Especialista defende que economia de democracias não seja baseada apenas em riqueza material

Em palestra na sede da Comissão Econômica da ONU para a América Latina e o Caribe (CEPAL), no Chile, o analista Samuel Bowles ressaltou que o surgimento do capitalismo tornou mais competitivas as economias baseadas em disparidades — o que contribuiu para superar sistemas produtivos mais igualitários. Para o especialista, economias do futuro devem rever distribuição injusta de riqueza.

Samuel Bowles em palestra na CEPAL. Foto: CEPAL/Paloma Montecinos

Samuel Bowles em palestra na CEPAL. Foto: CEPAL/Paloma Montecinos

Em palestra na sede da Comissão Econômica da ONU para a América Latina e o Caribe (CEPAL), no Chile, o analista Samuel Bowles ressaltou que o surgimento do capitalismo tornou mais competitivas as economias baseadas em disparidades — o que contribuiu para superar sistemas produtivos mais igualitários. Para o especialista, economias do futuro devem rever distribuição injusta de riqueza.

“Em uma sociedade democrática, deveríamos ter uma economia que avance as capacidades humanas e que não esteja baseada somente na riqueza material”, disse Bowles.

Segundo o pesquisador, o aparecimento de diferenças econômicas duradouras, persistentes e hereditárias entre as famílias começou há cerca de 11 mil anos, com o desenvolvimento da agricultura e a emergência posterior dos Estados.

Mais tarde, com o surgimento do capitalismo, o modelo econômico com base na desigualdade tornou-se mais competitivo do ponto de vista econômico, militar, demográfico e cultural que outras formas de organização da produção, mais igualitárias.

Defendendo o conceito de “economia leve”, Bowles afirmou que as economias do futuro devem se preocupar em cuidar dos outros e em oferecer oportunidades de tempo livre, além de promover a produção e a distribuição do conhecimento e do afeto.

De acordo com o economista, o neoliberalismo teve êxito devido à presunção de que as falhas de mercado são exceções e não, a regra. Outra razão foi a percepção de que a ação coletiva — tanto dos Estados, como de instituições como os sindicatos — são motivadas pelo interesse próprio desses atores.

A transição para uma “economia leve” poderia favorecer o aparecimento de um paradigma mais democrático e igualitário para a política econômica. Mas sua implementação envolveria riscos, ponderou Bowles. Entre as dificuldades, estão a crescente importância das economias de escala, os direitos de propriedade — que poderiam dificultar a eliminação de barreiras de entrada — e a necessidade de preservar a ordem democrática.

Também presente no evento, a secretária-executiva da CEPAL, Alicia Bárcena, elogiou a trajetória de Bowles e disse que suas ideias sobre desigualdade e redistribuição da riqueza, bem como a relação disso com a produtividade, têm inspirado o pensamento da comissão por anos.

“Devemos combater a cultura do privilégio que se instalou em nossa região e que ‘naturalizou’ a desigualdade. Isto impediu que os governos implementassem políticas em favor da inovação e da mudança estrutural”, enfatizou a dirigente.


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