Enviado da ONU para Síria pede que Rússia e EUA ajudem a resgatar cessar de hostilidades

O enviado das Nações Unidas para a mediação do conflito na Síria alertou que as últimas rodadas de negociações no país foram ofuscadas pela substancial deterioração do cessar-fogo, e pediu que os líderes russos e norte-americanos ajudem a salvar o pacto que está “por um fio”.

Destruição na cidade de Aleppo, Síria. Foto: UNESCO.

Destruição na cidade de Aleppo, Síria. Foto: UNESCO.

O enviado das Nações Unidas para a mediação do conflito na Síria alertou que as últimas rodadas de negociações no país foram ofuscadas pela substancial deterioração do cessar-fogo, e pediu que líderes russos e norte-americanos ajudem a salvar o pacto que está “por um fio”.

“Precisamos que o cessar-fogo seja salvo (…) do total colapso”, disse Staffan de Mistura, enviado especial da ONU para a Síria, a jornalistas, após reunião com o Conselho de Segurança na quarta-feira (27).

“(O cessar-fogo) ainda existe. Existe porque em muitas áreas, está em vigor. Mas está em perigo. Está por um fio e a percepção é de que pode colapsar a qualquer momento”, declarou.

O enviado especial afirmou que a rodada anterior de negociações recebeu impulso e apoio do início do cessar de hostilidades e um “claro comprometimento” com o avanço do acesso humanitário a áreas sitiadas.

“Esta (nova) rodada de conversas foi, por outro lado, ofuscada por uma substancial e preocupante deterioração do cessar de hostilidades”, afirmou. “Não podemos ignorar esse fato e não ignoramos.”

A mais recente rodada de negociações ocorreu em meio a ataques aéreos contra um hospital, entre outros ataques, disse o enviado especial.

“Nas últimas 48 horas, tivemos a média de um sírio morto a cada 25 minutos. Um sírio ferido a cada 13 minutos”, declarou. Segundo a imprensa internacional, nas últimas

O enviado especial lembrou das iniciativas tomadas por Rússia e Estados Unidos em fevereiro que levaram a um cessar de hostilidades.

“A Rússia e os EUA, como vocês lembram, adotaram uma forte iniciativa, que produziu basicamente um milagre, porque em 27 de fevereiro, em algumas horas, tivemos uma interrupção de hostilidades”, disse. “Precisamos que isso seja urgentemente retomado.”

Também nesta sexta-feira, o chefe de direitos humanos da ONU, Zeid Ra’ad Al Hussein, disse em comunicado que as últimas informações sobre ataques na Síria indicam “o monstruoso descaso com as vidas civis por todas as partes no conflito”, pedindo ação urgente de todos os atores relevantes para uma resolução ao conflito.

Outras autoridades da ONU expressaram profunda preocupação com a situação no país, com o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, condenando na quarta-feira os ataques aéreos contra um hospital em Aleppo.

De acordo com comunicado emitido pelo porta-voz de Ban, grupos da sociedade civil reportaram ao menos 20 mortos como resultado dos ataques, incluindo três crianças.

O enviado da ONU para a Síria disse que, apesar dos incidentes, as negociações ocorreram de 13 a 27 de abril. Ele indicou que houve “algum progresso” e incluiu sua própria visão do que seriam as divergências em relação à transição política no país.

Segundo ele, as duas partes do conflito concordam sobre a necessidade de uma transição política, mas divergem sobre como essa transição se dará.

Situação na Síria é ‘repugnante’

Com centenas de milhares de civis mortos, milhões de deslocados e famílias dilaceradas, o chefe de ajuda humanitária da ONU descreveu na quinta-feira (28) a situação na Síria como “repugnante”, e disse que a comunidade global deveria estar envergonhada com o fato de isso estar acontecendo “debaixo de seus olhos”.

“Não é preciso que eu diga a cada membro do Conselho de Segurança que o impacto de cinco longos anos de conflito na Síria desafia o entendimento, quiçá a descrição”, disse Stephen O’Brien, ao corpo de 15 membros durante sessão mensal para atualização sobre as questões humanitárias.

O’Brien disse que para muitos sírios, a vida está miserável. “Deliberadamente privados de comida e remédios, muitos enfrentam condições desoladoras de fome e miséria. Precisamos nos envergonhar de que isso esteja acontecendo debaixo dos nossos olhos”, lamentou.

Apesar do enorme desafio, as equipes humanitárias da ONU continuaram a entregar ajuda a milhões de pessoas pelo país.

De acordo com o chefe da ajuda humanitária, o Programa Mundial de Alimentos (PMA) atingiu 3,7 milhões de pessoas em março. Já o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e a Organização Mundial de Saúde (OMS) realizaram uma campanha contra a poliomielite em março e atingiram mais de 2,1 milhões de crianças. Nesta semana, o UNICEF, a OMS e parceiros iniciaram outra campanha e imunização para atingir 2 milhões de crianças em áreas sitiadas ou de difícil acesso.