ESPECIAL: Entre o Brasil e a África houve uma troca forte e poderosa, diz Alberto da Costa e Silva

Durante mais de 350 anos de tráfico transatlântico, o Brasil recebeu cerca de 5 milhões de africanos escravizados.

Entre os séculos 16 e 19, este brutal comércio fez prisioneiros de diferentes partes da África. Cerca de 12 milhões de pessoas foram retiradas de seus lares e, nesta travessia, mais de 2 milhões de africanos perderam suas vidas.

O Brasil foi o maior receptor desse fluxo forçado, o que deu ao país o título de segunda maior população negra do mundo, atrás apenas da Nigéria, na África.

Neste especial sobre o Dia da África, criado em 25 de maio de 1963 e marcado anualmente pela comunidade internacional, o Centro de Informação das Nações Unidas para o Brasil (UNIC Rio) entrevista Alberto da Costa e Silva – ex-embaixador em países africanos e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) – sobre a importância do continente africano para a formação do Brasil e sobre o cruel tráfico transatlântico.

Confira o vídeo especial.

Durante mais de 350 anos de tráfico transatlântico, o Brasil recebeu cerca de 5 milhões de africanos escravizados.

Entre os séculos 16 e 19, este brutal comércio fez prisioneiros de diferentes partes da África. Cerca de 12 milhões de pessoas foram retiradas de seus lares e, nesta travessia, mais de 2 milhões de africanos perderam suas vidas.

O Brasil foi o maior receptor desse fluxo forçado, o que deu ao país o título de segunda maior população negra do mundo, atrás apenas da Nigéria, na África.

Neste especial sobre o Dia da África, criado em 25 de maio de 1963 e marcado anualmente pela comunidade internacional, o Centro de Informação das Nações Unidas para o Brasil (UNIC Rio) entrevista Alberto da Costa e Silva – ex-embaixador em países africanos e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) – sobre a importância do continente africano para a formação do Brasil e sobre o cruel tráfico transatlântico.

“Cada um tinha saudade da sua África particular, da sua aldeia, da sua cidade, do seu bairro, da sua gente. Chegaram aqui e encontraram pessoas inteiramente distintas, que formavam novos grupos, novos agrupamentos, traziam uma nova consciência social. No Brasil, os africanos criaram uma espécie de matrimônio múltiplo, com todas essas pessoas que, na África, jamais tinham se visto”, disse em entrevista exclusiva ao UNIC Rio, Alberto da Costa e Silva, que é escritor e o maior africanólogo de língua portuguesa.

Nos primeiros 50 anos do comércio transatlântico de escravos, Alberto lembra que os povos que aqui desembarcaram eram majoritariamente provenientes da região da Alta Guiné, onde hoje estão Senegal, Mali, Guiné-Conacri e Guiné-Bissau, por exemplo. Em seguida, passou a ter preponderância da região onde hoje estão Angola, República do Congo, Gabão e República Democrática do Congo; depois da chamada Costa dos Escravos, que compreendia o território onde estão Nigéria, Camarões, Togo, Benin e Gana.

No Brasil, os africanos criaram uma espécie de
matrimônio múltiplo, com todas essas pessoas
que, na África, nunca tinham se visto.

“Eles eram de diferentes lugares, mas havia grupos maiores de uma região. O navio, por exemplo, chegava a determinado ponto da costa onde havia acontecido uma guerra e recebia 300 escravos todos da mesma língua, com os mesmos modos de viver. Esses grupos impuseram seus valores sobre os outros grupos, seus deuses que eram variados. Alguns grupos tinham maior capacidade de ‘catequese’ e por isso acabaram transformando uma religião local – o culto aos orixás, onde hoje é o sul da Nigéria, e o culto aos voduns, no Benin – em uma religião universal. Eram religiões de pequenos povos que se transformaram em algo maior”, conta Alberto, justificando a importância e a difusão do candomblé na cultura e história brasileira.

Escravidão racial

A escravidão sempre existiu na história da humanidade, mas o tráfico transatlântico trouxe outra dimensão para esta prática. Muitos povos não conheciam a domesticação de animais, mas conheciam a domesticação do homem porque a escravidão foi o processo mais violento, cruel, porém mais eficiente de obter, preservar e explorar o trabalho alheio, diz o autor de “A Enxada e a Lança: a África antes dos Portugueses” e “A Manilha e o Lilambo: a África e a Escravidão, de 1500 a 1700”.

“A escravidão explorava mais do que o trabalho, explorava a própria existência do ser. O europeu não via o escravizado como um semelhante, mas como um ser inferior a ele. O que faz da escravidão atlântica diferente é que, pela primeira vez, ela era racial, só o negro era escravizado. Havia escravos de aparência branca, mas isso era exceção, isso não fazia parte do comércio transatlântico. Então, a escravidão, sendo racial, marca seus descendentes com uma mancha que demora a apagar.”
Alberto acrescenta: “Outro aspecto da escravidão atlântica é que nunca tanta gente foi capturada e vendida como escravo. Essa era a principal mercadora do grande mercado europeu”, diz o estudioso que reúne mais de 20 obras sobre a história da África e da relação do continente com o Brasil.

“O que faz da escravidão atlântica diferente é que, pela primeira vez, ela era racial, só negro era escravizado. Sendo racial, ela marca seus descendentes com uma mancha que demora a apagar”, disse o escritor.

