Em meio a avanço da guerra no Iêmen, refugiados somalis consideram voltar para casa

Diante do perigo e das dificuldades enfrentados por refugiados somalis no Iêmen, mais de 30 mil pessoas teriam retornado para suas cidades na Somália desde que a guerra teve início, em 2015, segundo a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).

Barei Dubad Ibrahim, refugiada somali, com um dos seus filhos em Kharaz, campo de refugiados em Lahij, Iêmen. Foto: ACNUR/Shabia Mantoo

Barei Dubad Ibrahim, refugiada somali, com um dos seus filhos em Kharaz, campo de refugiados em Lahij, Iêmen. Foto: ACNUR/Shabia Mantoo

A somali Barei Ibrahim vive no Iêmen há 26 anos, depois que a guerra a forçou a deixar seu país de origem no começo dos anos noventa.

Mas, à medida que o conflito violento avança no Iêmen, devastando vidas e infraestruturas e destruindo oportunidades de trabalho, as condições tornaram-se cada vez mais difíceis para essa mãe de dez filhos.

“Eu não tenho nada aqui”, disse ao ACNUR, a Agência da ONU para Refugiados. “Eu não tenho emprego nem futuro e estamos enfrentando dificuldades. Estamos pedindo esmola para sobreviver. Há muita tristeza e sofrimento.”

Barei não está sozinha. Em meio à continuidade do conflito que teve início em março de 2015, a situação humanitária no Iêmen se deteriora. As condições enfrentadas pelos quase 280 mil refugiados no país estão piorando e suas necessidades aumentam a cada dia.

A esmagadora maioria dos refugiados no Iêmen – 91% ou cerca de 255 mil pessoas – é de somalis como Barei, que chegam em busca de segurança e oportunidades e estão no país há mais de duas décadas.

Embora o Iêmen tenha sido tradicionalmente muito generoso em aceitar aqueles que necessitam de proteção internacional, e o único país da Península Arábica signatário da Convenção sobre o Estatuto dos Refugiados e do Protocolo relativo ao Estatuto dos Refugiados, a guerra em curso limitou a capacidade de prestar assistência e proteção adequada aos refugiados.

“Depois de mais de dois anos de guerra, muitos refugiados enfrentam dificuldades acrescidas: estão lutando para cobrir necessidades básicas, perdendo meios de vida e estão sem acesso a serviços básicos e essenciais”, disse o porta-voz do ACNUR Babar Baloch, em uma entrevista coletiva em Genebra na sexta-feira (19).

Com o conflito no Iêmen atingindo intensamente a população civil, matando e ferindo muitos e causando fome generalizada, cerca de 30.600 somalis teriam retornado à Somália desde que as hostilidades começaram em março de 2015.

“Um número crescente de pessoas procura o ACNUR em busca de apoio para retornar, citando preocupações de segurança e acesso limitado aos serviços no Iêmen”, disse Baloch aos jornalistas na sede da ONU em Genebra.

Entre aqueles que pensam em retornar está Mohammed, um somali que foi forçado a fugir para o Iêmen há 12 anos, e agora está vivendo no campo de refugiados de Kharaz, na província de Lahj.

“A vida era muito boa no Iêmen antes, mas agora é muito difícil para nós por causa da guerra. Eu só quero voltar para a Somália para viver em paz”, diz Mohammad, que pediu para não ser identificado pelo seu sobrenome.

Atualmente, o ACNUR oferece apoio àqueles que escolhem voltar sozinhos. Em 2017, o ACNUR pode auxiliar até 10 mil refugiados somalis que decidiram retornar, com base nas informações recebidas no Return Help Desk sobre as condições na Somália e o pacote de assistência que está sendo oferecido tanto no Iêmen como na Somália.

Baloch disse ainda que as operações humanitárias do ACNUR no Iêmen continuarão oferecendo apoio aos refugiados que permanecerem no país.

A maioria dos refugiados somalis registrados no Iêmen são originários das regiões de Banaadir, Shabeellaha Hoose, Bay, Shabeellaha Dhexe e Woqooyi Galbeed, na Somália. No Iêmen, a maioria reside nas províncias de Aden, Sana’a e Lahij, sendo que nessa última está localizado o único campo de refugiados do Iêmen, o campo de refugiados de Kharaz.

A assistência do ACNUR incluirá documentação, assistência em viagens e transporte, e apoio financeiro no Iêmen para facilitar a viagem, bem como amparo na chegada à Somália.

Serão tomadas medidas especiais para o deslocamento de pessoas com necessidades específicas. A maioria dos refugiados opta por regressar a Mogadíscio, na expectativa de que a assistência e os serviços serão mais acessíveis e disponíveis.

No Iêmen, o ACNUR tem proporcionado proteção e serviços para refugiados e solicitantes de refúgio, inclusive oferecendo assistência jurídica, apoiando programas de educação e de meios de vida e fornecendo acesso a serviços de saúde e psicossociais, um programa de financiamento para pessoas com necessidades específicas, entre outros.