Especialista lidera projeto para mobilizar setor privado em prol das metas da ONU

O setor privado pode suprir as lacunas de recursos financeiros para a implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas (ODS), mas, para isso, é necessário orientar as empresas sobre onde e como investir.

A avaliação é de Elizabeth Boggs, diretora do SDG Impact, uma iniciativa da ONU que visa engajar o mundo corporativo com as metas da Organização.

Elizabeth Boggs, durante o SDG Investment Forum, em São Paulo. Foto: Rede Brasil do Pacto Global

Elizabeth Boggs, durante o SDG Investment Forum, em São Paulo. Foto: Rede Brasil do Pacto Global

O setor privado pode suprir as lacunas de recursos financeiros para a implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas (ODS), mas, para isso, é necessário orientar as empresas sobre onde e como investir. A avaliação é de Elizabeth Boggs, diretora do SDG Impact, uma iniciativa da ONU que visa engajar o mundo corporativo com as metas da Organização.

Atualmente, a gestora promove, por meio da SDG Impact, um amplo movimento de capacitação de empresas em 11 países em desenvolvimento, entre eles, o Brasil. O projeto visa mostrar como atividades produtivas e financeiras podem ser alinhadas aos ODS. Outra proposta é garantir a adoção de metodologias padronizadas de avaliação de impacto dos negócios, a fim de avaliar suas contribuições para os objetivos da ONU.

Antes de assumir o cargo, a dirigente atuou como conselheira sênior do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), em Nova Iorque, por 11 anos. A especialista liderou a concepção e a implementação de iniciativas para o setor privado, trabalhando no desenvolvimento de parcerias com empresas, governos e outras instituições.

Durante o SDG Investment Forum, realizado em São Paulo, em março deste ano, a equipe do PNUD no Brasil conversou com Elizabeth sobre o papel que as corporações têm a desempenhar na chamada Agenda 2030 da ONU.

Confira a entrevista na íntegra abaixo:

PNUD Brasil: De quanto precisamos para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) até 2030?

Elizabeth Boggs: Precisamos ser cuidadosos ao quantificar a lacuna e o que é necessário para alcançar os ODS até 2030. O número sempre citado fica entre 5 e 7 trilhões de dólares por ano. Então, a partir dele, podemos fazer as contas do que é preciso até 2030. É um grande número, mas é microscópico em termos de recursos globais.

PNUD Brasil: Quem fez os cálculos? Como podemos saber que esse é o número exato?

E.B.: A Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) foi a referência que utilizamos para saber qual é o déficit financeiro para o alcance das metas globais anualmente, de agora até 2030.

PNUD Brasil: Quanto o setor privado deveria investir sozinho para o alcance dos ODS? Além disso, qual deve ser o seu foco?

E.B.: Neste momento, não há muita tração dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável em balanço no setor privado. Isso é particularmente verdadeiro quando lançamos nossos olhares para os mercados emergentes e para os países em desenvolvimento, a menor tração que temos. Sendo assim, o setor privado precisa sentar-se à mesa de negociações, onde assistentes comuns de desenvolvimento não conseguem chegar. Acredito que haja 142 bilhões de dólares anuais de assistência tradicional ao desenvolvimento no exterior. Ou seja, há uma enorme necessidade que o setor privado precisa atender.

PNUD Brasil: O setor privado tem papel fundamental na implementação da Agenda 2030.

E.B.: Acredito que o setor privado está em busca de uma taxonomia: o que são os setores, como podemos investir, onde devemos implantar capital e o que isso significa para nós. Por causa dos ODS, pela primeira vez na história da humanidade, ou na história que aprendemos sobre o capitalismo, há uma genuína convergência de negócios e desenvolvimento. Podemos ver alguns dos grandes proprietários e gerentes de negócios realmente receptivos e interessados pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

Ninguém fala sobre a lacuna financeira. O desafio número 1, o que os maiores administradores de recursos estão dizendo é: “Eu entendo que há 17 objetivos, eu entendo que há 169 metas para lidar com esses objetivos, mas não tenho ideia de como meu modelo de negócio pode se alinhar com eles. Diga-me o que você precisa que eu faça para que eu possa agir”.

Quando se está nas Nações Unidas, comunicando sobre os ODS, a mensagem sempre é: “Precisamos preencher a lacuna financeira, precisamos do setor privado”. Mas quando se está falando com o setor privado, a resposta é: “Realmente gostamos dessas metas, mas não temos as ferramentas certas. Sabemos que queremos nos alinhar a elas, mas não temos certeza de qual é a maneira mais eficiente ou eficaz para isso. Então, você poderia nos ajudar? Você poderia compartilhar conosco as maneiras certas de reportar, mensurar e como nós, de certa forma, podemos alinhar nosso capital? Se você puder nos ajudar com essas ferramentas, podemos ser muito mais atuantes em relação aos objetivos”.

