‘Estamos lidando com pessoas resilientes, então, por que deveríamos desistir?’

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A Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) tem quase 11 mil funcionários no mundo, a maioria trabalhando em campo. Conheça a história do jordaniano Ayman Gharaibeh, de 53 anos, que lidera a agência das Nações Unidas no Iêmen. Com 25 anos de experiência, ele já atuou em Iraque, Síria, Iêmen, Afeganistão, Sri Lanka, Bósnia e na sede das Nações Unidas, em Genebra.

“Costumamos dizer que o que o humanitarismo e os humanitários estão fazendo é salvar vidas. Mas eu não acho que isso dê crédito às pessoas que estamos servindo. Os refugiados sobreviveram porque sabem como sobreviver — as pessoas são salvas por sua própria resiliência, é assim que o Iêmen sobrevive hoje”, declarou. Leia a entrevista completa.

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A Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) tem quase 11 mil funcionários no mundo, a maioria trabalhando em campo. Conheça a história do jordaniano Ayman Gharaibeh, de 53 anos, que lidera a agência das Nações Unidas no Iêmen. Com 25 anos de experiência, ele já atuou em Iraque, Síria, Iêmen, Afeganistão, Sri Lanka, Bósnia e na sede das Nações Unidas, em Genebra.

O ACNUR atua em 130 países, ajudando homens, mulheres e crianças forçados a deixar suas casas devido a guerras e perseguições. Sua sede está localizada em Genebra, mas a maioria dos funcionários está em campo, ajudando refugiados.

A reportagem sobre Gharaibeh faz parte de uma série que destaca a equipe do ACNUR e seu trabalho.

Leia abaixo a entrevista.

Por que você se tornou um trabalhador humanitário?

Em 1990, eu estava trabalhando em um banco em Amã, na Jordânia, quando um dia recebi uma ligação de um amigo me oferecendo um emprego. Ele trabalhava para o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV). Saddam Hussein, então presidente do Iraque, tinha invadido o Kuwait e o CICV foi encarregado de tirar do país cidadãos de outras nações, principalmente indianos e bengaleses.

Eu tinha 25 anos e estava em um trabalho que não achava gratificante. Um contrato de um mês no meio do deserto soava mais interessante do que trabalhar em um banco. Eu realmente não sabia no que estava me metendo, mas sempre tive esse interesse de entender o mundo em um contexto completamente diferente do que você aprenderia nos livros de História. Acabou sendo uma experiência fantástica.

Este trabalho me colocou em momentos cruciais da história mundial e me levou para diferentes lugares do mundo. Então, em última análise, meu trabalho permitiu combinar meu interesse de entender o mundo com o serviço à humanidade.

Qual é a parte mais gratificante ou desafiadora do seu trabalho?

A crise do Iêmen vem se desdobrando nos últimos três anos e continua a se desenrolar. O papel do ACNUR deixou de ser o de uma pequena operação que trabalha com refugiados da Somália para uma resposta a uma grande crise de deslocamento interno que afeta 2 milhões de pessoas.

Em apenas um dia, Sanaa pode ser atacada 62 vezes via aérea. Podemos diagnosticar 5 mil casos de cólera por dia. Você enfrenta esse desafio e começa a se questionar – o que estamos fazendo aqui? Mas isso muda completamente quando você está mais perto das pessoas e vê que está realmente fazendo a diferença em suas vidas.

Costumamos dizer que o que o humanitarismo e os humanitários estão fazendo é salvar vidas. Mas eu não acho que isso dê crédito às pessoas que estamos servindo. Os refugiados sobreviveram porque sabem como sobreviver – as pessoas são salvas por sua própria resiliência, é assim que o Iêmen sobrevive hoje.

Qual foi o seu melhor dia de trabalho?

É muito difícil escolher um dia específico em 25 anos, mas os melhores dias são quando fico cara a cara com as pessoas que essa organização atende. Isso é o que realmente me dá motivação – você está lidando com pessoas fortes e resilientes que não estão desistindo, então por que você deveria desistir?

A resiliência não tem um lar. Ela existe em todos os países. A resiliência dos bósnios durante a guerra não é menor que a resiliência dos tâmeis no norte do Sri Lanka.

Os pais querem olhar nos olhos de seus filhos e ver alguma esperança no futuro. Esta é a parte complexa do meu trabalho e essa é a singularidade do mandato do ACNUR, porque você está lidando com pessoas.

Qual foi o seu pior dia?

O que eu menos gosto no meu trabalho são os momentos em que é preciso partir, seja porque sua tarefa foi concluída e é hora de seguir em frente, seja por condições extremamente hostis. Alguns dos momentos mais difíceis ocorreram quando tive que deixar Aden, no Iêmen, em 1994; Herat, no Afeganistão, em 1996; e a Síria em 2012.

Deixar a Síria foi especialmente difícil. Eu estava lá havia cinco anos montando nossa operação para lidar com a crise dos refugiados iraquianos, mas depois o país começou a se atolar em uma crise que todos nós sabíamos que estava chegando e eu tive que partir. Como eu vinha da região e falava árabe, estava muito alinhado com a nossa equipe nacional e minha saída pesou muito na minha consciência e no psicológico de nossa equipe.

Eles me perguntaram: “Você precisa nos deixar agora quando estamos em um momento de necessidade? O que vai acontecer conosco quando você partir?”

Uma das coisas mais difíceis é deixar para trás as mesmas pessoas cuja segurança lhe preocupa. É uma parte inevitável do nosso trabalho, pois temos que seguir em frente, mas você parte quase com um sentimento de culpa, medo e traição.

Aqueles que ficam para trás querem apenas saber se existe alguma esperança, e quando muitas das causas para as questões às quais estamos respondendo estão além de nós, a esperança nem sempre é algo que você pode dar às pessoas.

 


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