Executiva lembra importância da igualdade de gênero para garantir perenidade das empresas

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Em entrevista à Rede Brasil do Pacto Global, a presidente latino-americana da Schneider Electric, Tania Cosentino, falou sobre a importância de as empresas impulsionarem a igualdade de gênero, tanto em termos de uma maior presença de mulheres nos postos de liderança como em termos de igualdade salarial entre homens e mulheres que exercem as mesmas funções. Leia a entrevista completa.

Para Tania Consetino, a diversidade é uma das maneiras de criar um ambiente inovador que permita a perenidade da empresa a longo prazo Imagem: Foto: Fellipe Abreu/Rede Brasil do Pacto Global

Para Tania Consetino, a diversidade é uma das maneiras de criar um ambiente inovador que permita a perenidade da empresa a longo prazo. Imagem: Foto: Fellipe Abreu/Rede Brasil do Pacto Global

A Schneider Electric foi uma das empresas que apresentou seu caso de igualdade de gênero no Fórum WEPs, realizado no dia 20 de abril, em São Paulo. A presidente para América Latina da empresa, Tania Cosentino, compartilhou conquistas recentes da companhia, signatária dos Princípios de Empoderamento das Mulheres (WEPs) há quase três anos e da Rede Brasil do Pacto Global.

A participação no evento ocorreu ao lado de lideranças de empresas como Coca-Cola, Grupo Boticário, Grupo Ceni, Banco do Brasil, Maurício de Souza Produções e Secretária Especial de Políticas para as Mulheres.

Durante o evento, Tania concedeu entrevista sobre oportunidades e desafios para a igualdade de gênero no setor privado. Segundo ela a Schneider Electric tem como meta atingir 30% de mulheres em sua liderança até 2020, superando o atual índice de 20%. A empresa também pretende zerar a diferença salarial entre homens e mulheres.

“A parceria com a ONU e o Pacto Global tem nos ajudado a avançar, mas você só faz isso medindo e colocando metas. O tema é muito estratégico e precisa ser tratado como tal. De acordo com alguns estudos, 40% das 500 empresas que fazem parte do índice S&P 500 não vão estar mais no mercado em dez anos. A diversidade é uma das maneiras de criar um ambiente inovador que permita a perenidade da empresa a longo prazo”, afirmou.

Leia abaixo a entrevista.

Rede Brasil: Como você enxerga o papel da igualdade de gênero nas empresas?

Tania: Independente do país e de sua situação econômica, é um erro estratégico não investir em diversidade. A diversidade no geral é um fator competitivo fundamental para as empresas expandiram seu tempo de vida. O ciclo de vida das empresas é cada vez mais curto por conta das rupturas tecnológicas, mudanças demográficas e até por conta do câmbio. ­­No ambiente empresarial, você só adere a uma causa se gera valor para o negócio, e muitos estudos já mostraram quantos impactos tangíveis a diversidade traz para o negócio.

Rede Brasil: Em que velocidade essa discussão tem se expandido entre as empresas brasileiras?

Tania: A discussão é crescente, mas ainda está restrita a um grupo muito pequeno de empresas. A conversa em geral é genérica, sem profundidade. E quem acaba se comprometendo com mudanças estruturais, por exemplo, assinando os WEPs, são as grandes empresas, boa parte multinacionais. Mas, como disse a (atriz norte-americana) Emma Watson quando abriu o He for She: “Se não eu, quem? Se não agora, quando?”. Vamos em frente com o que temos, contando com o poder da colaboração no ambiente empresarial, do compartilhamento das boas práticas que já estão acontecendo.

Rede Brasil: Qual o papel da liderança das empresas nos esforços por diversidade?

Tania: Se a alta liderança não estiver engajada, ela travará iniciativas de outras partes da organização em trabalhar a questão da diversidade. Por isso, o primeiro princípio dos WEPs é engajar o CEO (presidente-executivo). Qualquer tipo de transformação dentro do negócio precisa estar na agenda do CEO, porque senão você não consegue cascatear objetivos e garantir que todos caminhem na mesma direção. Ter grupos de afinidade ou recursos humanos fazendo sozinhos esse trabalho gera pequenas ações. É a tal diversidade a conta gotas que não avança na velocidade que a gente precisa como sociedade.

Rede Brasil: Você tem recomendações para os profissionais que precisam engajar seus CEOs nessa discussão, a fim de promover mudanças mais estruturais?

Tania: Você pode apresentar ao líder todos os benefícios que a empresa pode ter com a diversidade ou o impacto negativo de não tratar do assunto. Por exemplo, quanto custa à imagem de uma empresa uma exposição pública associada a um assédio moral ou sexual? Para reforçar o discurso, eu recomendaria convidar essa liderança para debater com outros líderes empresariais. Levar a ONU para dentro da empresa é muito importante, mas talvez a liderança não esteja nem preparada para essa conversa ainda. Mas escutar outros líderes empresariais do mesmo segmento, de segmentos próximos, pode promover a reflexão.

Rede Brasil: Você é responsável por toda a operação da Schneider Electric na América Latina. Enxerga desafios compartilhados entre os países ou questões específicas do Brasil para o tema de igualdade de gênero?

Tania: De forma geral, a falta da consciência das pessoas é um problema crítico que impede as empresas de avançar. Tenho trabalhado muito com meus presidentes na região o treinamento do viés inconsciente (a Schneider lançou um programa para treinar 100% dos colaboradores neste assunto). É muito comum ouvir o homem dizer “eu não tenho preconceito, e as mulheres não crescem porque elas não querem”. Todos precisam entender que pequenas palavras ou ações podem matar a ambição, vontade ou autoestima de um profissional. Quem se dá conta de seus vieses num primeiro momento tem vergonha, depois passa a monitorar o que faz e fala. O brasileiro, em especial, é politicamente incorreto. Hoje essas posturas já não são bem-vindas porque sabemos que podem inibir o desenvolvimento de uma mulher dentro da organização, que um gay se declare gay, a ambição de um negro. O caminho é eliminar as piadas, ter o seu canal de denúncias e criar um processo sólido de compliance.

Rede Brasil: Você se declara uma embaixadora da diversidade em nome da Schneider Electric. É a primeira mulher a presidir uma operação da empresa no mundo, sendo uma exceção também no mercado de energia. Pela sua experiência pessoal, como é para as mulheres na liderança advogarem em prol da igualdade de gênero?

Tania: A estratégia é uma argumentação lógica. Não é “mimimi” de mulher, eu não estou defendendo nada em causa própria porque eu já cheguei lá. Você precisa pautar sua fala em fatores numéricos que vão impactar o seu negócio. Ter homens e mulheres na mesma proporção e ganhando o mesmo salário significa incluir na economia mundial um PIB equivalente ao dos Estados Unidos e da China, de acordo com estudos recentes (The Power of Parity, McKinsey, 2015). Num mundo que não cresce na velocidade que a gente precisa, que perdeu a dinâmica do início dos anos 2000, isso é extremamente relevante. Uma companhia que tem um comitê diretivo mais diversificado apresenta performance financeira superior à de uma empresa monocromática. Vejo até mais os homens do que as mulheres, ao não saberem se posicionar sobre o tema, irem pelo apelo emocional: “porque eu tenho uma filha, uma esposa, e não quero que elas passem por nenhum tipo de discriminação”. Se a gente eliminar o discurso emocional vamos evoluir mais rápido. Toda empresa tem que ser rentável e se preocupar com seu impacto ambiental. Eu falo dos números para o negócio, falo de direitos humanos, falo de perenidade da empresa. Se as pessoas não são capazes de entender essa mensagem, você tem que trocar o interlocutor.


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