Ferramenta da ONU aponta falhas no destino de investimentos para combate à escravidão

Uma nova ferramenta interativa de dados das Nações Unidas mostrou um desencontro entre locais onde a escravidão contemporânea ocorre e onde governos estão gastando recursos para responder a esse crime.

A ferramenta, desenvolvida pelo Centro de Pesquisas Políticas da Universidade das Nações Unidas, pode ajudar os debates sobre o tema. Atualmente, mais de 40 milhões de pessoas vivem em situação de escravidão contemporânea.

Homem resgatado do trabalho escravo no interior do Maranhão - Foto: Marcello Casal/ABr

Homem resgatado do trabalho escravo no interior do Maranhão – Foto: Marcello Casal/ABr

Uma nova ferramenta interativa de dados das Nações Unidas mostrou um desencontro entre locais onde a escravidão contemporânea ocorre e onde governos estão gastando recursos para responder a esse crime.

A ferramenta, desenvolvida pelo Centro de Pesquisas Políticas da Universidade das Nações Unidas, pode ajudar os debates sobre o tema. Atualmente, mais de 40 milhões de pessoas vivem em situação de escravidão contemporânea, mais do que nunca na história da humanidade.

O lançamento da plataforma Modern Slavery Data Stories <https://delta87.org/earthtime/>, uma série de gráficos animados de fácil compreensão, fornece fotos detalhadas sobre como os fatores relacionados à escravidão contemporânea mudaram ao longo dos anos.

A pesquisa liderada pelas Nações Unidas mostrou que metade das pessoas escravizadas são vítimas de trabalho forçado em setores como agricultura, mineração e serviços domésticos. O restante é de vítima de escravidão sexual, escravidão por casamento forçado e escravidão infantil. De acordo com o último Índice de Escravidão Global, publicado pela Walk Free Foundation, os três países com a maior prevalência de escravidão contemporânea são Coreia do Norte, Eritreia e Burundi.

Destrinchando a complexa história da escravidão contemporânea

A plataforma Modern Slavery Data Stories foi desenvolvida pelo Delta 8.7, um projeto inovador do Centro de Pesquisas Políticas da Universidade das Nações Unidas, em colaboração com tecnólogos da Universidade Carnegie Mellon, nos Estados Unidos, para ajudar tomadores de decisões a entenderem e usarem dados, a fim de criar legislações eficazes.

Em entrevista ao UN News, o diretor do Centro de Pesquisas Políticas e chefe do Delta 8.7, James Cockayne, disse que, para erradicar escravidão até 2030, é necessário libertar cerca de 9 mil pessoas todos os dias, uma taxa muito acima da que é feito atualmente.

Uma das maneiras para alcançar este resultado, disse Cockayne, é destrinchar este fenômeno complexo e apresentá-lo de maneira que seja compreendido por pessoas influentes que não são especialistas.

Como dados sobre estes assuntos podem ser tão variáveis, disse, a história tem sido difícil de ser contada. Para isso, o Delta 8.7 criou um algoritmo de machine learning que vasculha descrições de programas oficiais de ajuda para entender quais países se comprometeram a combater esse crime, e de que forma o fizeram. Permitindo, assim, responder melhor às formas de exploração, entendendo onde e quando elas ocorrem.

“Este tipo de compreensão, tornada óbvia através destes recursos visuais, pode ter um impacto nos debates políticos”, declarou.

Entre 2000 e 2013, mais de 4 bilhões de dólares em ajuda oficial ao desenvolvimento foram mobilizados por 30 países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Mais de 100 países receberam esta ajuda oficial.

Escravidão: uma característica da sociedade global

Para Cockayne, a principal questão aprendida através das análises de dados foi a de que a escravidão contemporânea é na verdade produto da maneira com a qual o sistema político e econômico global funciona.

Como o Índice de Escravidão Global mostrou, muitos dos produtos usados cotidianamente, como celulares, computadores e carros; assim como roupas, cosméticos e até mesmo alimentos, são produzidos com matérias-primas extraídas por pessoas que vivem em situação de escravidão.

Logo, soluções precisam acontecer em todo o sistema, envolvendo todos os elementos da sociedade, da indústria da tecnologia ao setor financeiro global.

“Parcerias são essenciais”, disse Cockayne. Além disso, vítimas de escravidão contemporânea precisam ser parte do processo, à medida que “sem suas vozes informando pesquisas, programações e estratégias, arriscamos não só sermos ineficazes, mas também criarmos mais danos”.

Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 8: trabalho decente para todos

A ambição de erradicar a escravidão contemporânea até 2030 é parte dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável — um caminho para erradicar a pobreza e alcançar o desenvolvimento sustentável —, adotados por todos os Estados-membros da ONU em 2018. O Objetivo 8 pede “condições para um crescimento sustentável, inclusivo e economicamente sustentável, prosperidade compartilhada e trabalho decente para todos”.

Além disso, um dos pontos do Objetivo 8 é “tomar medidas imediatas e eficazes para erradicar o trabalho forçado, acabar com a escravidão contemporânea e o tráfico de pessoas, e assegurar a proibição e eliminação das piores formas de trabalho infantil, incluindo recrutamento e utilização de crianças-soldado, e até 2025 acabar com o trabalho infantil em todas as suas formas”.

Segundo dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT), 152 milhões de crianças entre 5 e 17 anos eram vítimas de trabalho infantil no mundo em 2016.

No Brasil, de acordo com a plataforma <https://delta87.org/dashboards/brazil/>, houve uma queda de 59% em trabalho infantil de 2002 a 2015. Apesar da queda geral, entre crianças de 5 a 9 anos o trabalho infantil aumentou 12,3% entre 2014 e 2015, passando de 70 mil para 79 mil.

Dados mais recentes sobre trabalho infantil por setores no Brasil são de 2014. Segundo estimativa de 2014, o setor agrícola é o que teve o maior número de crianças, com 56%, seguido pelo setor de serviços (23%). Identificar os setores nos quais há prevalência de trabalho infantil pode ajudar atores políticos a mirarem esforços de combate a esse crime.

Para o futuro, conforme dados e evidências reunidos através do Delta 8.7 ajudam a construir um entendimento do que está acontecendo, o projeto dará base para um documento produzido pela relatora especial da ONU sobre formas contemporâneas de escravidão, Urmila Bhoola, que será entregue ao Conselho de Direitos Humanos mais tarde neste ano.


Comente

comentários