Fim da violência na República Centro-Africana ainda está distante, diz ONU

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Na República Centro-Africana, o fim da violência e a garantia de estabilidade ainda são objetivos difíceis de serem alcançados, apesar dos esforços de diversos atores, disse um oficial sênior da ONU ao Conselho de Segurança.

O Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) descreveu a República Centro-Africana como “um país frágil” devastado por anos de conflito e que enfrenta desafios estruturais e econômicos.

Forças de paz da missão da ONU na República Centro-Africana (MINUSCA) em patrulha na capital do país, Bangui. Foto: ONU/MINUSCA

Forças de paz da missão da ONU na República Centro-Africana (MINUSCA) em patrulha na capital do país, Bangui. Foto: ONU/MINUSCA

Na República Centro-Africana, o fim da violência e a garantia de estabilidade ainda são objetivos difíceis de serem alcançados, apesar dos esforços de diversos atores, disse um oficial sênior das Nações Unidas ao Conselho de Segurança.

O país tem sido atormentado por décadas de instabilidade e conflitos. Uma nova onda de violência teve início em dezembro de 2012, quando a coalizão rebelde majoritariamente muçulmana Séléka realizou uma série de ataques coordenados. Um acordo de paz foi firmado em janeiro de 2013, mas rebeldes retomaram a capital Bangui em março, forçando o presidente François Bozizé a fugir.

Desde então, um governo de transição foi estabelecido e encarregado de restaurar a paz. O conflito, no entanto, assumiu conotações cada vez mais sectárias quando o movimento anti-Balaka, majoritariamente cristão, se armou, levando a novos confrontos entre comunidades nos arredores de Bangui.

O Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) descreveu a República Centro-Africana como “um país frágil” devastado por anos de conflito e que enfrenta desafios estruturais e econômicos.

A tragédia dos refugiados e de habitantes impossibilitados de retornar para suas casas devido à violência “agrava um cenário onde a vida de quase metade da população seria impossível sem assistência de emergência”, disse Parfait Onanga-Anyanga, representante especial do secretário-geral e chefe da Missão Multidimensional Integrada das Nações Unidas para a Estabilização da República Centro-Africana (MINUSCA).

Tais abusos e violações “inaceitáveis” de direitos humanos são cometidos principalmente por grupos armados que ainda praticam atividades criminosas e se recusam a aceitar ofertas do governo para diálogo, acrescentou.

Um novo ataque contra forças pacificadoras no dia 10 de abril salientou a fragilidade da segurança pública no país. O incidente, que ocorreu após uma operação conjunta da MINUSCA e de forças policiais locais para desarmar e prender grupos de criminosos fortemente armados, deixou um pacificador de Ruanda a serviço da missão morto e mais oito integrantes feridos na capital, Bangui.

Um comunicado emitido pelo porta-voz da ONU, Stéphane Dujarric, afirmou que o secretário-geral António Guterres pediu às autoridades do país que investiguem os ataques e levem rapidamente os responsáveis à justiça, lembrando que atentados contra forças de paz da ONU “podem constituir um crime de guerra”.

O incidente também coincidiu com uma visita do subsecretário-geral da ONU para Operações de Manutenção da Paz, Jean-Pierre Lacroix, e do comissário da União Africana para Paz e Segurança, Smail Chergui, ao país.

Em comunicado, os dois líderes declararam: “Nós, representantes da União Africana e das Nações Unidas, decidimos conduzir uma visita conjunta à República Centro-Africana para expressar nossa solidariedade e total apoio ao povo centro-africano e ao processo de busca pela paz no país”.

Eles também condenaram os ataques que mataram e feriram os soldados de paz.

Necessidade de apoio financeiro

Outra fonte de preocupação na República Centro-Africana é a falta de recursos financeiros para garantir a implementação de planos de desenvolvimento. Ursula Mueller, secretária-geral assistente para os Assuntos Humanitários da ONU, fez um apelo na capital do país.

“A República Centro-Africana está enfrentando uma crise humanitária em grande escala”, disse Mueller. “A violência está se espalhando rapidamente pelo país enquanto necessidades urgentes e críticas estão aumentando. Nós temos de lidar com elas. Civis continuam a sofrer com o peso da violência e da insegurança.”

A ONU e seus parceiros estão buscando 516 milhões de dólares para atender as necessidades de quase 2 milhões de pessoas no país este ano, um número que representa cerca de metade da população.

No entanto, como destacado por Mueller, o financiamento para operações humanitárias na República Centro-Africana foi reduzido nos últimos três anos. Enquanto isso, o número de deslocados internos quase dobrou em 2017, atingindo o número de 694 mil pessoas.

“Eu vi pessoas famintas. Eu convoco a comunidade internacional a apoiar a resposta humanitária em Paoua. Se não recebermos financiamento, pessoas vão morrer”, afirmou.

Devido à violência, muitos deslocados passaram a viver em comunidades locais em Paoua, o que esgotou os limitados recursos disponíveis no local.

Mueller também agradeceu os trabalhadores humanitários na cidade e em todo o país.

“Eles estão fazendo um trabalho incrível sob condições muito difíceis. Os ataques direcionados os impedem de prestar assistência com potencial de salvar vidas. Quatorze trabalhadores humanitários foram mortos no ano passado. Isso é inaceitável”, completou.

Em Paoua, Mueller se encontrou com mulheres deslocadas e ficou admirada com sua força em meio ao que descreveu como “incríveis dificuldades”.

Mueller afirmou: “Elas querem segurança, paz e escolas. O que qualquer mãe quer para seus filhos”.

Uma das mulheres, Veronique, fugiu para Paoua com seus seis filhos depois que seu marido foi morto. Outra mulher, Esther, falou sobre sua luta para ter acesso a comida, saúde e educação.

Durante seu encontro com o presidente da República Centro-Africana, Faustin Archange Touadéra, Mueller reforçou a necessidade de intensificar os esforços para proteção de civis. Ela também compartilhou as preocupações expressas pelas pessoas deslocadas em Paoua, ou seja, a necessidade de segurança para ajudá-los a voltar para suas casas.


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