Achamos que, se pudermos ajudar os investidores, informando com clareza e precisão sobre como eles relatam, medem e gerenciam, será uma contribuição importante. O PNUD está bem equipado enquanto instituição para fornecer essa orientação de inteligência aos investidores. Para ajudá-los a implementar todas as ferramentas ou processos necessários, ou a coleta de dados, para que possam responder aos padrões e, finalmente, reportar essas metas. É um exercício interessante. É muito menos sobre inventar dinheiro e mais, sobre as ferramentas e os padrões adequados necessários para ajudar a proposta.

Essa questão vem à tona principalmente quando entrevistamos grandes e pequenas empresas. São poucas as atividades de investimento que acontecem com os ODS, particularmente nos países em desenvolvimento, e o que as empresas estão solicitando é: “Mostre-me onde estão as oportunidades de investimento que respondem a algumas das metas”.

Mais uma vez, é aí que o PNUD pode desempenhar um papel interessante porque estamos tentando desenvolver inteligência de mercado que permitirá às organizações orientarem os investidores que darão vida aos dados do PNUD. Dados que serão coletados cuidadosamente por meio de mapas de processo. A partir de então, será colocada em prática uma ferramenta de avaliação de risco.

Acredito que a ONU e, em particular, o PNUD são realmente capazes de ajudar os governos a encontrar, priorizar e celebrar a agenda de políticas dos ODS. No entanto, os dados não vêm à luz de uma forma que ilumine o setor privado.

O saneamento, por exemplo, é uma meta importante priorizada pelo governo. As empresas estão apoiando o saneamento, buscando soluções. Elas estão realmente interessadas. A ideia seria desenvolver inteligência de mercado, desenvolvendo metodologia, de modo que tenhamos uma metodologia global para guiar investidores em relação aos ODS e guiar oportunidades de investidores. Estamos começando no Brasil.

PNUD Brasil: Conte-nos um pouco sobre as prioridades do seu escritório em 2019 e além.

E.B.: Dois mil e nove, para mim, é um ano-piloto. Temos algum capital inicial do escritório de administração, do escritório executivo. Estamos usando esse capital para desenvolver os serviços e priorizar a plataforma de impacto dos ODS. Estamos trabalhando muito para desenvolver padrões de processo para equidade no setor privado.

Estamos prestes a lançar um programa de treinamento online muito importante porque acreditamos em uma avaliação de gerenciamento e impacto, para proteger todos os investidores e, assim, os escritórios e outras organizações dos países. Estamos procurando o que há de mais avançado em termos de boa medição e gestão de impacto. Por isso, estamos trabalhando com um grupo de organizações acadêmicas, incluindo duas do Brasil.

A ideia é desenvolver alguns grandes contratos agora em 2019, como piloto; um treinamento online modular abrangente em medição e gerenciamento de impacto. Acabamos de lançar e continuaremos desenvolvendo a metodologia global e implementando essa metodologia para a inteligência de mercado.

PNUD Brasil: Temos isso online?

E.B.: No Brasil, acredito que sim. A ideia é desenvolver esses serviços, desenvolver treinamentos online, padrões, certificação, apenas para o treinamento garantir a conformidade com os padrões, para desenvolver um selo. A ideia é usar 2019 como o ano-piloto para desenvolver os serviços. Estamos trabalhando com 11 escritórios de países, que fazem parte do piloto. Na América Latina, são o Brasil e a Colômbia. Na África, a Nigéria e a África do Sul. Na Europa, a Turquia e a Armênia. Na Ásia, a China, as Filipinas e a Índia. E, nos Estados árabes, estamos trabalhando com a Jordânia e o Egito.

Portanto, temos 11 países, todos de renda média, com o mesmo desenho, que estão testando esse projeto. A ideia é desenvolver os padrões, o treinamento online, testar os padrões com diferentes grupos de investimento que o escritório do país nos ajudará a identificar.

Cada um dos escritórios dos países que fazem parte desse programa está recebendo, por exemplo, um treinamento de imersão, uma medida de impacto padronizada de dois dias e treinamento emergencial de gerenciamento, que gostaríamos de escalar para escritórios de muitos outros países depois de 2019.

Então, 2019 é isso e o modelo de negócios. Porque se tratava de uma startup em que tínhamos que ter um modelo de negócio viável para demonstrar em todos os lugares, alcançando os ODS em diferentes países. Temos alguns custos irrecuperáveis para entrar no design desses produtos, mas, a partir de 2020, começamos a escalar. E a ideia, do ponto de vista do projeto global, é licenciar o treinamento de certificação, licenciar o selo. E, depois, certificadores independentes credenciados.