Família síria encontra porto seguro no litoral do Canadá

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No dia 28 de fevereiro de 2016, a família síria Ayash foi reassentada em Lunenburg, Nova Escócia, no Canadá — os primeiros refugiados acolhidos na pequena comunidade de 2,5 mil habitantes.

Entre novembro de 2015 e fevereiro de 2016, mais de 25 mil refugiados sírios foram reassentados em todo o Canadá.

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Todas as manhãs, sob o céu cinza do amanhecer, Ahmad Ayash dirige para o trabalho, passando por filas de casas à sua esquerda e pelo porto à direita. Uma paz suave preenche o ar. Na cidade portuária de Lunenburg, Canadá, não há bombas ou balas.

Até onde Ahmad pode se lembrar, pelo menos até seu bisavô, a família Ayash viveu e trabalhou em Dara’a, na Síria. Mas, meses depois de ele ter aberto um escritório de engenharia na cidade, a vida estável que tinha com a mulher, Fatmeh, e os filhos, desapareceu. Tiros marcaram o início do prolongado conflito da Síria que já deslocou mais de 11 milhões de residentes e acordaram as cinco crianças no meio da noite.

Os pais tomaram a decisão de fugir de Dara’a o mais rápido possível, atravessando a fronteira para a Jordânia. O que não puderam empacotar foi deixado para trás, juntamente com amigos, família e o sentimento de pertencimento.

“Quando você decide ir embora, é muito difícil”, disse Ahmad. “Mas você não tem escolha”.

No dia 28 de fevereiro de 2016, a família Ayash foi reassentada em Lunenburg, Nova Escócia, no Canadá — os primeiros refugiados acolhidos na pequena comunidade de 2,5 mil habitantes. Trata-se de uma cidade de gerações de pescadores que, sem o conhecimento de Ahmad, também têm suportado suas próprias perdas.

Na frente das redes de pesca de vieiras e de barcos ancorados, pilares de granito preto se movem em diferentes direções sob a forma de uma bússola — um memorial para as centenas de pescadores que nunca voltaram para a costa.

“As pessoas aqui aprendem a viver com a morte desde o início”, declarou David Friendly, um residente de Lunenburg e presidente do comitê de patrocínio privado da família Ayash.

Apesar da trágica história da cidade, suas costas rochosas tornaram-se um farol para os refugiados que fogem da guerra e da perseguição na Europa.

A história de acolhimento começou quando o padre Michael Mitchell, da Igreja Anglicana da cidade, viu imagens das fugas da Síria e falou sobre isso com sua congregação. A comunidade interessou-se sobre o assunto, e formou uma coalizão de igrejas e grupos comunitários com o objetivo de patrocinar famílias de deslocados.

Quando a família Ayash finalmente chegou, David rapidamente se tornou amigo de Ahmad. “Senti uma conexão”, declarou.

David ajudou Ahmad a encontrar trabalho logo após a chegada da família. A dupla sabia antecipadamente que o Canadá não reconheceria os mais de 20 anos de experiência de Ahmad como engenheiro, limitando as opções na busca por emprego. Mas uma empresa local que fabrica materiais aeroespaciais ofereceu trabalho a ele.

“O trabalho é uma coisa importante para mim”, afirmou Ahmad. “Você deve encontrar um trabalho para garantir uma vida boa para seus filhos”.

A renda significa que sua família pode ser considerada autossuficiente — uma grande vitória, dadas as barreiras que muitos refugiados enfrentam para encontrar emprego.

E, para David, que não tem netos, esta amizade adquiriu um significado especial. “É muito egoísta da minha parte, mas eu adoro quando [as crianças] pensam em mim como um avô”, declarou.

Mas nem tudo tem sido tão simples. Há desafios no reassentamento de refugiados em uma pequena cidade. A fonte mais próxima de carne halal (tipo de alimento que está de acordo com as leis islâmicas definidas no Alcorão) está em Halifax, cidade a quase 100 quilômetros de distância, e vem somente congelada.

Como não há restrições quanto a peixes, David encontrou um pescador disposto a vender arinca para a família. Fatmeh agora os prepara recheando com legumes e especiarias, um encontro do Oriente Médio com o mar.

A cidade de Lunenburg não está sozinha em seus incansáveis esforços para ajudar aqueles que foram forçados a deixar seus países. Entre novembro de 2015 e fevereiro de 2016, mais de 25 mil refugiados sírios foram reassentados em todo o Canadá.

Vivendo a mais de 8 mil quilômetros de distância de sua casa na Síria, Ahmad admite que há momentos em que sua família se sente sozinha. “Às vezes, quando você se senta em casa, suas lembranças te levam para o passado. Você pensa nos seus amigos, na sua terra, na sua casa”, afirmou. “Mas, então, você sai e vê as pessoas e conversa com elas. E você não está sozinho”.


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