O tráfico transatlântico – concentrado na região costeira – foi abolido pela Inglaterra em 1807, mas a prática da exploração do continente africano permaneceu com a Conferência de Berlim, realizada de novembro de 1884 até fevereiro de 1885, que promoveu arbitrariamente a divisão da África entre os países europeus.

Era o início da colonização em todo o continente africano. Apesar de ter durado pouco – aproximadamente meio século –, o colonialismo em toda a África teve um impacto espantoso, já que o poder colonial fazia questão de humilhar o conquistado.

Em 1950, teve início um movimento de independência que continuou durante duas décadas. Em 25 de maio de 1963, a Organização da Unidade Africana – substituída em 2002 pela União Africana – foi criada durante um período cercado pelo sentimento de liberdade, de otimismo. Neste dia, todos os anos, é celebrado o Dia da África.

População afrodescendente no Brasil

Enquanto a Inglaterra abolia a escravidão – uma forma de ter o controle informal da África – e pressionava Portugal para encerrar seu comércio, o Brasil recebia mais africanos. Apenas no século 19, o Rio de Janeiro recebeu cerca de 1 milhão de africanos que desembarcavam no Cais do Valongo, o maior porto de escravos e Patrimônio da Humanidade pela UNESCO.

Esse fluxo de africanos fez do Brasil o país com a segunda maior população de negros do mundo, atrás apenas da Nigéria. Ainda hoje, esses 54% da população que se identificam como afrodescendentes experimentam um cenário de exclusão em diferentes aspectos da sociedade brasileira.

A Década Internacional de Afrodescendentes (2015-2024), criada pelas Nações Unidas, chama atenção para a situação dessa população.

Existem aproximadamente 200 milhões de pessoas vivendo nas Américas que se identificam como afrodescendentes. Muitos mais vivem em outros lugares do mundo, fora do continente africano.

Seja como descendentes das vítimas do tráfico de escravos ou como migrantes, mais recentemente, estas pessoas constituem alguns dos grupos mais pobres e marginalizados com acesso limitado à educação de qualidade, serviços de saúde, moradia e segurança.

Além da Década, em 2017 a ONU Brasil lançou a campanha Vidas Negras, visando ampliar junto à sociedade, gestores públicos, sistema de Justiça, setor privado e movimentos sociais, a visibilidade do problema da violência contra a juventude negra no país.

O Sistema ONU pretende com a iniciativa chamar atenção e sensibilizar a sociedade para os impactos do racismo na restrição da cidadania de pessoas negras, influenciando atores estratégicos para a produção e apoio de ações de enfrentamento da discriminação e da violência.

Herança miscigenada

No Brasil, formado pelos povos indígenas – atualmente são cerca de 300 povos –, pelos africanos escravizados e imigrantes europeus, mas também libaneses, japoneses e dezenas de outros povos estrangeiros, quase tudo está misturado. “Mas é possível dizer, com certeza, que algumas coisas são muito africanas”, diz Alberto.

“Foi o africano que ensinou o europeu no Brasil a batear o ouro dos rios, a cavar poços, a fundir o ferro. Foi o africano que desenvolveu a pecuária de grande extensão, aquela onde o gado era solto no pasto, sem currais. Os africanos trouxeram uma nova maneira de vestir e de se comportar, construíram a casa popular (a casa de pau a pique, diferente da casa de taipa de Portugal). Os africanos trouxeram novos instrumentos musicais, comidas, vegetais”, enumera o escritor.

Quase 70% dos africanos que chegaram ao Brasil partiram do antigo da região onde hoje estão República Democrática do Congo, Gabão, Angola e República do Congo. O português falado no Brasil foi influenciado e enriquecido com palavras em kikongo e kimbundu, línguas faladas, principalmente, em Angola.

“Quando eu xingo, eu estou falando em kikongo, quando eu cochilo, estou falando em kimbundu. Todos esses são verbos que usamos todos os dias. De maneira que o nosso português foi muito enriquecido com o seu aporte africano. ‘Eu não gosto disso não’, ‘eu não quero isso não’. Esse ‘não’ repetido é inteiramente angolano.”

‘Um Rio chamado Atlântico’

Entre as duas margens do oceano, nos mais de 350 anos de idas e vindas, houve uma troca permanente de culturas, costumes. Alberto lembra que os contatos através do oceano eram constantes e que os cativos que chegavam aqui traziam notícias de suas nações, e os marinheiros, os ex-escravos que retornavam levavam notícias do Brasil e dos africanos que aqui viviam.

Nessa troca, o Brasil recebeu o maxixe e levou a mandioca, o milho. Da África, veio o piano de cuia e do Brasil foram levados o violão, o pandeiro. Essa interação e integração também foram vistas na maneira de se sentar, caminhar, maneira de se vestir e de se alimentar. O acarajé é encontrado na Nigéria, Togo, Gana e Benin.

No Benin, onde Alberto viveu como embaixador do Brasil, viu o carnaval e as celebrações dos agudás, descendentes de escravos que retornaram para a África, principalmente após a Revolta dos Malês, na Bahia, em 1835.

“Foi uma troca de modos de viver, de valores, de gostos de um lado para o outro. Houve uma espécie de entendimento transoceânico extremamente forte e poderoso.”


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