Em dia internacional, ONU pede que setor de saúde não seja conivente com mutilação genital feminina

Essa prática afeta cerca de 130 milhões de meninas e mulheres em 29 países, concentrados na África e Oriente Médio.

Crianças marcham no Quênia para pedir o fim da mutilação genital feminina. Foto: Natália da Luz

Crianças marcham no Quênia para pedir o fim da mutilação genital feminina. Foto: Natália da Luz

O Dia Internacional de Tolerância Zero à Mutilação Genital Feminina, celebrado todos os anos em 6 de fevereiro, traz como tema de conscientização dessa vez o fim da “medicalização” do procedimento. Na data, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, pediu a trabalhadores das áreas de saúde em todo mundo para eliminar o que ele qualificou de prática “profundamente perigosa”.

“A mudança está vindo de dentro das comunidades. Quebrar o silêncio e desmentir mitos sobre a mutilação genital feminina são os primeiros passos no caminho para eliminá-la totalmente”, disse Ban.

Para ele, a mobilização de todos – mulheres, homens e jovens – pode conseguir acabar ainda nesta geração com essa prática que afeta cerca de 130 milhões de meninas e mulheres em 29 países na África e Oriente Médio dos quais a ONU tem registro. Na Somália, Guiné, Djibuti e Egito, quase 90% das meninas e mulheres foram cortadas.

De acordo com a ONU, a mutilação genital feminina (MGF) não traz nenhum benefício para a saúde e causa danos em meninas e mulheres de muitas maneiras. O procedimento envolve retirar e danificar tecido genital feminino saudável e normal, interferindo nas funções naturais de seus corpos. A prática representa uma forma de discriminação contra as mulheres e na maioria dos casos é feita em crianças, violando os seus direitos.

Complicações imediatas incluem dores agudas, choque, hemorragia, tétano ou septecemia, retenção urinária, feridas abertas na região genital e ferimentos perto do tecido genital. A prática pode ter ainda consequências de longo prazo, como infecção urinária, cistos, infertilidade e aumento dos riscos de complicação dos partos, bem como necessidade de cirurgias futuras.

O exemplo da Associação das Parteiras da Mauritânia foi mencionado pelo chefe da ONU, que destacou sua recusa de continuar a exercer esta prática e hoje promove o abandono total do procedimento.

“Temos que assegurar que os pais não tentem ignorar os trabalhadores de saúde para tentar encontrar métodos alternativos para submeter suas filhas a mutilação genital feminina”, disse Ban.

Esforço global para erradicar a MGF

A comemoração desta sexta-feira (6) é coorganizada pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e o Fundo de População da ONU (UNFPA) – duas agências que implementam conjuntamente o maior programa global para acelerar o abandono dessa prática -, a Confederação Internacional de Parteiras e a Federação Internacional de Ginecologia e Obstetras. Para este grupo, a cooperação dos trabalhadores de saúde neste esforço global para erradicar a mutilação genital feminina é fundamental.

“Os trabalhadores de saúde têm um conhecimento profundo sobre as consequências daninhas dessa prática. Eles veem as complicações urinárias, menstruais e obstetras, incluindo hemorragias, infecções e morte, causadas por isso. E eles também são testemunhas das feridas emocionais que a MGF infringe, traumas que podem durar toda a vida”, disseram as organizações através de um comunicado.

De acordo com o UNICEF, cerca de uma em cinco meninas foram cortadas por um profissional de saúde treinado. Em alguns países, esse número pode chegar a três de quatro meninas. Os países com o índice mais alto de MGF realizado por trabalhadores da saúde são Egito (77%), Sudão (55%), Quênia (41%), Nigéria (29%) e Guiné (27%).

“A mutilação genital feminina viola os direitos humanos e mina a saúde e o bem-estar de cerca de 3 milhões de meninas todos os anos”, descreveu o comunicado. “MGF é ilegal em muitos países, e os provedores médicos que realizam essa prática estão quebrando a lei.”