Em meio à trégua na Síria, UNICEF alerta para as necessidades de mais de 8 milhões de crianças

Jovens que estão morando dentro da Síria ou fugiram para países vizinhos precisam de assistência. Apesar da cessação de hostilidades e de acordos para a liberação do acesso de agências humanitárias a zonas sitiadas, a entrega de materiais médicos e cirúrgicos tem sofrido restrições, colocando em risco a população.

Criança observa caminhão transportando ajuda humanitária para a cidade sitiada de Moadamiyeh em fevereiro de 2016. Ao todo, a UNICEF entregou 16 caminhões com roupas de inverno e fraldas. Foto: UNICEF/El Ouerchefani

Criança observa caminhão transportando ajuda humanitária para a cidade sitiada de Moadamiyeh em fevereiro de 2016. Ao todo, a UNICEF entregou 16 caminhões com roupas de inverno e fraldas. Foto: UNICEF/El Ouerchefani

Em visita à Síria no início de março, o diretor executivo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), Anthony Lake, solicitou ao governo e aos grupos de oposição que facilitem o acesso das organizações humanitárias às crianças do país.

Mais de 8 milhões de jovens sírios precisam de assistência, segundo a agência da ONU. Desse contingente, cerca de 6 milhões estão dentro da nação em guerra e mais de 2 milhões fugiram para Estados vizinhos.

Negociações recentes entre o UNICEF, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e autoridades sírias autorizaram a elaboração e implementação de um plano nacional de imunização contra doenças infantis. Para Lake, a iniciativa “vai exigir o acesso duradouro a todas as áreas sitiadas e de difícil alcance”.

O dirigente expressou otimismo quanto à atual cessação de hostilidades entre governo e oposição, o que trouxe esperança para a população síria. “Esperança de que haverá paz, esperança de que a paz possa ser encontrada em mais do que um pedaço de papel diplomático e de que a paz poderá retornar às suas vidas cotidianas”, disse o chefe do UNICEF, que visitou Damasco, Homs, Hama e Al-Salameya.

Durante passagem pelo bairro de Al-Waer, em Homs, Lake afirmou ter visto cenas impensáveis há dois anos, quando visitou a Síria pela última vez: lojas abertas, pessoas andando livremente e crianças aprendendo em salas de aula normais, sem ter de se esconder em porões devido à ameaça de atiradores.

Apesar da trégua, restrições à entrega da assistência humanitária perduram

Embora uma atmosfera positiva tenha sido observada pelo dirigente, Lake também testemunhou episódios que refletem as condições de vida em meio ao conflito. Ele visitou vizinhanças que foram inteiramente destruídas, como Al-Waer, onde pôde conhecer as ruínas de um antigo orfanato, atingido por um morteiro que matou oito crianças em 2014.

Em Homs, o diretor executivo também presenciou uma cirurgia de um paciente atingido por tiros. Segundo informações da equipe médica, os instrumentos cirúrgicos estavam velhos e as drogas anestésicas, fora da validade. O governo sírio continua a negar a entrega de materiais médicos e cirúrgicos em determinadas áreas, como Homs, de acordo com habitantes da região.

No mesmo dia da visita do chefe do UNICEF, o Escritório das Nações Unidas de Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) informou que provisões médicas, inicialmente não permitidas nos comboios que levariam assistência para Moadamiyeh, foram liberadas e entregues na semana passada. Ainda assim, alguns itens cirúrgicos foram proibidos.

Outros comboios levaram na mesma semana alimentos e materiais de saúde para cerca de 20 mil pessoas no subdistrito de Kafr Batna, em Ghouta Oriental. Mais entregas estão sendo programadas.

A a assistência humanitária também chegou pela segunda vez às “quatro cidades” – em referência a Madaya, Zabadani, Foah e Kefraya. Organizações levaram ajuda às populações desses locais no dia 17 de fevereiro, quando 60 mil sírios receberam suprimentos.