Exposição no Museu do Amanhã revela o talento de artistas refugiados

Exposição realizada este mês no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, trouxe 11 obras de quatro artistas da Síria e da República Democrática do Congo. Realizada pela Cáritas Arquidiocesana do Rio de Janeiro e pela Humanitarian Research Art Platform (HARP), com curadoria do artista Felippe Moraes, a mostra teve como objetivo valorizar o talento de artistas formados em academias de belas artes e de outros que descobriram sua força criativa recentemente, revelando a potência narrativa dos refugiados.

A exposição "Horizontes Possíveis – Arte como Refúgio" foi realizada no Museu do Amanhã, Rio de Janeiro. Foto: Divulgação / Hans Georg.

A exposição “Horizontes Possíveis – Arte como Refúgio” foi realizada no Museu do Amanhã, Rio de Janeiro. Foto: Divulgação / Hans Georg.

Refugiados, sim. Mas antes e acima de tudo, artistas. Essa foi uma das mensagens que a exposição “Horizontes Possíveis – Arte como Refúgio”, com 11 obras de quatro artistas da Síria e da República Democrática do Congo, transmitiu ao público do Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro.

Realizada pela Cáritas Arquidiocesana do Rio de Janeiro e pela Humanitarian Research Art Platform (HARP), com curadoria do artista Felippe Moraes, a mostra valorizou o talento de artistas formados em academias de belas artes e de outros que descobriram sua força criativa recentemente, revelando a potência narrativa dos refugiados.

“Esta é uma exposição de artistas que porventura se tornaram refugiados”, disse Moraes, que disse ver na arte uma forma de resistência. “Muitos desses artistas fugiram de perseguições políticas, guerras, e não podiam falar sobre a condição dos países deles. Aqui eles encontraram essa possibilidade”, contou.

Ainda que fortemente inspirada na experiência do refúgio, a exposição protagonizada por esses “novos brasileiros”, recém-chegados à capital fluminense, de fato não se contentou em apenas olhar para o passado, mas discutiu o presente e vislumbrou o futuro.

“O lugar que se deixou para trás nunca mais será o mesmo que ficou na memória, enquanto o lugar para onde vamos nunca será aquele que imaginamos”, explicou Moraes. “A grande premissa é como nós nos colocamos entre a expectativa, a memória e a realidade. A exposição funciona nessa lacuna, nesse espaço que ainda tentamos descrever para nele viver.”

Nas obras do congolês Serge Kiala, criador de três telas e duas instalações, a África é onipresente, mas não como nostalgia. Tanto na colagem que exibe o continente envolto em uma corrente quanto na imagem de uma pomba afastada do mapa africano, Kiala chamou atenção para o que está acontecendo agora. “É muito triste o que se passa na África hoje. O continente permanece aprisionado. Estou longe, mas me sinto como um embaixador da África aqui no Brasil”, ressaltou o congolês.

Seu compatriota, o ceramista Keto Kabongo, traz a dor da guerra na obra “Os Conflitos”, que exibe um osso de argila. “Muitas pessoas não sabem que o conflito mais mortífero desde a Segunda Guerra Mundial está ocorrendo agora no Congo”, alertou Kabongo, que recentemente conseguiu emprego em um atelier de cerâmica.

O sírio Anas Rjab, por sua vez, buscou na culinária a inspiração para retratar seu país. “Fiz um mapa da Síria a partir de um pão sírio que eu mesmo assei, porque o trigo é o alimento básico do país e me recorda minha infância, passada em intermináveis campos dourados. Espero também retratar a grave escassez de comida que assola a Síria atualmente”, explicou Rjab, que se formou em engenharia, trabalha como chef de cozinha no Rio e se descobriu artista recentemente.

“Entrei nesse projeto inicialmente para chamar atenção sobre a causa dos refugiados, não apenas na Síria como em vários lugares onde as pessoas estão sendo forçadas a deixar suas casas”, revelou. “No final, tive minha voz ouvida, expus em um grande museu brasileiro e descobri meu talento cru e oculto.”

Artistas refugiados mais do que refugiados artistas, portanto. “Espero que exposições como esta abram portas para eles, que eles continuem produzindo e que mais pessoas possam escutar sobre suas experiências”, completou Moraes, que criou o grupo de estudos HARP (Plataforma de Pesquisa em Arte Humanitária, na tradução da sigla em inglês) justamente para abrir um espaço de discussão e expressão, de forma a fomentar a prática artística dos refugiados.

A mostra “Horizontes Possíveis – Arte como Refúgio”, que reuniu ainda fotografias da guerra síria organizadas por Ali Abdulla, ocorreu em setembro no Museu do Amanhã.


Comente

comentários