EXCLUSIVO: ‘Gerar empregos é nossa prioridade agora no Haiti’, afirma chefe do PNUD no país

Com cerca de 44% da população vivendo com menos de 1,25 dólar ao dia, um dos maiores enfoques das agências da ONU e da Missão no Haiti é gerar oportunidades de trabalho.

A entrada do Batalhão Brasileiro na capital haitiana, Porto Príncipe, se converte em uma colorida galeria de arte a céu aberto todas as manhãs de sábado. Neste espaço, pintores, artesãos e outros vendedores encontram na Feira da Paz uma oportunidade de sustento para suas famílias e estimulam a economia do país mais pobre do continente americano, o Haiti.

“Esta é uma grande oportunidade para o meu país também. Agora há muitos haitianos que progridem, que viajam e que compram casas”, afirma um dos membro do comitê da Feira da Paz, Rickson Beljacques.

O maior desastre natural das Américas causou danos calculados em 14 bilhões de dólares. Trinta e cinco segundos bastaram para destruir grande parte da infraestrutura e paralisar a economia da nação caribenha. Os sistemas financeiro e de transporte foram diretamente afetados e o desemprego, calculado em 45% na área metropolitana de Porto Príncipe antes do terremoto, disparou após a tragédia.

Geração de 400 mil empregos temporários

Músicos tocam um instrumento típico haitiano em um dos pontos turísticos mais visitados da ilha, la Citadelle. Foto: UNIC Rio/Mariana Nissen

Músicos tocam um instrumento típico haitiano em um dos pontos turísticos mais visitados da ilha, la Citadelle. Foto: UNIC Rio/Mariana Nissen

“O Haiti é um país que tem, há muitas décadas, uma incidência de desemprego enorme, com 80% da população, segundo algumas estimativas, que não vive de salário. Na verdade o Haiti, para quem quer pensar em economia, em geração de empregos, é um verdadeiro desafio porque é um país onde a maioria das pessoas ‘se vira’ em formas que não envolvem o recebimento de um salário”, conta o antropólogo e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Federico Neiburg.

Estimular novas oportunidades é uma das prioridades vitais para a sustentabilidade do novo Haiti. Apenas o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) criou mais de 400 mil empregos temporários nos últimos cinco anos, gerando renda e ensinando um ofício.

A diretora sênior do PNUD explica que esses empregos temporários “podem fazer a diferença para aqueles que não têm nada possam se recuperar até o momento do fim da emergência”. Porém, concorda que para uma solução mais sustentável é preciso gerar outras fontes de renda.

“Para a redução da pobreza, emprego. Emprego, emprego, emprego é algo que queremos permear em todos os nossos projetos e programas. Não importa o tema, em que área temática trabalhemos, nossa prioridade é emprego, emprego, emprego”, afirma a representante residente do PNUD, Sophie de Caen.

“Hoje temos entre 40 e 50% da população do Haiti com menos de 18 anos. Esse fato é de enorme importância porque significa que haverá uma enorme parcela da população jovem que não terá trabalho. Emprego é um assunto prioritário e é importante também criar empregos em todos os departamentos do país, não só na capital, Porto Príncipe.”

Emprego como forma de cicatrização

Merlinne Jentylle é uma das beneficiadas do ateliê. Vítima de violência de gênero, Linda diz que o trabalho a ajudou a se sentir mais confiante e feliz por poder ajudar a sua mãe, que é deficiente, através do seu trabalho e arte.

Merlinne Jentylle é uma das beneficiadas do ateliê. Vítima de violência de gênero, Linda diz que o trabalho a ajudou a se sentir mais confiante e feliz por poder ajudar a sua mãe, que é deficiente, através do seu trabalho e arte.

É possível ver resultados positivos no processo de integração, autoestima e cicatrização de traumas, principalmente, no caso de mulheres vítimas da violência de gênero. Um ateliê, que funciona no interior de um hospital, serve como escola de costura, artesanato e carpintaria, onde mulheres aprendem um ofício e obtém, com as vendas de seus produtos, recursos para reconstruir suas vidas.

A diretora do Centro Gheskio, Marie Marcelle Deschamps, criou um programa de acolhimento de mulheres vítimas de violência de gênero em 2005, proporcionando ajuda médica, psicossocial e jurídica. “Com o terremoto e grande parte da população vivendo em campos de deslocados, observamos um grande número de mulheres que chegavam aqui e relatavam casos de estupro”, diz. “De fato, 63% delas relataram serem vítimas de violência sexual nas barracas”.

Com o apoio do PNUD, o projeto do ateliê ganhou vida em 2012. O suporte financeiro permitiu reerguer o edifício e comprar o material necessário para a organização de oficinas, identificação das mulheres e pagamento de seus salários.

“Quando começaram a trabalhar, o resultado não era qualificado porque elas estavam muito tristes e choravam o tempo inteiro”, conta Deschamps. “No entanto, em dezembro de 2013 fizemos nossa primeira exposição com os móveis, almofadas e bolsas criados por elas. As mulheres estavam orgulhosas e esse foi o momento em que vimos sua autoestima reforçada e onde elas já não choravam mais. Estavam felizes de saber que poderiam ter acesso a outro ambiente.”

Embaixadores da Boa Vontade

Drogba, Ronaldo e Zidane, embaixadores da Boa Vontade do PNUD, ajudaram a arrecadar fundos para um projeto de integração e geração de empregos no Haiti através do Jogo contra a Pobreza. Foto: PNUD

Drogba, Ronaldo e Zidane, embaixadores da Boa Vontade do PNUD, ajudaram a arrecadar fundos para um projeto de integração e geração de empregos no Haiti através do Jogo contra a Pobreza. Foto: PNUD

Neste processo de reconstrução, embaixadores da boa vontade do PNUD destinaram parte da arredação do Jogo contra a Pobreza para a construção de um campo de futebol comunitário. Uma iniciativa que gera empregos e a inclusão social.

