Família síria retoma vida em São Paulo após viver quatro anos na Jordânia

Fatima e sua família fugiram da guerra na Síria. Eles viveram por quatro anos na Jordânia, em condições precárias, esperando a guerra acabar. Até que decidiram viajar ao Brasil e recomeçar suas vidas em São Paulo. O relato é da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).

A guerra na Síria continua a provocar a maior crise de deslocamento do mundo. Mais de 12 milhões de pessoas tiveram de deixar suas casas: metade da população. São oito anos de guerra, mais de 5,6 milhões de refugiados sírios registrados e mais de 6 milhões de pessoas deslocadas dentro da Síria.

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Fatima tem 42 anos e cinco filhos. São quatro meninos, Hussen, de 21, Mohamde, de 20, Lawand, de 15, Laith, de 7, e uma menina, Simaf, de 4, que nasceu no Brasil. Eles moram há quatro anos em São Paulo (SP), onde estão reconstruindo suas vidas dia após dia.

“Graças a Deus a gente conseguiu, eu consegui trazer meus filhos, isso é o importante da vida. O importante é que as crianças estão todas bem”, declarou.

Fatima morava com seus três filhos mais velhos e o marido em Alepo, no norte da Síria. Sua família era dona de uma fábrica de roupas e ela trabalhava no negócio como costureira.

Descendente de curdos, ela chegou a dar aula de árabe para os familiares que chegavam à cidade. Na época, a vida era um “paraíso”, em suas próprias palavras — até a guerra começar.

“Eu amava aquela cidade. Você olhava e podia ver os anos de história. Eu passeava muito”, contou.

“Tinha os castelos de Alepo, com mais de 7 mil anos. Eu sempre ia lá, porque da casa da minha família você conseguia ver o castelo bem longe. Era a cidade que eu mais gostava da Síria, eu amava. E no interior de Alepo minha família plantava azeite, uva, algodão, trigo, pistache.”

No início, ela achou que a guerra terminaria rápido. Tudo mudou quando seu marido decidiu entrar para o conflito e a abandonou, levando consigo seus dois filhos mais velhos, que na época tinham 12 e 13 anos.

Fatima ficou sem notícia das crianças, até que um dia um conhecido da família contou que as tinha visto morando nas ruas. “Meus amigos me contaram que ele tinha deixado as crianças na rua. Meu filho quase morreu, até minha família conseguir encontrá-los. Ficaram nessa situação por seis meses.”

A guerra na Síria continua a provocar a maior crise de deslocamento do mundo. Mais de 12 milhões de pessoas tiveram de deixar suas casas: metade da população. São oito anos de guerra, mais de 5,6 milhões de refugiados sírios registrados e mais de 6 milhões de pessoas deslocadas dentro da Síria.

Alguns anos depois Fatima conheceu seu atual marido. Por um tempo, ele morou na Jordânia, enquanto ela continuava na Síria. Mas o conflito foi se agravando e eles decidiram viver todos no mesmo lugar.

“Eu estava grávida e era perigoso. No meu bairro, todo mundo fugiu. A minha mãe não queria sair de casa, eu morava perto dela, mas liguei para o meu marido e saí de lá. (…) A gente fugiu para a Jordânia.”

A família viveu na Jordânia por quatro anos, esperando que a guerra acabasse. Sofreram muita discriminação no país. Seus dois filhos mais velhos precisaram trabalhar para ajudar a sustentar a família. Apenas o mais novo estudava. Tudo era muito caro e eles viviam em condições precárias, apertados em um cômodo. Se sentindo sem saída, foram à embaixada brasileira.

“A gente queria sair da Jordânia por causa dos estudos do meus filhos, a gente queria dar uma vida melhor para eles. Fomos no consulado da Austrália, da Suíça, da Armênia: todas pessoas secas. Quando entrei no consulado brasileiro, eu não esqueço esse momento, nos receberam com um alegre: “Oi, bem-vindo!”.

Chegar ao Brasil não foi fácil. Fatima contou que eles estavam priorizando locais em que tinham familiares, e não tinham nenhum no país. Hoje, no entanto, ela disse que eles já estão adaptados — todos os filhos estudam e os dois mais velhos fazem curso superior, de enfermagem e de comissário de bordo.

“Quando entendemos a cultura daqui a gente se acostumou mais. Agora meus filhos amam arroz e feijão, e eu tenho que fazer. Mas no início a gente pensava ‘por que sempre arroz e feijão?’. Agora nos acostumamos, mas só uma vez por semana, todo dia como os brasileiros não dá”, disse, brincando.

Até 2017, havia 2,7 mil refugiados sírios no Brasil. Eles são o maior grupo dentre os solicitantes de refúgio que já tiveram seus vistos reconhecidos.comida também é desfrutada pelos brasileiros, que fazem encomenda de salgados e doces com ela. Assim, ela consegue gerar renda extra para ajudar a família.

Fatima leva os sabores e aromas dos quais sente falta para o dia a dia da família. Sua saborosa As receitas da mãe também a ajudam a lidar com a saudade de uma casa que não existe mais. Seu bairro foi bombardeado e restaram apenas destroços. Ela afirmou sentir dor ao pensar que seu lar não existe mais.

“Alepo está destruída. Meu bairro, Ashrafieh, não existe mais, está completamente destruído. Minha mãe ainda está na Síria. Agora lá é assim: eles entram nas casas, limpam e as pessoas podem morar até o dono voltar, se o dono chega, a pessoa tem que sair e ir para outra casa que esteja vazia.”

“Isso é vida? Antes a minha mãe era gorda, agora, se você olhar para ela, está muito magra. Ela não aguenta mais. Às vezes, é difícil falar com eles, porque é muito triste e você acaba ficando triste também.”

O ACNUR atua na emergência da Síria desde o começo. Somos a principal agência da ONU em proteção, abrigo, serviços comunitários e distribuição de itens essenciais dentro da Síria. Mas não é só isso: estamos ao lado dos refugiados em todos os passos da sua jornada. No Brasil, apoiamos através de nossos parceiros locais cursos de português, revalidação de diploma, documentação, atuando para que as famílias se integrem e tenham a chance de viver em melhores condições.