Falta de recursos ameaça assistência humanitária na República Democrática do Congo

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Quando homens armados atacaram sua aldeia, Agnes, de 42 anos, só pensava em levar as seis filhas para um lugar seguro. Ela morava na cidade de Beni, na província de Kivu do Norte, na República Democrática do Congo.

No país, a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) presta assistência humanitária à população deslocada, mas o organismo recebeu apenas 31% dos US$ 369 milhões necessários para ajudar os congoleses vítimas de violência.

Agnes e as filhas na escola que é usada como moradia improvisada. Foto: ACNUR/Natalia Micevic

Agnes e as filhas na escola que é usada como moradia improvisada. Foto: ACNUR/Natalia Micevic

Quando homens armados atacaram sua aldeia, Agnes, de 42 anos, só pensava em levar os seis filhos para um lugar seguro. Ela morava na cidade de Beni, na província de Kivu do Norte, na República Democrática do Congo.

“Os assaltantes vieram à vila de Kamambia à noite”, lembra. “Uma de minhas filhas já tinha fugido com a irmã e eu fugi a pé com meus outros quatro filhos. Dormimos no mato, no chão frio. Foi tão assustador.”

Dezenas de milhares de pessoas do Beni e de regiões vizinhas já abandonaram suas casas em busca de segurança. O número não para de crescer. Muitos desses congoleses deixaram suas comunidades há cerca de um ano. É o caso de Agnes, que ainda não possui um lugar adequado para morar.

Sem poder voltar para sua vila devido à violência constante, a mãe e os filhos passam a noite alojadas em uma escola na cidade de Oicha, com dezenas de outras famílias deslocadas.

“Nós temos que recolher nossos pertences todas as manhãs e desocupar as instalações quando as aulas começam. Ficamos sem abrigo, mesmo que esteja chovendo”, explica Agnes. “Não temos acesso a lenha ou a água limpa. Eu não sei como criar meus filhos vivendo assim. É impossível viver desta maneira.”

Beni fica na fronteira nordeste da República Democrática do Congo com Uganda. Em toda a província de Kivu do Norte, estima-se que somente em 2018, mais de meio milhão de pessoas tenham fugido de suas residências. O contingente representa a maior concentração de pessoas internamente deslocadas no país. A nação africana também sofre com surtos de ebola.

A Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) está fazendo o que pode para ajudar as famílias mais vulneráveis, por meio de projetos de moradia, assistência financeira, proteção e apoio para sobreviventes de violações de direitos humanos. Agnes e seus filhos logo serão transferidos para uma residência familiar, dentro de um abrigo coletivo criado pelo organismo das Nações Unidas. Mas a família está entre alguns poucos privilegiados.

As iniciativas do ACNUR estão sendo severamente reduzidas por causa de cortes na verba da assistência humanitária. Até o momento, a instituição recebeu apenas 31% dos 369 milhões de dólares que foram solicitados para ajudar os deslocados na República Democrática do Congo. O montante também financiaria programas para os refugiados congoleses que estão vivendo em outros países africanos.

A crise na República Democrática do Congo é uma das seis emergências mais afetadas pela baixa de recursos, segundo um levantamento do ACNUR divulgado nesta semana.

Refugiados sofrem com falta de financiamento para emergências no mundo todo

“Trabalhar na República Democrática do Congo traz muitos desafios”, afirma Ann Encontre, representante regional da agência e coordenadora de Refugiados para a Situação Congolesa.

“Precisamos operar em zonas de guerra e em áreas controladas por grupos armados. Em muitas áreas, quase não existem estradas. Ainda assim, encontramos maneiras de alcançar as pessoas que precisam de nossa ajuda.”

Paluku teve de abandonar sua casa por causa da violência em Beni, cidade na província de Kivu do Norte. Foto: ACNUR/Natalia Micevic

Paluku teve de abandonar sua casa por causa da violência em Beni, cidade na província de Kivu do Norte. Foto: ACNUR/Natalia Micevic

“Mas o nosso principal desafio é a falta de recursos”, acrescentou a chefe humanitária.

Encontre ressalta que a equipe “poderia fazer muito mais para apoiar os deslocados pelo conflito, se tivéssemos mais recursos”.

Como resultado do rombo orçamentário, o ACNUR é forçado a diminuir seus programas de ajuda humanitária. Apenas uma em cada 11 famílias entre as mais vulneráveis ​​na República Democrática do Congo rebem abrigo da agência, de acordo com uma análise sobre os primeiros nove meses de 2018.

Paluku encontrou abrigo no terreno de Jeanne, que hospeda cerca de 80 pessoas deslocadas pela violência. Foto: ACNUR/Natalia Micevic

Paluku encontrou abrigo no terreno de Jeanne, que hospeda cerca de 80 pessoas deslocadas pela violência. Foto: ACNUR/Natalia Micevic

De acordo com o organismo, muitos grupos moram em abrigos improvisados ​​ou ficam com famílias de acolhimento em condições de superlotação. Um desses indivíduos é Paluku, de 38 anos, que fugiu de sua casa cinco meses atrás quando a violência chegou a Kiharo, nos arredores de Beni. Agora, ele está hospedado com outras 80 pessoas no terreno de Jeanne, uma moradora de outro bairro do município.

“Os assaltantes vieram com facões em uma noite em Kiharo e atacaram dois homens idosos”, conta Paluku. “O bairro inteiro fugiu para outras partes da cidade. Eu ainda tenho minha casa lá, mas é muito perigoso voltar.”

O congolês diz que “seria a pessoa mais feliz do mundo se a paz retornasse”.

“Podemos lidar com todos os outros problemas, desde que tenhamos paz. Eu só quero que a guerra termine.”


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