A transmissão de conhecimento e a capacitação passaram a fazer parte do cotidiano do Haiti para fortalecer o treinamento vocacional e integrar empreendedores, setor privado e comunidades.

“A presença do centro cívico neste bairro tem muita importância para nós, porque a população realmente passa necessidade. Quando perceberam a evolução, se sentiram orgulhosos do seu trabalho. Muitos de nós apreciamos o trabalho, porque é o nosso sustento. É a nossa motivação para trabalhar e ter energia”, diz Emmanuel Didot, trabalhador do projeto 16/6 do PNUD que promoveu a reabilitação de 16 bairros para acabar com seis campos de deslocados.

A gerente do projeto 16×6, Barbara Calixte, explica que o projeto 16×6 foi executado por quatro agências internacionais – o PNUD, a Organização Internacional para as Migrações (OIM), o Escritório das Nações Unidas de Serviços para Projetos (UNOPS) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT). “Apenas neste projeto, mais de quatro mil trabalhos temporários foram criados, mais de 1.500 famílias tiveram suas casas reparadas, construímos mais de 400 casas e formaram mais de uma centena de operários em construções antissísmicas e alvenaria”.

Outro projeto, do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), permite que mulheres recém-formadas e jovens enfermeiras se capacitem para trabalhar como parteiras. Em um país onde dois terços dos partos são feitos em casa, sem nenhuma assistência especializada, essa iniciativa não só gera empregos, mas também ajuda a diminuir o índice de mortalidade materna e infantil no país.

Investimento em produtos típicos e no turismo

La Citadelle, um antigo forte construído por Henry Christophe, foi considerada patrimônio histórico da humanidade pela UNESCO em 1982. Foto: UNIC Rio/Mariana Nissen

La Citadelle, um antigo forte construído por Henry Christophe, foi considerada patrimônio histórico da humanidade pela UNESCO em 1982. Foto: UNIC Rio/Mariana Nissen

Para incentivar o investimento no país, o PNUD lançou junto ao governo o catálogo de produtos típicos regionais. Entre os itens com grande potencial para movimentar a economia haitiana está o turismo.

Além das praias do mar do Caribe, o país também abriga a Citadelle, designado pela Organização da ONU para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) em 1982 como Patrimônio da Humanidade, e atualmente, um dos destinos turísticos mais populares no Haiti.

Além da geração de renda, o trabalho é usado para incentivar a inclusão e diminuir os indicadores de violência em regiões mais vulneráveis como Cité Soleil, que, em 2004, foi considerado o distrito mais perigoso do mundo. Através da unidade de redução de violência comunitária, a Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (MINUSTAH) emprega jovens em risco que contribuem para o desenvolvimento de suas próprias comunidades, construindo escolas públicas, centros cívicos e fortalecendo capacidades.

Diante de tantas perdas físicas e emocionais e da escassez de empregos, parte da população haitiana optou por buscar oportunidades além das fronteiras. As remessas enviadas pelos 4 milhões de haitianos que vivem fora do país representam hoje uma das maiores fontes de renda do Haiti, equivalente a um quinto do valor do PIB do país, segundo o Banco Mundial.

Migração para o Brasil

Crianças seguram seu formulário de pedido de visto. Em breve, viajarão para o Brasil para se encontrar com o seu pai, que já está no país. Foto: UNIC Rio/Mariana Nissen

Crianças seguram seu formulário de pedido de visto. Em breve, viajarão para o Brasil para se encontrar com o seu pai, que já está no país. Foto: UNIC Rio/Mariana Nissen

O Brasil se tornou um dos principais destinos dos haitianos. Um acordo entre os dois países ampliou a concessão de vistos humanitários para 1.200 ao mês. De acordo com Organização Internacional para Migrações, cerca de 50 mil haitianos vivem no país. Muitos deles vieram em busca de estudos e profissionalização, para participar da construção de um novo Haiti.

“Houve uma resolução normativa no Brasil que concedeu um visto de permanência de caráter humanitário, que faz com que os haitianos, que preencham os requisitos mínimos que pedimos, possam ter o visto de permanência no Brasil dado pela embaixada e possam entrar no Brasil pela via legal”, descreve o embaixador do Brasil no Haiti, José Luiz Machado e Costa.

“O que ocorre é que com a notícia dessa resolução normativa, passamos a receber cerca de 6 mil pedidos por mês, e mesmo com um reforço nossa capacidade, ficamos ainda aquém da demanda. Mas continuamos tentando fazer o possível para facilitar a vida desses haitianos.”

O diplomata explica que a embaixada entrega cerca de 1.200 vistos por mês, que dão aos haitianos que chegam ao Brasil o direito ao trabalho, ao estudo para as crianças, a assistência médica e a solicitar o auxílio do bolsa família.

Renette Alexandre e seus dois filhos são beneficiados do programa de concessão de vistos humanitários do Brasil. Ela virá ao país para reencontrar seu marido, que partiu há alguns anos para o Rio de Janeiro em busca de melhores condições de trabalho.

“Quero parabenizar o consulado do Brasil pelos esforços realizados, porque o consulado abriu as portas do Brasil para os haitianos. Esta manhã, recebi dois vistos para os meus filhos, então, estou muito contente de receber esses dois vistos.Eu recebi o visto hoje, junto com os meus filhos, e isso me deixa muito feliz”, diz Renette.

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