Em Palmas, mulheres indígenas debatem vulnerabilidade da saúde feminina

Indígena carrega criança durante os Jogos Mundiais dos Povos Indígenas, em Palmas, Tocantins. Foto: Tiago Zenero/PNUD Brasil

“Estar aqui falando o que queremos e o que pensamos é uma conquista, porque somos mulheres e somos indígenas. É um duplo preconceito, mas quer dizer que somos capazes. Assim como qualquer outro ser humano, sabemos usar a massa cinzenta do cérebro.”

Assim, a integrante do Conselho Nacional de Saúde do Mato Grosso do Sul, Elisângela Terena, iniciou o debate sobre a saúde da mulher indígena, parte do ciclo de palestras da Oca da Sabedoria, dentro do complexo dos I Jogos Mundiais dos Povos Indígenas, em Palmas (TO). O evento internacional tem o apoio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

Convidados a discutir questões referentes à vulnerabilidade da mulher indígena dentro do sistema de saúde tradicional, diversos profissionais da área se reuniram em um debate aberto ao público no último dia 25 de outubro.

Entre os problemas enfrentados pelos indígenas, a integrante do Comitê Intertribal (ITC) e responsável pela saúde indígena na região de Campinápolis (MT), Samira Xavante, destacou a desigualdade de gênero. “Muitos de meu povo acreditam que não somos capazes apenas porque somos mulheres”, declarou.

Elisângela Terena completou observando que, além da superioridade masculina, o sistema de saúde é gerido por não-índios, e a medicina alternativa indígena não tem espaço dentro das próprias aldeias: “Nós queremos acesso às universidades, ao curso de Medicina, mas não apenas acesso, pois é preciso haver o equilíbrio. Afinal, quem sabe fazer um parto natural melhor do que nossas parteiras? E isso não se aprende na universidade”.

Técnica em enfermagem em Alagoas, Graciliana Selestino afirmou que a saúde da população indígena, especialmente a das mulheres, tem uma cosmologia: “É preciso ter equilíbrio, pois a saúde depende do corpo, da mente e da espiritualidade”.

Da etnia Konan, do Panamá, Jacobet Solano lembrou que, além de espiritualidade, a saúde também está na sabedoria de seu povo. “Hoje, a medicina ocidental diz que o leite materno faz bem ao recém-nascido, mas isso nosso povo já sabia há muitos anos, e não é só o leite, mas o contato, a simbiose, a troca de sabedoria”, afirmou Jacobet.

Para encerrar, Elisângela Terena afirmou que a mulher indígena precisa de qualidade na saúde, com postos de atendimento que forneçam condições de atendê-las, com, inclusive, intérpretes para a mulher indígena que não fala português. “Não queremos um hospital exclusivo, não queremos apenas profissionais indígenas, queremos ser todas tratadas com igualdade”.