Especialista sindical alerta que jovens no mundo estão perdendo confiança na democracia

Em entrevista ao Fundo Monetário Internacional (FMI), a secretária-geral da Confederação Sindical Internacional (CSI), Sharan Burrow, alertou para a necessidade de um novo contrato social, que lide com violações dos direitos trabalhistas e outros desafios globais, como as mudanças climáticas e o número crescente de pessoas deslocadas. Para a especialista, os jovens estão perdendo confiança nas democracias, pois não conhecem seus dividendos, como serviços públicos.

Foto: Fora do Eixo (CC)
Foto: Fora do Eixo (CC)

Em entrevista ao Fundo Monetário Internacional (FMI), a secretária-geral da Confederação Sindical Internacional (CSI), Sharan Burrow, alertou para a necessidade de um novo contrato social, que lide com violações dos direitos trabalhistas e outros desafios globais, como as mudanças climáticas e o número crescente de pessoas deslocadas. Para a especialista, os jovens estão perdendo confiança nas democracias, pois não conhecem seus dividendos, como serviços públicos.

“O contrato social que foi alcançado depois de duas Guerras Mundiais e a Grande Depressão tratava de garantir que as pessoas tivessem uma segurança fundamental, uma proteção social universal, num modelo de emprego pleno em que o trabalho era pago, de fato, com um salário mínimo, em que havia a capacidade de negociar coletivamente, em que a liberdade de associação e o direito à organização para compartilhar a prosperidade estavam em seu âmago”, explicou Burrow.

De acordo com a sindicalista, esse modelo antigo “ruiu”, o que não significa que suas garantias devam ser abandonadas. Ao contrário, devem ser preservadas e renovadas, levando em conta problemas globais, como o deslocamento e a integração cada vez maior das economias.

“Mas se continuarmos a ver que existem uns poucos privilegiados, as elites, as corporações multinacionais que não assumem responsabilidade por até 94% da sua força de trabalho numa economia oculta e, de fato, pagam os menores salários possíveis ou governos que, na verdade, acovardam-se diante da ganância corporativa, então nós não veremos uma mudança positiva para o futuro.”

A dirigente da CSI lembrou que 60% dos 3 bilhões de trabalhadores do mundo estão alocados em atividades informais. Por isso, é necessário que o novo contrato social inclua a preocupação com o desemprego e o subemprego. “Estamos comprometidos com o emprego pleno como um direito humano?”, questionou Burrow.

Sobre as expectativas da juventude quanto ao mercado de trabalho, a especialista afirmou que seus anseios não são tão distintos dos de seus pais e avós quanto parecem.

“Eles realmente querem saber que podem criar uma família com dignidade, que eles podem ter um salário com o qual eles possam não apenas viver com dignidade, mas investir no futuro, em seus próprios lares, no futuro das suas crianças”, afirmou a sindicalista.

“Mas isso infelizmente, cada vez mais, são poucos (que têm) na economia global.”

Na avaliação da sindicalista, os jovens de hoje “não viram os dividendos da democracia”. Essa população, segundo Burrow, viu garantias como saúde, educação e segurança ruírem. “Por isso, ironicamente, eles estão perdendo a confiança na democracia. Isso gera um desafio ainda maior”, completou.

Mas existem motivos para esperança, de acordo com a secretária-geral. Entre eles, estão as adoções dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas (ODS) e do Acordo do Clima de Paris.

Segundo Burrow, os ODS oferecem um caminho para garantir direitos, ao estipular metas com o fim da pobreza e condições decentes de trabalho. O problema está em sua implementação, que exige liderança política.

“(Só) vimos uma liderança política que gera xenofobia em seu próprio interesse, o tipo de fundamentalismo da extrema direita. Então as pessoas estão ficando com medo umas das outras. Estamos vendo o desmoronamento da solidariedade”, enfatizou a sindicalista.

Ouça a entrevista de Sharan Burrow ao FMI clicando aqui (em inglês). A conversa foi gravada durante as reuniões anuais entre o FMI e o Banco Mundial, realizadas em outubro, em Bali, na Indonésia,.