FAO pede esforços das cidades para garantir alcance dos objetivos globais até 2030

O diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o brasileiro José Graziano da Silva, pediu na segunda-feira (19) que as cidades do mundo todo redobrem seus esforços para transformar em realidade local os compromissos mundiais sobre segurança alimentar, nutrição e mudanças climáticas.

“Para implementar a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, o compromisso político dos líderes mundiais não é suficiente. Precisamos também da plena participação das autoridades locais. No fim das contas, é no nível local em que a gente vive, come, usa água ou joga o lixo”, disse.

Para o chefe da FAO, os residentes das cidades não podem ser considerados meros consumidores de alimentos, e as comunidades rurais não devem ser vistas exclusivamente como produtoras. É importante oferecer aos agricultores familiares um melhor acesso a serviços, infraestruturas e mercados, e criar as condições para que os habitantes das cidades consumam alimentos mais frescos e nutritivos, baseados em cadeias alimentares curtas, reduzindo a quantidade de alimentos perdidos ou desperdiçados.

Graziano (centro) fez o chamado em uma reunião de alto nível co-presidida pela presidente do 73º período de sessões da Assembleia Geral das Nações Unidas, María Fernanda Espinosa (à direita, de verde). Foto: FAO

Graziano (centro) fez o chamado em uma reunião de alto nível co-presidida pela presidente do 73º período de sessões da Assembleia Geral das Nações Unidas, María Fernanda Espinosa (à direita, de verde). Foto: FAO

O diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o brasileiro José Graziano da Silva, pediu na segunda-feira (19) que as cidades do mundo todo redobrem seus esforços para transformar em realidade local os compromissos mundiais sobre segurança alimentar, nutrição e mudanças climáticas.

“Para implementar a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, o compromisso político dos líderes mundiais não é suficiente. Precisamos também da plena participação das autoridades locais. No fim das contas, é no nível local em que a gente vive, come, usa água ou joga o lixo”, disse.

Graziano fez o chamado em uma reunião de alto nível co-presidida pela presidente do 73º período de sessões da Assembleia Geral das Nações Unidas, María Fernanda Espinosa, e o Programa das Nações Unidas para Assentamentos Humanos (ONU-HABITAT), da qual participaram os prefeitos de Valência (Espanha), Quito (Equador) e Surabaia (Indonésia), assim como responsáveis de políticas alimentares de Nova Iorque, Praia e da rede Cidades e Governos Locais Unidos.

Em um momento de rápida urbanização, as cidades estão se tornando agentes de mudança cada vez mais importantes, incluindo no que se refere às políticas e medidas destinadas a proporcionar acesso a uma alimentação saudável para todos, afirmou o diretor-geral da FAO.

Atualmente, cerca de 55% da população mundial vive em zonas urbanas, proporção que deve aumentar para 68% em 2050, particularmente na África e no Sudeste Asiático, onde hoje se concentram majoritariamente a fome e a pobreza. Ao mesmo tempo, cerca de 80% de todos os alimentos produzidos são consumidos em zonas urbanas.

Alcançar o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) número 11, que prevê promover cidades e comunidades sustentáveis, é fundamental para conquistar todos os demais ODS, disse Graziano.

Apesar de o número de pessoas com fome no mundo ter aumentado nos últimos três anos, também houve aumento do número de pessoas obesas, “sobretudo nas zonas urbanas, onde é mais provável que as pessoas comam alimentos processados mais baratos e ricos em gorduras trans, açúcar e sal”, disse o chefe da FAO.

“Precisamos urgentemente transformar e colocar em andamento sistemas alimentares que ofereçam alimentos saudáveis e nutritivos para todos, preservando ao mesmo tempo nossos recursos naturais e nossa biodiversidade”, disse Graziano. Para isso, disse ele, é necessário integrar as ações desde a produção até o consumo de alimentos.

Ele completou que já não podemos pensar em zonas rurais e urbanas como uma dicotomia, como entidades dissociadas.

Os residentes das cidades não podem ser considerados meros consumidores de alimentos, e as comunidades rurais não devem ser vistas exclusivamente como produtoras. É importante oferecer aos agricultores familiares um melhor acesso a serviços, infraestruturas e mercados, criar as condições para que os habitantes das cidades consumam alimentos mais frescos e nutritivos, baseados em cadeias alimentares curtas — assim como da agricultura urbana e periurbana —, e reduzir a quantidade de alimentos perdidos ou desperdiçados.

