Entregador enfrenta diariamente medo da infecção pelo novo coronavírus

Quando o relógio marca 10 horas da manhã, Matheus Martinez, de 27 anos, já está montado em sua bicicleta, carregando sua grande mochila quadrada e pedalando pelas ruas de Porto Alegre (RS).

Desde 2018, o músico passou a fazer entregas por meio de aplicativos de entregas e, hoje, tem a atividade como principal fonte de renda.

Matheus faz parte do grupo de trabalhadores autônomos que não têm a possibilidade de trabalhar de casa e se vê enfrentando o medo da infecção pelo novo coronavírus todos os dias.

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Quando o relógio marca 10 horas da manhã, Matheus Martinez, de 27 anos, já está montado em sua bicicleta, carregando sua grande mochila quadrada e pedalando pelas ruas de Porto Alegre (RS).

Desde 2018, o músico passou a fazer entregas por meio de aplicativos de entregas e, hoje, tem a atividade como principal fonte de renda.

Matheus faz parte do grupo de trabalhadores autônomos que não têm a possibilidade de trabalhar de casa e se veem enfrentando o medo da infecção pelo novo coronavírus todos os dias.

“Eu tenho medo de morrer (mesmo) não estando no grupo de risco, mas eu preciso sair e trabalhar”, relata. Diariamente, ele percorre uma média de 40 a 60 quilômetros entre os bairros de Azenha e Partenon.

“Antes, eu trabalhava muito mais à noite e, hoje, o dia está meio similar, acho que muito pelo fato de as pessoas estarem em casa”, afirma.

Com a disseminação do novo coronavírus no Brasil, Martinez logo direcionou sua atenção aos procedimentos de higiene durante as entregas.

As alças das embalagens, por exemplo, foram seu primeiro foco de preocupação. Carregando sempre álcool em gel consigo e esterilizando as mãos quando chega aos estabelecimentos, o jovem diz que sua mudança de comportamento é sua principal defesa.

Em entrevista ao Centro de Informação das Nações Unidas para o Brasil (UNIC Rio), ele relata que a maioria dos estabelecimentos se adaptou aos procedimentos de higiene. Alguns chegam a oferecer luvas aos entregadores, disponibilizam álcool em gel e áreas para lavagem das mãos e até das mochilas.

Martinez afirma não ter recebido, contudo, itens de higiene fornecidos pelas empresas de aplicativo. O jovem tentou comprar máscaras por conta própria, mas não encontrou o produto nas farmácias.

A solução só apareceu no dia 11 de abril, quando, em um gesto de solidariedade, a mãe de um colega de apartamento confeccionou uma máscara e lhe deu de presente.

“Eu preciso arcar com os custos de tudo para me proteger”, relata. “A única coisa que eu recebi (dos aplicativos) foi informação: faça tal coisa na hora da entrega”.

Entre as recomendações das empresas, está a de não entrar nos prédios ou residências, mas aguardar os clientes no portão de entrada.

“Se eu entrar no prédio e estou vindo da rua, posso acabar entrando em contato com muitas superfícies que outras pessoas vão entrar em contato”, aponta.

“Então, os clientes têm vindo até a porta, e achei isso muito legal. As pessoas se conscientizaram”, completa.

Além disso, o jovem afirma estar recebendo mais gorjetas. “Isso é uma ajuda muito boa, porque só em gorjeta vem quase uma corrida extra.”

Quando se reúne com outros entregadores, Martinez diz que o debate sobre a pandemia quase não acontece. As conversas giram em torno de questões financeiras, afinal, é por esse motivo que não podem permanecer em casa, relata.

A pandemia da COVID-19 está exacerbando as desigualdades já existentes em todos os países, desde o risco de ser infectado pelo vírus, até a chance de se manter vivo ou lidar com as dramáticas consequências econômicas.

Nesse cenário, as respostas políticas dos países devem garantir que o apoio chegue às trabalhadoras, aos trabalhadores e às empresas que mais precisam, afirmou a Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Em todo o mundo, 61,2% das pessoas empregadas estão em trabalhos informais e, portanto, mais propensas a enfrentar maior exposição a riscos de saúde e de segurança, de acordo com a organização.

A OIT recomenda que o apoio à renda para esses trabalhadores seja realizado por meio de um plano de seguridade social não contributiva ou dos programas de transferência de renda já existentes.

A previsão é de forte deterioração da situação do emprego e da renda nos países latino-americanos diante dos efeitos da pandemia, apontou o diretor regional da OIT para a América Latina e o Caribe, Vinícius Pinheiro.

“Enfrentamos uma emergência que está infectando o mundo do trabalho e agora é uma prioridade agir de maneira eficaz para reduzir as consequências nos mercados de trabalho da região”, disse Pinheiro.