Esporte pode ajudar países a superar conflitos internos, diz jornalista do Sudão

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Para o jornalista sudanês Saeed Zaki, que veio ao Rio para cobrir as Olimpíadas a serviço do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e do Comitê Olímpico Internacional (COI), esporte promove a união dentro de comunidades e o respeito à diversidade.

Saeed Zaki cobriu participação de atletas sudaneses nas Olimpíadas Rio 2016. Foto: UNIC Rio / Pedro Andrade

Saeed Zaki cobriu participação de atletas sudaneses nas Olimpíadas Rio 2016. Foto: UNIC Rio / Pedro Andrade

Dos 25 mil jornalistas de 105 países que vieram ao Rio para cobrir as Olimpíadas, apenas um acompanhou as competições para contar o que viu à população do Sudão. Saeed Zaki, de apenas 26 anos, foi um dos quatro repórteres selecionados em 2014 pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) para representar a juventude de seu país e da África em competições olímpicas.

Vindo de uma nação onde conflitos armados internos, principalmente na região de Darfur, são responsáveis por altos índices de deslocamento interno — mais de 3,2 milhões de sudaneses fogem da violência dentro do próprio país, segundo dados de 2015 da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) —, Zaki acredita que o esporte pode levar sua sociedade e outros Estados africanos ameaçados por tensões domésticas à paz.

“O esporte trata de coesão e união, de aceitar os outros”, afirma. “Você tem de respeitar seu oponente, não importa quem eles sejam ou de onde venham ou em que acreditam, você os respeita pela regra do jogo.”

Para o jornalista, a tolerância à diversidade observada nas competições da Rio 2016 pode ser adotada como um estilo de vida pelas comunidades do Sudão. “Esse país é para todos nós, não é apenas para certos grupos étnicos, é para todos que são chamados sudaneses.”

No Sudão, uma parceria entre o Comitê Olímpico Nacional e a Missão das Nações Unidas em Darfur (UNAMID) leva atividades física para refugiados e indivíduos internamente deslocados.

Segundo Zaki, conforme o país consiga superar problemas de segurança e consequentemente abandonar estratégias voltadas para o atendimento a crises humanitárias, programas como esse serão fundamentais para promover o desenvolvimento a longo prazo.

Seis atletas sudaneses vieram competir na Rio 2016. Foto: Rio 2016

Seis atletas sudaneses vieram competir na Rio 2016. Foto: Rio 2016

Garantir oportunidades de prática de esporte para todos, porém, talvez seja um desafio para o governo sudanês, que lida com dificuldades econômicas desde a separação entre Sudão e Sudão do Sul, em 2011. A porção meridional do antigo país unificado abriga mais de 80% dos campos de petróleo antes pertencentes ao Sudão.

A ruptura tem forçado a nação a adotar medidas de austeridade e priorizar setores como saúde e alimentação. A pobreza no Sudão afeta 46,5% da população.

“Esportes olímpicos exigem treinamentos especiais, pois envolvem a elite (dos atletas)”, afirma Zaki. “Não há orçamento suficiente a nível nacional para mantermos atletas. As finanças, como estão agora, servem para os serviços centrais (do Sudão).”

A delegação nacional que veio ao Rio era composta por apenas seis sudaneses: um judoca; um nadador e uma nadadora; e três velocistas, entre eles, uma mulher.

Embora não tenham chegado às fases finais das competições ou subido ao pódio, todos completaram as provas das quais participaram.

“Apenas 1 ou 2% dos que vêm para as Olimpíadas ganham medalhas”, lembra o jornalista. “Mas ser parte da história, estar lá, levantando a bandeira do seu país, caminhar entre nações de todo o mundo, isso é uma honra por si só. E nós podemos chamá-los de vencedores sem medalhas.”

Esporte pelos ODS

Zaki foi um dos integrantes de um programa do COI que escolheu outros 19 jovens dos cinco continentes para seguir de perto os maiores eventos esportivos do mundo.

Após cobrir as Olimpíadas da Juventude de 2014, em Nanjing, China, o repórter foi convidado a participar dos Jogos do Rio não apenas para seguir de perto as delegações do Sudão e outras nações africanas, mas também para divulgar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) entre os atletas sudaneses.

A campanha desenvolvida por Zaki foi chamada #Sports4SDGs (Esporte pelos ODS) e mobilizou atletas a participarem também do movimento Clima Vulnerável (CVF na sigla em inglês), que busca angariar apoio global para a execução do Acordo de Paris sobre mudanças climáticas.

O objetivo é inspirar a juventude sudanesa a buscar modelos de crescimento e desenvolvimento mais conscientes a partir do exemplo de seus atletas olímpicos.

Segundo Zaki, o COI acredita que o esporte pode ajudar a comunidade internacional a alcançar pelo menos quatro Objetivos Globais: saúde e bem-estar para todos, igualdade de gênero, comunidades e cidades sustentáveis e paz, justiça e instituições eficazes.


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