EXCLUSIVO: Cinco anos depois do terremoto que destruiu o Haiti, ONU continua apoiando reconstrução do país

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No aniversário do terremoto, dia 12 de janeiro, haitianos e funcionários da missão da ONU no país falam sobre os avanços e desafios nacionais. Apesar do progresso evidente, em Porto Príncipe os vestígios da catástrofe continuam presentes. Atravessando um impasse político, país poderá vivenciar em 2015 a redução da força de paz da ONU.


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De Porto Príncipe. A reconstrução de um país após um desastre natural é um processo incansável e os resultados nem sempre são tão visíveis. Cinco anos depois do terremoto que abalou o Haiti, civis, militares e a ajuda internacional se esforçam para reerguer o país mais pobre do continente americano.

Em apenas 35 segundos, uma nação inteira veio abaixo. Mais de 300 mil prédios ruíram, incluindo quase todas as instituições de governo e a sede das Nações Unidas. O terremoto de 7.2 de magnitude, que deixou mais de 200 mil mortos, foi o pior já registrado nas Américas.

Entre as vítimas estavam 102 funcionários civis e militares da ONU, inclusive o vice-representante especial do secretário-geral da ONU, o brasileiro Luiz Carlos da Costa.

O policial Ricardo Couto, que participa novamente da Missão de Paz, estava no Haiti em 12 de janeiro de 2010. Além de sobrevivente, ele foi um dos milhares de brasileiros que ajudaram no resgate.

O policial Ricardo Couto, em sua primeira missão no Haiti, ajudou a resgatar os funcionários da ONU presos pelos escombros da sede da Organização em Porto Príncipe, Haiti. Foto: ONU

O policial Ricardo Couto, em sua primeira missão no Haiti, ajudou a resgatar os funcionários da ONU presos pelos escombros da sede da Organização em Porto Príncipe, Haiti. Foto: ONU

“Depois que recebemos o alerta, imediatamente começamos o resgate. Os próprios haitianos viram que teriam que se ajudar naquele momento. Nós não tínhamos a força humana para ajudar naquele tipo de resgate. Vimos a força de vontade deles. Esse evento foi de extrema importância para unir o povo haitiano”, contou em entrevista exclusiva ao Centro de Informação da ONU para o Brasil (UNIC Rio) o pernambucano que soma duas participações na Missão de Paz da ONU.

Diáspora haitiana

Ludger Jean Louis veio para o Brasil logo depois do terremoto. Seu irmão e primo também vieram estudar no Rio depois do desastre. Foto: UNIC Rio/Mariana Nissen

Com cerca de 10 milhões de habitantes, o Haiti é uma terra marcada pela diáspora. Estima-se que mais de 2 milhões de haitianos tenham deixado o país por causa das turbulências políticas, melhores ofertas de trabalho ou condições de vida. Após o terremoto, não foi diferente. Milhares de haitianos cruzaram fronteiras para recomeçar suas vidas em outros países, inclusive o Brasil. Pelo menos 30 mil deles chegaram ao território nacional desde 2010 levando memórias de um dia que mudou a história da nação caribenha.

Ludger Jean Louis pegou o primeiro voo para o Brasil logo depois do terremoto. Estudante da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o haitiano é mediador de uma comunidade de conterrâneos que escolheram o Rio como lar para recomeçar.

“Aqui na cidade há muitos haitianos que, assim como eu, chegaram por causa do terremoto. Estamos sempre juntos porque falamos em créole (língua nacional) e o lema da nossa bandeira é a união faz a força”, disse ao UNIC Rio o haitiano que vive com o irmão e o primo.

Dez anos de Missão de Paz no Haiti

Criada em 2004 para trazer estabilidade ao Haiti depois que o presidente Jean-Bertrand Aristide foi deposto, o componente militar da Missão da ONU de Estabilização no Haiti (MINUSTAH) conta com a liderança do Brasil que colabora com 1.200 soldados, o maior contingente da Missão. Desde a tragédia de 12 de janeiro de 2010, o mandato do braço militar da Missão passou por muitas transformações.

