Embaixadora da ONU e médico congolês vencem Nobel da Paz por luta contra violência sexual

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Nadia Murad, ativista dos direitos dos yazidis e primeira Embaixadora para a Dignidade dos Sobreviventes de Tráfico de Pessoas do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), e Denis Mukwege, ginecologista que ajuda as vítimas de violência sexual na República Democrática do Congo (RDC), receberam o Prêmio Nobel da Paz de 2018 nesta sexta-feira (5).

A decisão de dar o prestigiado prêmio em conjunto tem o potencial de ajudar a acabar com o uso da violência sexual como arma de guerra, disse a ONU — uma causa muito importante para o trabalho da Organização.

Nadia Murad, ativista dos direitos dos yazidis e primeira Embaixadora para a Dignidade dos Sobreviventes de Tráfico de Pessoas do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), e Denis Mukwege, ginecologista que ajuda as vítimas de violência sexual na República Democrática do Congo (RDC), receberam o Prêmio Nobel da Paz de 2018 nesta sexta-feira (5).

A decisão de dar o prestigiado prêmio em conjunto tem o potencial de ajudar a acabar com o uso da violência sexual como arma de guerra, disse a ONU — uma causa muito importante para o trabalho da Organização.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, falando na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque, disse que “na defesa das vítimas de violência sexual em conflito, eles (também) defenderam nossos valores compartilhados”.

Ele elogiou Mukwege por sua “destemida defesa de mulheres estupradas e abusadas” durante conflitos, ajudando a recuperar “corpos despedaçados” como um cirurgião experiente, mas também restaurando “a dignidade e a esperança”.

Murad, disse ele, deu voz ao “abuso indescritível” no norte do Iraque, quando os terroristas do Estado Islâmico atacaram brutalmente a minoria étnica yazidi em 2014. “Ela buscou apoio para as vítimas de tráfico de pessoas e escravidão sexual, e responsabilização dos perpetradores”.

O chefe da ONU disse que o prêmio é parte de um “crescente movimento para reconhecer a violência e a injustiça” enfrentada por mulheres e meninas, em todo o mundo.

“Dez anos atrás, o Conselho de Segurança condenou unanimemente a violência sexual como uma arma de guerra. Hoje, o Comitê do Nobel reconheceu os esforços de Nadia Murad e Denis Mukwege como ferramentas vitais para a paz”, disse Guterres.

“Ao homenagear esses defensores da dignidade humana, este prêmio também reconhece inúmeras vítimas em todo o mundo que muitas vezes foram estigmatizadas, escondidas e esquecidas. Este é o prêmio deles também. Vamos homenagear esses novos ganhadores do Prêmio Nobel por defenderem as vítimas de violência sexual em todos os lugares.”

Acolhendo o anúncio feito pela academia em Oslo, na Noruega, a porta-voz da ONU em Genebra Alessandra Vellucci explicou que erradicar a violência sexual em conflitos continua sendo uma prioridade.

“Vou lembrar que essa é uma causa muito próxima das Nações Unidas e, como você sabe, temos uma representante especial sobre violência sexual em conflito, Pramila Patten, que também está trabalhando nisso”, disse Vellucci. “Tenho certeza de que este Prêmio Nobel da Paz ajudará a promover a causa do fim da violência sexual como uma arma de conflito. Parabéns aos vencedores”.

O prêmio conjunto também foi bem recebido pelo UNODC, que nomeou Murad em 2016 como Embaixadora da Dignidade de Sobreviventes do Tráfico de Pessoas.

O diretor-executivo do UNODC, Yury Fedotov, elogiou a coragem e resistência de Murad, dizendo que ela “nos lembra que devemos sempre ouvir as pessoas que foram mais afetadas e prejudicadas pelos crimes que buscamos combater”.

Os depoimentos de sobreviventes como Murad “devem informar e fortalecer nossos esforços para alcançar a justiça”, acrescentou Fedotov.

Suas ações ajudaram a estabelecer o que Guterres descreveu como “uma investigação da ONU de vital importância”, “dos crimes angustiantes que ela e tantos outros sofreram”.

O homem que cura mulheres

Chamado pela imprensa de “o homem que cura mulheres”, Mukwege ganhou reconhecimento internacional por seu trabalho, incluindo o Prêmio da ONU no campo dos direitos humanos, em 2008, e o prêmio Sakharov, em 2014.

Mukwege, que tratou milhares de vítimas de estupro em seu hospital na República Democrática do Congo, foi selecionado para o Prêmio Nobel diversas vezes.

A decisão da Academia do Nobel de homenagear Mukwege é o reconhecimento de anos de trabalho como um dos mais proeminentes defensores dos direitos humanos na RDC.

Como cirurgião, ele é conhecido por ajudar sobreviventes de estupro no leste da RDC e foi foco do filme “The man who mends women” (O homem que cura mulheres, em tradução livre).

Ele enfrentou diretamente as consequências do conflito na região, quando pacientes e funcionários do hospital administrado por ele foram mortos por soldados.

Depois de fundar um hospital que oferecia assistência médica gratuita a vítimas de terríveis abusos sexuais e violência, Mukwege se dedicou à defesa dos direitos humanos, após perceber que muitas sobreviventes de estupro eram filhas de mulheres que tinham sido estupradas anos antes.

A alta-comissária das Nações Unidas para os direitos humanos, Michelle Bachelet, disse logo após o anúncio que era “difícil imaginar dois vencedores mais dignos“.

“É um reconhecimento ricamente merecido desses dois ativistas extraordinariamente corajosos, persistentes e eficazes contra o flagelo da violência sexual e do uso do estupro como arma de guerra”, acrescentou.

“Nadia e Denis, tenho certeza de que falo por todos os defensores dos direitos humanos quando digo que saudamos, admiramos vocês para além das palavras. Vocês lutaram para que a dor das mulheres que sofreram abuso sexual fosse reconhecida e confrontada, e para que a dignidade delas fosse restabelecida. Precisamos que mais pessoas defendam como vocês os direitos das mulheres, a justiça, os direitos das minorias, os direitos de todos.”

Dentro da ONU, a questão da erradicação da violência sexual em conflitos tem sido uma das principais prioridades.

Este trabalho é realizado em colaboração com os Estados-membros pela representante especial para a violência sexual, Pramila Patten, das Ilhas Maurício, que também ocupa o cargo de sub-secretária-geral da ONU. Seu escritório foi estabelecido em 2009 pela resolução 1888 do Conselho de Segurança da ONU; sua primeira representante foi Margot Wallström, da Suécia.

A resolução do Conselho de Segurança da ONU foi apenas uma de uma série que reconheceu o impacto nocivo que a violência sexual tem sobre as comunidades, ao mesmo tempo em que mina a paz e a segurança quando o conflito termina.


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