o país mantenha uma taxa de câmbio flexível?

O governo está comprometido com um regime de metas de inflação com taxas de câmbio livremente flutuantes. Também anunciou algumas mudanças que fortalecerão a credibilidade do arcabouço de política monetária. Em particular, o banco central adotou uma nova e mais confiável trajetória de metas de inflação (por exemplo, a meta de inflação para o final de 2019 passou de 10% para 17%).

O governo também anunciou uma série de medidas que reforçarão a independência do banco central, incluindo a suspensão imediata das transferências diretas e indiretas para o Tesouro e a intenção de enviar ao Congresso uma nova proposta para que o banco fortaleça a autonomia de suas operações.

Acreditamos que este plano tem uma boa chance de reduzir gradualmente a inflação. E permitirá que a taxa de câmbio se ajuste com base na confiança dos investidores, além de atuar como um amortecedor, já que suas flutuações impedirão que choques externos causem um grande impacto na atividade econômica.

O plano pede que o banco central da Argentina seja independente. Por quê?

Uma das razões pelas quais os investidores perderam a confiança na economia da Argentina foi a percepção de perda de independência do banco central no início de 2018, quando este reduziu as taxas de juros. Isso aconteceu em um momento em que as expectativas de inflação estavam bem acima das novas metas de inflação, que o banco central havia aumentado apenas algumas semanas antes. Essas decisões desencadearam uma rápida depreciação do peso e puseram em dúvida a independência do banco central e seu compromisso com a inflação mais baixa. Uma parte essencial do novo plano é garantir a autonomia financeira e operacional do banco central.

Quando você espera que a economia da Argentina volte aos trilhos?

Acreditamos que, após um sólido primeiro trimestre, a Argentina experimentará um crescimento negativo tanto no segundo quanto no terceiro trimestre de 2018.

O país enfrenta há anos uma seca que prejudicou a produção agrícola, e a crise nas últimas semanas prejudicou a inflação e a confiança dos investidores.

Esperamos que o crescimento se estabilize no último trimestre de 2018. Prevemos que a economia inicie uma recuperação gradual em 2019 e 2020, à medida que a confiança cresça e o custo do capital caia, juntamente com a inflação, enquanto as exportações se recuperam, graças ao sólido crescimento da economia de seus principais parceiros comerciais (Brasil, Estados Unidos e China).

Quais as diferenças entre a Argentina de hoje e aquela de 15 anos atrás? O FMI também mudou?

Sim, as condições são bem diferentes. A economia da Argentina é menos vulnerável do que antes da recessão no início dos anos 2000. O regime cambial é uma grande mudança. Agora está flutuando, não é fixo, então, está funcionando como um amortecedor. Os bancos e o setor privado também operam sem dinheiro emprestado em moeda estrangeira, portanto, seus balanços patrimoniais não correm risco de depreciação do peso. Além dessas importantes mudanças dinâmicas, o governo lançou uma série de medidas favoráveis ​​aos negócios que ajudaram a economia a registrar crescimento sólido nos últimos sete trimestres.

O FMI também mudou. Nosso apoio ao plano econômico da Argentina coloca mais ênfase na necessidade de fortalecer a rede de segurança social e inclui medidas para aumentar a participação das mulheres na força de trabalho. Fazer isso não é apenas um imperativo moral, é também essencial garantir que qualquer plano para estabilizar a economia seja aceito por todos, o que significa que ele tem uma chance maior de sucesso.