Políticas públicas para promover dietas saudáveis

O diretor-geral da FAO elogiou a iniciativa “Saúde mundial e política externa”, adotada recentemente pela Assembleia Geral da ONU, que aborda o tema chave da nutrição para fomentar a promoção de dietas e estilos de vida saudáveis com políticas específicas vinculadas aos compromissos nacionais no marco da Década de Ação das Nações Unidas sobre a Nutrição.

“Dado que a epidemia de obesidade e sobrepeso está fora de controle e seus efeitos custam aos sistemas de saúde nacionais anualmente mais do que o gasto militar no mundo todo, a comunidade internacional deve ir além”, disse. “São necessárias com urgência políticas públicas que promovam dietas saudáveis para abordar as opções alimentares da população”.

Graziano afirmou que vários países colocaram em andamento a adoção de políticas fiscais e regulatórias, incluindo a imposição de impostos a alimentos e bebidas não saudáveis, etiquetas na parte da frente da embalagem, a restrição da comercialização de alimentos não saudáveis para crianças e adolescentes, e que estas medidas podem servir como referência para outras nações.

“O sobrepeso e a obesidade são um problema público, não privado. Os governos devem implementar políticas e programas destinados a proporcionar alimentos saudáveis, nutritivos e acessíveis a todos. As famílias e os indivíduos já não podem ser os únicos responsáveis pelo que comem e como comem”, concluiu.

No discurso diante dos participantes da reunião, a presidente da Assembleia Geral da ONU, María Fernanda Espinosa, afirmou: “os governos locais desempenham um papel fundamental contribuindo para garantir que a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável se torne realidade”. “As cidades inclusivas, resilientes e sustentáveis são fontes de oportunidades e desenvolvimento. Trabalhemos juntos para que os grandes núcleos urbanos de todo o mundo ofereçam uma maior qualidade de vida a todos os seus habitantes”.

“Uma das características do século 21 é que as cidades oferecem cada vez mais soluções autônomas aos desafios de desenvolvimento. Os problemas da humanidade são muito importantes para serem deixados unicamente nas mãos dos Estados”, disse Joan Ribó, prefeito de Valência, onde a FAO está apoiando o estabelecimento do Centro Mundial para a Alimentação Saudável, destinado a promover sistemas alimentares saudáveis e sustentáveis nas cidades.

“Se ajudarmos a desenvolver políticas urbanas nacionais, contribuiremos para o planejamento urbano e territorial integrado, trabalharemos para fortalecer a resiliência climática da população urbana pobre. Se apoiarmos a urbanização eficiente no uso dos recursos, alimentar as cidades em um contexto de mudança climática é parte fundamental de nossos esforços para criar comunidades mais resilientes, inclusivas e sustentáveis na continuidade entre o espaço rural e urbano”, disse Maimunah Mohd Sharif, diretora-executiva do ONU-HABITAT, em mensagem de vídeo.

“Instrumentos como os ODS e a Nova Agenda Urbana envolvem todos os níveis de governo. No nível dos municípios, nos compete enfrentar os desafios novos e os pendentes, mas precisamos de ajuda para obter as ferramentas e recursos adequados”, disse Mauricio Rodas, prefeito de Quito.

O apoio da FAO às cidades

A FAO esteve muito comprometida em promover o desenvolvimento sustentável das cidades com base nos sistemas alimentares e em um enfoque territorial.

Nesse sentido, apoia a implementação do “Pacto de política alimentar urbana de Milão”, o primeiro protocolo internacional que insta as cidades a desenvolver sistemas alimentares sustentáveis que proporcionem alimentos saudáveis e acessíveis para toda a população, protejam a biodiversidade e reduzam o desperdício de alimentos.

A FAO participou também ativamente no processo da Habitat III, na qual ocorreu a aprovação da Nova Agenda Urbana durante a Conferência de Quito em 2016. O “Marco da FAO para a Agenda Alimentar Urbana” inclui ideias para implementar medidas com o objetivo de gerar emprego, fortalecer as cadeias locais de valor alimentar e reduzir e gerir os níveis elevados de desperdício de alimentos em muitas cidades.