Falta de energia em Gaza compromete hospitais e tratamento de esgoto, diz relator da ONU

Interrupções no fornecimento impede realização de diálise renal, cirurgias, preservação de bolsas de sangue, funcionamento de UTIs e incubadoras. Milhares de pessoas circulam por bairro tomado por esgoto após transbordamento de estação desligada.

Bebê refugiado da Palestina é vacinado contra poliomelite. Foto: UNRWA

Bebê refugiado da Palestina é vacinado contra poliomelite. Foto: UNRWA

O relator especial da ONU para a situação dos direitos humanos nos territórios ocupados da Palestina, Richard Falk, pediu nesta terça-feira (26) medidas urgentes para resolver a falta de energia elétrica que deixou 1,7 milhão de moradores da Faixa de Gaza em situação deplorável. Mais de três semanas após a única usina de energia ter sido desligada por causa de uma escassez crítica de combustível, o fornecimento de energia tem sido limitado a seis horas por dia.

“A escassez de combustível e os cortes de energia minaram uma infraestrutura que já era precária, prejudicando gravemente a prestação de serviços básicos, como saúde, água e saneamento”, disse Falk. Menos da metade da necessidade total de energia em Gaza está sendo cumprida e as interrupções aos serviços de saúde especializados como a diálise renal, centros cirúrgicos, bancos de sangue, unidades de terapia intensiva e incubadoras, colocam em risco a vida de pacientes vulneráveis em Gaza.

Durante as duas últimas semanas, cerca de 3 mil moradores, incluindo crianças, que vivem dentro ou perto do bairro de Az Zeitoun vagaram pelas ruas cobertas de esgoto após a maior estação de tratamento na área ter transbordado por causa da falta de energia. O relator especial ressaltou que outras estações de tratamento de esgoto também podem ficar sem combustível para abastecer os geradores e resultar em mais esgoto transbordando pelas ruas. Médicos já alertam para o grave risco de transmissão doenças e até mesmo uma epidemia.

“Cerca de 40% da população em Gaza recebe água apenas uma vez a cada três dias”, observou Falk, acrescentando que “nesta situação de extrema necessidade, aqueles que podem se dar o luxo de fazê-lo, compram água de vendedores e distribuidores não autorizados, correndo o risco de ela ser contaminada”.

O relator especial alertou que “não devemos esquecer que a causa da falta de instalações médicas adequadas e do atendimento especializado em Gaza é uma consequência do bloqueio ilegal de Israel”. Falk explicou que de acordo com o direito internacional humanitário, Israel tem a responsabilidade de tomar todas as medidas necessárias para proteger a população civil de Gaza contra esta ameaça crescente ao seu bem-estar, acrescentando que “o fracasso em cumprir essas medidas seria o equivalente a uma punição coletiva agravada, que é incondicionalmente proibida pela 4ª Convenção de Genebra”.