Entrevista: General Ajax Porto considera MINUSTAH missão cumprida

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Retirada de gangues das ruas em três cidades do Haiti, graves questões de segurança e humanitária depois do terremoto de 2010, três eleições presidenciais e um furacão. Os 13 anos das tropas brasileiras na Missão das Nações Unidas para Estabilização no Haiti (MINUSTAH) foram repletos de desafios.

Em entrevista exclusiva ao serviço em português da ONU em Nova Iorque, a ONU News, o comandante da MINUSTAH general Ajax Porto Pinheiro faz um balanço das atividades brasileiras no país e considera que a missão foi cumprida. No último dia 31 de agosto, o Brasil se retirou da MINUSTAH e a Missão deve encerrar completamente suas atividades no dia 15 de outubro de 2017.

General Ajax Porto Pinheiro - Foto: ONU News

General Ajax Porto Pinheiro – Foto: ONU News

Retirada de gangues das ruas em três cidades do Haiti, graves questões de segurança e humanitária depois do terremoto de 2010, três eleições presidenciais e um furacão. Os 13 anos das tropas brasileiras na Missão das Nações Unidas para Estabilização no Haiti (MINUSTAH) foram repletos de desafios.

Em entrevista exclusiva ao serviço em português da ONU em Nova Iorque, a ONU News, o comandante da MINUSTAH general Ajax Porto Pinheiro faz um balanço das atividades brasileiras no país e considera que a missão foi cumprida. No último dia 31 de agosto, o Brasil se retirou da MINUSTAH e a Missão deve encerrar completamente suas atividades no dia 15 de outubro de 2017.

ONU News: O que significa esta partida das forças brasileiras do país?
Ajax Porto Pinheiro: Representa o encerramento das operações das tropas brasileiras que estão aqui desde junho de 2004. São mais de 13 anos, muito mais que uma década de trabalho na mais importante missão de paz que o Brasil já participou em sua história. É a maior operação militar fora do país que nós realizamos desde 1865-1870 e finalmente estamos baixando nossa bandeira.

ONU News: Treze anos depois, que momentos marcantes queriam deixar desta operação?
Ajax Porto Pinheiro: É difícil resumir 13 anos mas tem quatro momentos marcantes. A chegada em 2004 e os combates para tirar território das gangues que causavam grande instabilidade no país. Em 2004 – e até meados de 2007 – as tropas brasileiras e as tropas da ONU impuseram a ordem onde as gangues tinham completo domínio – Cité Militaire, Belair e Cité Soleil. Depois veio o terremoto de 2010, onde as tropas tiveram que capturar os líderes das gangues que fugiram após o terremoto, quando os presídios foram abertos, porque não tinha como manter mais de 5 mil presidiários na capital. Depois, as tropas passaram também a atuar em ajuda humanitária. Depois vieram as eleições – três eleições presidenciais; a última em 7 de fevereiro. O início das operações, os atritos depois de 2010, a ajuda humanitária e o ataque às gangues novamente. Teve ainda o grande trabalho após o furacão que atingiu o país em 4 de outubro do ano passado.

ONU News: As tropas do Brasil participaram na frente humanitária. Houve uma intervenção forte das forças brasileiras. Como é que vai ficar marcada a presença e a atuação nessas frentes humanitária e na comunidade?
Ajax Porto Pinheiro: Nas várias comunidades do Haiti a lembrança que elas terão é dessa ajuda humanitária. A engenharia do Brabat fez um trabalho digno de referência para ser lembrado aqui. Ela escavou poços artesianos em áreas em que pequenas comunidades nunca tinham tido acesso à água. O fornecimento de água potável nos caminhões-tanque nos finais de semana para orfanatos, hospitais, presídios e ONGs. A assistência médica odontológica, a reconstrução e construção de escolas… há uma herança que nós vamos deixar no país.

ONU News: Outubro vai marcar a saída do último homem da atual missão da ONU no Haiti. Até lá o que dizer dos que ficam no território e do que permanece do Brasil no Haiti?
Ajax Porto Pinheiro: Para o Brasil foi uma grande lição de vida e uma experiência histórica. Nós voltamos marcados pelo que fizemos aqui. Aprendemos muito na parte operacional devido à oportunidade que tivemos de conviver com exércitos de outros países. A experiência é enriquecedora. Aprendemos muito com logística, porque tivemos que manter uma tropa distante do país. Para o Haiti fica a certeza de que nós entregamos um país muito melhor do que aquele que encontramos em 2004. O Haiti é um país estável. Viveu 13 anos de paz com alguns percalços, alguns momentos de tensão mas foram três presidentes eleitos. O país funciona e o legislativo está funcionando. As instituições do Haiti têm melhorado sensivelmente. A economia do país melhorou e está melhorando. Nós estamos deixando, principalmente, uma geração que nos viu chegar. Em 2004, quem tinha cinco anos agora tem 18. Essa geração Minustah é a geração que vai levar o país para um futuro melhor nas próximas décadas. Esse talvez seja o grande legado que estamos deixando agora que estamos partindo.

ONU News: Acredita que haja razões para considerar a missão cumprida?
Ajax Porto Pinheiro: Missão cumprida. Nós estamos saindo na hora certa. Nós ajudamos o Haiti a alçar rumos mais altos. Eu costumo dizer que é como se nós tivéssemos treinado juntos. Nós e eles preparamos o avião para decolar. Eles vão descolar agora. Nós partimos tristes porque a missão está se encerrando. É um duplo sentimento de tristeza e, ao mesmo tempo, de felicidade por ter cumprido a missão que nos foi delegada pelas Nações Unidas.

 


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