FAO lembra trajetória de ativista rural e quebradeira de coco

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Raimunda Gomes da Silva, de 66 anos, foi uma das lideranças que defendeu os direitos das mulheres rurais na região do Bico do Papagaio. Cerca de 300 mil mulheres vivem da coleta do coco babaçu, nativo da localidade.

A ativista foi uma das concorrentes ao Nobel da Paz em 2005 e acumula outras condecorações por seu ativismo. O relato é da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

A quebradeira de coco Raimunda Gomes da Silva é uma das homenageadas pela campanha da FAO de 15 dias de ativismo em prol das mulheres rurais. Imagem: FAO

A quebradeira de coco Raimunda Gomes da Silva é uma das homenageadas pela campanha da FAO de 15 dias de ativismo em prol das mulheres rurais. Imagem: FAO

A quebradeira de coco Raimunda Gomes da Silva, de 66 anos, nasceu em Novo Jardim, no Maranhão. Lá, foi criada pelos pais agricultores ao lado dos seus dez irmãos. Casou-se aos 18. Quatorze anos depois da união, decidiu abandonar o marido e criar sozinha os seis filhos, trabalhando como lavradora.

Em 1991, Raimunda fundou a Associação Regional das Mulheres Trabalhadoras Rurais do Bico do Papagaio (ASMUBIP). Ela e suas companheiras de luta começaram a promover encontros para discutir seus direitos. Primeiro, nos municípios mais próximos e, em seguida, nos estados vizinhos. Em 1992, criaram o Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB), presente no Pará, Tocantins, Piauí e Maranhão.

Cerca de 300 mil mulheres vivem da coleta do coco babaçu, nativo da região. Da amêndoa do fruto, extraem o óleo vegetal, com o qual cozinham e produzem sabão. Da casca, fazem lenha. Da palha da árvore, cestos. Nada se perde. As agricultoras só utilizam para si o que sobra da produção. O trabalho de coleta e a quebra do coco são tarefas difíceis.

Aos 20 anos, Raimunda aprendeu a assinar o nome e tornou-se porta voz de 400 mil trabalhadoras rurais extrativistas, em defesa do meio ambiente e dos direitos das mulheres. Ao longo de sua trajetória, foi responsável pela Secretaria da Mulher Trabalhadora Rural Extrativista, do Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS).

Por sua atuação em prol das mulheres da região do Bico do Papagaio, a quebradeira de coco recebeu o título de doutora Honoris Causa da Universidade Federal do Tocantins e prêmios como o Diploma Mulher-Cidadã Guilhermina Ribeira da Silva, da Assembleia Legislativa do Tocantins, e o Diploma Bertha Lutz, do Senado Federal, concedido a mulheres que contribuíram para a igualdade de gênero no Brasil.

Em 2005, Raimunda integrou a lista mundial das mil mulheres que concorreram ao prêmio Nobel da Paz.

Hoje, a trabalhadora rural, já aposentada, está em seu segundo casamento, com o também aposentado Antônio Cipriano. Ela adotou o sétimo filho, Moisés, órfão de um líder sindical assassinado na década de 1990. Devido à idade avançada e a problemas de saúde e na vista, Raimunda está longe do ativismo, mas garante que há outras mulheres à frente das causas nos estados.

A ex-quebradeira de coco já quase não sai mais de sua casa e conta que é difícil o contato com as demais quebradeiras. “Eu só vejo elas quando vêm aqui me visitar. Eu queria que elas tivessem mais acesso à saúde, aos estudos, tivessem uma moradia melhor, melhor qualidade de vida porque isso ainda não é visto como profissão e dificulta na hora de aposentar”, avalia.

Raimunda também é autora de várias poesias e músicas, em que denuncia a injustiça imposta ao povo do campo. A sua história virou a trama central do vídeo-documentário “Raimunda, a quebradeira”, do cineasta Marcelo Silva.

“O fato de ganhar esses prêmios todos não mudou em nada na minha vida, eu continuo da mesma forma, vivendo do mesmo jeito. O reconhecimento só me fez ter ainda mais responsabilidade. A luta continua. Eu não quero morrer matada, quero morrer na cama, sou feita do pó da terra, e é pra lá que voltarei.”

15 dias pela autonomia das mulheres rurais

Os papéis desempenhados pelas mulheres rurais são tão numerosos quanto suas lutas e vitórias. O que não faltam são histórias de vida inspiradoras. No entanto, elas ainda não têm o reconhecimento merecido. Sofrem com o preconceito e a desigualdade de gênero.

Ainda há um longo caminho para a igualdade de direitos e oportunidades entre homens e mulheres no campo. A fim de mostrar que a equidade de gênero e o respeito são valores necessários cotidianamente, a ONU decretou 2018 como o Ano da Mulher Rural.

A partir de 1º de outubro, serão publicadas no portal da FAO uma série de reportagens que fazem parte da Campanha Regional pela Plena Autonomia das Mulheres Rurais e Indígenas da América Latina e do Caribe – 2018. Serão 15 dias de ativismo em prol das trabalhadoras rurais que, de acordo com o censo demográfico mais recente, são responsáveis pela renda de 42,2% das famílias do campo no Brasil.

Para acessar todas as matérias da campanha, clique aqui.


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