Falta de água e de alimentos são desafios na prevenção do coronavírus na maior reserva indígena do Brasil

Vulnerabilidades crônicas, fornecimento de água intermitente e escassez de alimentos. Estes são alguns dos desafios listados pela enfermeira Indianara Machado Ramires Guarani Kaiowá, vinculada à Coordenação Técnica Polo Dourados, para o cuidado em saúde de mais de 18 mil indígenas que vivem em Dourados (MS), localidade que concentra a maior reserva indígena do Brasil.

Em entrevista à ONU Mulheres Brasil no início de abril, a enfermeira relatou a vulnerabilidade crônica em que vivem mulheres, homens e crianças indígenas e como problemas históricos aumentam os riscos da pandemia do novo coronavírus.

Indianara Machado Ramires Guarani Kaiowá é enfermeira em Dourados (MS)- Foto: Acervo Pessoal

Indianara Machado Ramires Guarani Kaiowá é enfermeira em Dourados (MS)-
Foto: Acervo Pessoal

Vulnerabilidades crônicas, fornecimento de água intermitente e escassez de alimentos. Estes são alguns dos desafios listados pela enfermeira Indianara Machado Ramires Guarani Kaiowá, vinculada à Coordenação Técnica Polo Dourados, para o cuidado em saúde de mais de 18 mil indígenas que vivem em Dourados (MS), localidade que concentra a maior reserva indígena do Brasil.

Em entrevista à ONU Mulheres Brasil no início de abril, a enfermeira relatou a vulnerabilidade crônica em que vivem mulheres, homens e crianças indígenas e como problemas históricos aumentam os riscos da pandemia do novo coronavírus.

O estado do Mato Grosso do Sul possui cerca de 520 leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI), sendo quase 380 do Sistema Único de Saúde (SUS). Em Dourados, estão disponíveis 35 leitos de UTI para uma população total de 210 mil pessoas.

“Em tempos normais, nós já sofremos com algumas carências de políticas públicas, como saúde e educação de qualidade, saneamento básico, coleta de lixo. A própria falta de demarcação dos territórios indígenas, além da falta de políticas para geração de emprego e renda…”, relata a enfermeira. Indianara explica ainda que as comunidades são muito próximas dos centros urbanos em Dourados, gerando um trânsito constante de pessoas entre as aldeias e a cidade. Ela conta que é comum as mulheres das aldeias levarem mandioca na cidade para trocar por arroz, por exemplo, gerando preocupação por conta das recomendações de distanciamento social.

Indianara está trabalhando com a disseminação de informação sobre a COVID-19 nas casas e comunidades indígenas e relata que procura junto às autoridades locais soluções para o problema de abastecimento nas casas. “Às vezes, a água chega uma vez por semana, três ou quatro vezes por semana. Isso tem gerado muita preocupação e a gente tem pautado com gestores sobre essa dificuldade. A gente precisa que haja esforço coletivo para que as comunidades indígenas não sejam tão penalizadas na pandemia”, explica.

Indígenas de todo o Brasil participam, em Brasília, do Acampamento Terra Livre. (2018) - Foto Marcelo Camargo/Agência Brasil.

Indígenas de todo o Brasil participam, em Brasília, do Acampamento Terra Livre. (2018) – Foto Marcelo Camargo/Agência Brasil.

Saberes tradicionais – Cuidados tradicionais e saberes espirituais têm sido estratégias para harmonizar as comunidades indígenas frente ao temor do novo coronavírus. “Nossos anciões e anciãs têm trabalhado basicamente no fortalecimento espiritual da juventude. Têm feito rezas e cantorias para que a juventude indígena e a comunidade se fortaleça frente à pandemia, que tem gerado muita preocupação nas famílias”, explica a profissional de saúde.