“Podemos caracterizar a presença da MINUSTAH durante estes 10 anos em três etapas gerais: [a primeira é] a implantação da missão, com uma postura mais enfática para restabelecer a segurança. Com a conquista desse cenário, já se pensava em uma diminuição de tropa, mas nos deparamos com um terremoto, e entramos na segunda fase, de apoio humanitário e reconstrução do país. Entre o período de 2013 e 2016, entrará em vigor um novo plano de consolidação para o país. Hoje a postura das tropas da ONU é muito mais de apoio às instituições nacionais para manter a segurança”, disse o comandante da força de paz, o brasileiro José Luiz Jaborandy Júnior.

Este ano será decisivo para o futuro da Missão no país. O Conselho de Segurança da ONU já aprovou a redução das tropas e o número de civis que trabalham na MINUSTAH também está sendo reduzido progressivamente. Resta saber quando será o melhor momento para aplicar esse acordo.

O governo haitiano, UNOPS e UNDP lançaram o projeto 16/6 com o objetivo de possibilitar àqueles que viviam em seis campos de deslocados poderem voltar para 16 bairros. A iniciativa inovadora aposta pela densificação das moradias no Haiti, ensinando a população local que eles também podem ser proprietários apesar da residência não ocupar diretamente o solo. Para apresentar esse novo conceito, líderes comunitários foram utilizados e a construção das unidades residenciais utilizou pessoas dos próprios bairros, criando oportunidades de trabalho. Foto: UNIC Rio/Mariana Nissen

O governo haitiano, UNOPS e PNUD lançaram o projeto 16/6 para que aqueles que viviam em seis campos de deslocados poderem voltar para 16 bairros. A iniciativa inovadora aposta na densificação das moradias no Haiti, ensinando aos haitianos que também podem ser proprietários, apesar da residência não ocupar diretamente o solo. Para apresentar esse novo conceito, líderes comunitários foram utilizados e a construção das unidades residenciais empregou pessoas dos próprios bairros, criando oportunidades de trabalho. Foto: UNIC Rio/Mariana Nissen

O país atravessa um período de impasse político. A partir de hoje, 12 de janeiro de 2015, a Câmara de Deputados encerra suas funções. Vinte dos 30 senadores eleitos ficarão sem mandato. Diante desse cenário, a MINUSTAH e agências da ONU terão um papel fundamental na organização das eleições seguras.

“A resolução da ONU já definiu que haverá uma redução das tropas de 5 mil para 2.370 homens e mulheres. Estamos analisando a conjuntura nacional para que, em março de 2015, o Conselho de Segurança possa realizar uma revisão da última resolução e assim decidir se começará a implementar ou não essa diminuição de tropas”, declarou o comandante.

Reconstruindo o Haiti

Já quase não há campos de deslocados em Porto Príncipe. Mais de 1,4 milhão de pessoas deixaram os acampamentos improvisados ao longo desses cinco anos. No entanto, ainda existem cerca de 80 mil deslocados em todo o país que hoje conta com cerca de 80% da população vivendo na pobreza. O desemprego atinge cerca de 30% dos haitianos, apesar do envolvimento da população em muitos projetos que geram centenas de milhares postos de trabalho relacionados à reconstrução do país.

“Esse é um bom projeto. Antes as pessoas viviam a céu aberto. E isso é uma transformação para o desenvolvimento sustentável”, disse a haitiana Elise Saint Paul, contratada para o projeto 16/6, uma iniciativa do governo haitiano, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e do Escritório das Nações Unidas de Serviços para Projetos (UNOPS). A iniciativa revitaliza áreas afetadas pelo terremoto e gerou mais de 4 mil postos de trabalho.

Novas escolas, novos hospitais, novas estradas foram construídas, mas é preciso muito mais para revigorar o Haiti.

No país desde 2004, primeiro ano da Missão de Paz, o chefe da Missão da ONU para Assuntos Civis, Heiner Rosendahl, é um dos sobreviventes do terremoto que optaram por não deixar o país e trabalhar para sua reconstrução.

“Embora todos os ministros tenham sobrevivido, toda a infraestrutura do país desapareceu”, lembrou Rosendahl. “Uma reconstrução é muito mais lenta do que as pessoas esperam. Não podemos reconstruir os ministérios como eles eram antes. Isso requer planejamento, que demora anos e anos para ser conseguido, em qualquer país em condições normais.”

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