‘Eu nunca imaginei que iria viver no Brasil’

AUMENTAR LETRA DIMINUIR LETRA

A farmacêutica Salsabil Matouk morava em Douma, na Síria, a dez quilômetros da capital Damasco. Quando a guerra eclodiu no país, em 2011, a cidade virou alvo de bombardeios e operações militares.

Em 2014, Salsabil se viu forçada a deixar a Síria e veio com o marido Salim e sua filha Jury para o Brasil. Em São Paulo, ela busca reconstruir sua vida vendendo comida árabe, usando as receitas que aprendeu com a mãe. O relato é da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).

A farmacêutica Salsabil Matouk morava em Douma, a dez quilômetros da capital da Síria, Damasco. Foto: ACNUR/Érico Hiller

A farmacêutica Salsabil Matouk morava em Douma, a dez quilômetros da capital da Síria, Damasco. Foto: ACNUR/Érico Hiller

Na mesa da casa em São Paulo, homus, coalhada, berinjela recheada com castanhas, geleia de figo e azeitonas temperadas trazidas por conhecidos foram cuidadosamente dispostas. Seus pais e sogros enviam através de conhecidos pequenas lembranças do sabor de casa. O café com extra cardamomo toma conta da sala enquanto conversamos. A conversa flui em torno da mesa tão naturalmente quanto comemos o que nos foi servido. Fico imaginando que sejam momentos como esse a que ela se refere quando diz que sente saudade da vizinhança síria.

Salsabil Matouk, 32, nasceu em Jableh, uma pequena cidade na costa da Síria, mas ainda pequena foi morar na Arábia Saudita com os pais, seus cinco irmãos e duas irmãs. Hoje, ela estampa um enorme painel na Avenida Minhocão, em São Paulo, e tem a Cozinha de Salsabil, um bufê de pratos árabes tradicionais, com o qual complementa a renda familiar.

Mas sua formação não é em Gastronomia. Esse é mais um caminho na vida que não poderia imaginar seguir. Ela fez faculdade de Farmácia, na Jordânia, e lá conheceu o marido Salim, com quem é casada há oito anos e tem três filhos: Jury, 7, Walid, 4, e Yasmin, de 1 ano e 6 meses.

Assim que se formaram e se casaram, os dois foram morar na casa que a família de Salim tinha em Douma, a dez quilômetros da capital Damasco, na Síria. Lá, Salsabil abriu sua própria farmácia e Salim trabalhava como gerente em uma representante farmacêutica. A vida era boa.

“Tudo tinha muita vida lá. As pessoas circulavam pela cidade a qualquer hora e os restaurantes e lojas não fechavam. Era seguro e cheio de vida.”

Este slideshow necessita de JavaScript.

Mas em 2011, tudo mudou. A guerra na Síria foi devastadora. Metade da população foi forçada a deixar sua casa. Depois de sete anos de guerra, mais de 5 milhões de pessoas são refugiadas sírias registradas e o país tem 6 milhões de deslocados internos. Estima-se que 500 mil pessoas tenham morrido. Casas, escolas e hospitais foram destruídos diante dos olhos do mundo. Cidades inteiras desapareceram.

“Quando tinha bombardeio, todos os moradores desciam para o primeiro andar, pois era o lugar mais seguro para ficar. Quando amanhecia, saíamos para a rua e víamos prédios e casas destruídos e corpos nas ruas. Então, limpávamos tudo. Eu não lembro muito dessa época, mas meu marido ainda sofre muito. Ele perdeu familiares.”

Atualmente, a maioria dos refugiados sírios vive em países vizinhos, como Jordânia, Turquia e Líbano, em situação de extrema pobreza: nove em dez refugiados sírios vivem em comunidades de acolhimento nos países vizinhos.

“Quando a guerra começou, nós ainda ficamos um tempo. Vivemos um ano com a guerra, indo para a Jordânia e Arábia Saudita quando as coisas pioravam, onde tínhamos família, mas a gente não conseguia emprego e eles estavam dificultando a liberação do visto de permanência.”

Com o agravamento da guerra, Salsabil e Salim se viram sem escolha: teriam que partir. Eles já tinham uma filha, Jury, e Salsabil estava grávida do segundo. A situação ficava cada vez mais insustentável.

“O que eu sinto mais falta é da minha casa. Não consegui salvar nada, deixei tudo como estava. Na última vez que consegui voltar, meu passarinho ainda estava vivo, dentro da gaiola, no mesmo lugar em cima da geladeira onde havia deixado quando fugimos um mês antes. Coloquei ele em um potinho e levei comigo. Foi a coisa mais importante que peguei.”

Este slideshow necessita de JavaScript.

A família pensou em ir para Alemanha ou Canadá, mas os países haviam dificultado a entrada de sírios. Então, um conhecido deles sugeriu o Brasil. Graças ao programa de vistos humanitários estabelecido pelo governo brasileiro, conseguiram vir.

“Até meu álbum de casamento ficou para trás. Não tenho uma foto do meu casamento. Eu sabia que não íamos mais voltar, então peguei todas as plantas e coloquei no piso do banheiro com água. Pelo menos assim elas iam viver até quando desse. Eu tinha uma farmácia e não sei o que aconteceu com ela. Tive que trancar e deixar tudo lá, nem sei se está de pé ainda.”

Em 2014, Salsabil e Salim juntaram o que havia sobrado de suas economias e vieram para o Brasil em busca de uma vida em paz. Com a ajuda da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), conseguiram revalidar seus diplomas. Apesar disso, foi muito difícil encontrar emprego na área de formação. Salim hoje trabalha meio período em uma transportadora e enfrenta uma jornada de duas horas e meia até o trabalho. Para chegar, pega seis conduções.

Salsabil também revalidou seu diploma, mas teve que criar a Cozinha de Salsabil para gerar renda. Ela participou das oficinas do projeto Empoderando Refugiadas, apoiado pelo ACNUR, onde recebeu assessoria para montar seu negócio. Além do esforço de integração, ela conta que sente falta do laço que havia entre as pessoas na Síria.

“Durante a guerra, muitas vezes não tinha eletricidade nem água e tínhamos que estocar alimentos. Nós não tínhamos energia nem sinal de celular, mas tínhamos vassouras. Assim, batíamos no teto ou na parede e a vizinha descia para tomar um café.”

Ela fala diariamente com sua mãe pelo telefone e acha uma pena que seus filhos estejam crescendo longe dos primos, que agora também não conhece. Mas em sua vida, não parece haver muito espaço para nostalgia. Ela logo arruma algo para fazer. Aprendeu a cozinhar tudo o que faz sozinha, inspirada nas receitas da mãe. O hábito começou quando saiu da casa dos pais para estudar.

“Pra mim, não existe não. Se me perguntam se eu faço tal coisa, digo que sim mesmo sem saber e vou aprender até dar certo.”

Ansiosa para a produção de uma encomenda de quase 5 mil unidades de doces e salgados árabes, ela se despede de nós com o brilho nos olhos de quem está reconstruindo a vida ao redor de algo que faz com amor.

O ACNUR atua na emergência da Síria desde o começo. O organismo é a principal agência da ONU na área de proteção, abrigo, serviços comunitários e distribuição de itens essenciais dentro do país. A instituição também está ao lado dos refugiados em todos os passos da sua jornada. No Brasil, o ACNUR apoia os refugiados por meio de parceiros locais, oferecendo cursos de português, serviços de revalidação de diploma e documentação.


Mais notícias de:

Comente

comentários