FAO: 257 milhões de pessoas passam fome na África

Contingente representa 20% da população do continente. Desse grupo, 237 milhões estão na África Subsaariana. Números foram divulgados nesta semana pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

A médica Edna Doyama Woza segura o bebê de nove meses Bato Manasse, na ala de nutrição do Hospital Pediátrico de Bangui, na República Centro-Africana. Imagem de outubro de 2017. Foto: UNICEF/Sokhin

A médica Edna Doyama Woza segura o bebê de nove meses Bato Manasse, na ala de nutrição do Hospital Pediátrico de Bangui, na República Centro-Africana. Imagem de outubro de 2017. Foto: UNICEF/Sokhin

Agências da ONU revelaram na quarta-feira (13) que a fome na África voltou a crescer em 2017, atingindo 257 milhões de pessoas — 20% da população africana. Desse grupo, 237 milhões estão na região subsaariana do continente. Os números da subnutrição são maiores do que em qualquer outra região do mundo.

Na comparação com 2015, houve um aumento de 34,5 milhões na população de indivíduos desnutridos na África. Entre os que passaram a conviver com a fome, 32,6 milhões estão na África Subsaariana, com mais da metade morando no oeste do continente.

As estatísticas foram divulgadas no mais novo relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e da Comissão Econômica das Nações Unidas para a África (ECA). A publicação Visão Regional da África sobre Segurança Alimentar e Nutrição mostra que os progressos pelo fim da fome nos últimos anos estão sendo desmantelados.

“O agravamento dessa tendência na África deve-se a condições econômicas globais difíceis e ao agravamento das condições ambientais. Em muitos países, se deve aos conflitos e à variabilidade e extremos climáticos, muitas vezes, combinados”, explicam no prefácio do documento o diretor-geral adjunto da FAO e representante regional para a África, Abebe Haile-Gabriel, e a secretária-executiva da ECA, Vera Songwe.

“O crescimento econômico desacelerou em 2016 devido aos preços baixos das commodities, em particular para petróleo e minerais. A insegurança alimentar piorou em países afetados por conflitos, muitas vezes exacerbados por secas ou inundações. Por exemplo, no leste e sul da África, muitos países sofreram com a seca.”

O relatório aponta que, entre as meninas e meninos do continente com até cinco anos de idade, existem 59 milhões com baixa estatura para a idade. Isso representa 30,3% das crianças nessa faixa etária. Ainda nesse segmento demográfico, 13,8 milhões de crianças têm peso menor do que o adequado para a sua altura.

A análise também revela que 38% de todas as mulheres africanas em idade reprodutiva — 110 milhões de mulheres — estão com anemia. A desnutrição entre elas pode ter impacto na saúde dos filhos, quando decidirem engravidar. Entre as crianças com até seis meses de idade, somente 43,5% foram alimentadas exclusivamente com leite materno.

Clima e agricultura

Em muitos países do leste e sul da África, as condições climáticas adversas causadas pelo El Niño causaram queda na produção agrícola de algumas regiões e aumento dos preços dos alimentos básicos. A situação econômica e climática melhorou em 2017, mas alguns países continuam sendo afetados pela seca ou pela falta de chuvas.

Muitas nações do continente correm risco considerável de enfrentar desastres relacionados ao clima. Nos últimos dez anos, essas problemas afetaram, em média, 16 milhões de pessoas e causaram prejuízos anuais de 670 milhões de dólares na África. Embora nem todos esses fenômenos de curto prazo possam ser atribuídos às mudanças climáticas, as evidências apresentadas mostram que as ocorrências mais numerosas e mais frequentes de extremos climáticos, bem como um aumento nas alterações do clima, ameaçam os ganhos na erradicação da fome e da desnutrição.

O relatório das Nações Unidas ressalta que os efeitos das mudanças climáticas, como a redução das chuvas e as temperaturas mais altas, influenciam negativamente a produção de alimentos.

Em termos de elaboração e implementação de estratégias de adaptação ao clima, o relatório destaca a necessidade de maiores esforços na coleta de dados, monitoramento e execução de práticas de agricultura inteligente. Esforços contínuos por meio de parcerias, articulando a adaptação às mudanças climáticas e a redução do risco de desastres, e o financiamento a longo prazo podem levar a abordagens humanitárias e de desenvolvimento.

A FAO e a comissão regional lembram que a agricultura e o setor rural devem desempenhar um papel fundamental na criação de empregos decentes para os quase 12 milhões de jovens que ingressam no mercado de trabalho anualmente.

Sobrepeso infantil, a outra face da má nutrição

O relatório também alerta para o outro lado da má nutrição — o excesso de peso. No mundo, existem 38,3 milhões de crianças com sobrepeso com menos de cinco anos de idade. Dessas, 9,7 milhões estão na África. Elas representam 5% de todos os meninos e meninas africanos nessa faixa etária, um índice semelhante à média global. Mas a proporção varia de forma significativa conforme a região do continente africano.

No sul da África, por exemplo, a taxa chega a 13,7%, o maior nível regional no mundo. A pesquisa da ONU indica que esse índice alto reflete a prevalência do sobrepeso infantil na África do Sul (13,3%). O problema também tem proporções preocupantes no norte da África (10,3%), com destaque para Egito (15,7%), Líbia (22,4%) e Tunísia (14,3%). Em outras regiões do continente, os valores ficam abaixo dos 5%.

Remessas

A FAO e a comissão econômica regional lembram ainda que as remessas da migração internacional e interna desempenham um papel importante na redução da pobreza e da fome na África, além de estimular investimentos produtivos.

As remessas internacionais chegam a quase 70 bilhões de dólares, cerca de 3% do Produto Interno Bruto (PIB) da África. Segundo o relatório, esses recursos são uma oportunidade de desenvolvimento nacional que os governos devem explorar e fortalecer.

Comércio continental

O relatório também destaca que a assinatura do acordo da Área Continental de Livre Comércio Africano pode acelerar o desenvolvimento sustentável, aumentando as trocas entre países, incluindo as de produtos da agropecuária. Embora as exportações agrícolas intra-africanas tenham aumentado de 2 bilhões de dólares em 2000 para 13,7 bilhões em 2013, elas permanecem relativamente modestas e, frequentemente, informais.

Apesar do potencial de crescimento, a análise da ONU também alerta que abrir o comércio de alimentos pode trazer riscos ao consumidor e aos produtores. De acordo com a pesquisa, governos devem evitar o uso de políticas comerciais para objetivos múltiplos e combinar reformas comerciais com instrumentos adicionais, como redes de segurança e programas de mitigação de riscos. Com isso, é possível avançar no alcance da fome zero e outras metas de nutrição.

Acesse o relatório da FAO e da ECA clicando aqui.