Discurso do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, na reunião de alto nível da Conferência de Genebra sobre a Síria

“Todos os sírios, e todos na região afetada por esta crise, estão olhando para vocês aqui reunidos para acabar com o sofrimento humano indescritível, para salvar o rico mosaico social da Síria, e iniciar um processo político significativo para alcançar uma transição liderada por sírios.”

Montreux, 22 de junho de 2014. [English below]

Secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon. Foto: ONU

Secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon. Foto: ONU

“Depois de quase três dolorosos anos de conflito e sofrimento na Síria, hoje é um dia de esperança frágil, mas real.

Pela primeira vez, o governo sírio e a oposição da Síria, os países da região, e ampla representação da comunidade internacional estão reunidos para buscar uma solução política para a morte, a destruição e o deslocamento que são hoje a realidade terrível da vida na Síria.

Todos os sírios, e todos na região afetada por esta crise, estão olhando para vocês aqui reunidos para acabar com o sofrimento humano indescritível, para salvar o rico mosaico social da Síria, e iniciar um processo político significativo para alcançar uma transição liderada por sírios – uma visão proposta um ano e meio atrás no Comunicado de Genebra e endossada pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Vocês, os delegados do governo sírio e da oposição, estão aqui para essa finalidade.

Vocês têm uma enorme oportunidade e a responsabilidade de prestar serviço histórico para o povo sírio.

É a mais profunda das tragédias que os protestos pacíficos na Síria – clamando por mudança – tenham se transformado em uma sangrenta guerra civil.

Se os líderes do governo tivessem escutado mais atenta e humildemente às preocupações manifestadas pelo povo, esta conferência não teria sido necessária.

O desastre é agora abrangente.

Algumas cidades e vilarejos tornaram-se lugares impossíveis de se viver, arruinadas por bombardeios aéreos constantes. Escolas, hospitais, mercados, casas e locais de culto foram destruídos. Carros-bomba, ataques suicidas e com morteiros têm aterrorizado a população em muitas partes do país. Ilegalidade e caos estão atraindo os criminosos e combatentes estrangeiros de todo o mundo. Grupos radicais estão impondo a sua própria – destrutiva e perigosa – visão.

Os números são alarmantes: mais de 100 mil pessoas mortas e um grande número de pessoas desaparecidas ou detidas. Os ataques contra civis continuam e todos os lados têm mostrado uma total indiferença com suas responsabilidades sob o Direito Internacional Humanitário e os Direitos Humanos.

Mais de 6,5 milhões de pessoas estão deslocadas internamente. Mais de 9,3 milhões de pessoas
na Síria precisam de ajuda humanitária, com mais de 2,5 milhões delas vivendo em áreas onde o acesso humanitário está seriamente limitado – e muitas ainda não foram alcançadas.

A privação tornou-se parte das estratégias política e militar.

Antes um lugar acolhedor para refugiados de todas as origens, a guerra obrigou mais de
2,3 milhões de pessoas – metade delas crianças – a fugir para países vizinhos e de outras regiões.
Apesar da pressão excessiva, os vizinhos da Síria têm mostrado hospitalidade admiravelmente generosa.

Estou extremamente grato pelos compromissos assumidos na conferência de doadores humanitários no Kuwait na semana passada. Agradeço a Sua Alteza Emir do Kuwait por seu apoio humanitário visionário. Mas as necessidades humanitárias todavia não podem ser supridas, menos ainda se o conflito continuar.

Agradeço também à comunidade internacional por se unir pelo objetivo de destruir o programa de armas químicas da Síria após os ataques horríveis em agosto passado.

Ao mesmo tempo, reconheçamos que a maior parte das mortes e destruição na Síria vêm de armas convencionais, que escoam em abundância de muitas origens para todos os lados em conflito.

Diferentes atores inseriram uma dimensão sectária neste conflito. Alguns desses apelos têm gerado uma profecia autorrealizável.

Mas também temos visto contínua solidariedade entre comunidades e até mesmo demonstrações contra o extremismo.

Os sírios ainda estão unidos no profundo amor pelo seu país, orgulhosos de sua herança cultural e religiosa, e longa história de vida em paz. Os sírios devem começar a conversar uns com os outros de novo para recuperar o que foi perdido. Vemos exemplos marcantes desse espírito de solidariedade com as muitas mães e pais que se esforçam diariamente para proteger e garantir a sobrevivência de suas famílias na Síria.

É vital que todos os sírios – mulheres e homens – estejam engajados no esforço para moldar um futuro compartilhado.

Deixem-me voltar agora para o trabalho que começa nesta conferência:

Os próprios sírios têm a responsabilidade primária de acabar com o conflito, determinar seu sistema político e futuro, e começar a reconstruir seu país. O dever de todos os membros da comunidade internacional, independentemente de estarem presentes nesta sala hoje ou não, é fazer tudo ao seu alcance para ajudá-los a alcançar esses objetivos.

O Comunicado de Genebra estabelece uma série de passos-chave para uma transição liderada pelos sírios, começando com o estabelecimento de “um governo de transição com plenos poderes executivos, formado por consentimento mútuo” – até mesmo sobre as forças militares e de segurança, além dos serviços de inteligência.

O Comunicado também afirma que os serviços públicos devem ser preservados e restabelecidos de acordo com padrões de direitos humanos. Eles devem ter líderes que inspirem confiança do público, sob o controle do governo de transição.

Exorto todos aqueles reunidos aqui hoje para mostrar a ambos os lados a necessidade e a inevitabilidade de uma solução política.

Conto com vocês para encorajar os lados sírios e suas delegações a chegar a uma solução abrangente baseada no Comunicado de Genebra.

Como as partes procuraram uma solução política, então devem respeitar o Direito Internacional Humanitário, que tem sido terrivelmente violados durante este conflito.

A violência deve acabar. Os ataques contra os civis devem cessar. Todas as partes devem trabalhar para pôr fim a todos os atos terroristas.

Eu peço urgentemente ao Governo e à oposição que permitam o acesso humanitário pleno e imediato a todas as comunidades que necessitam – particularmente em áreas sitiadas, onde centenas de milhares de pessoas foram excluídas de qualquer tipo de assistência por meses, com relatos perturbadores de desnutrição e condições desesperadoras de saúde. A entrada de alimentos e equipamento médicos e cirúrgicos deve ser permitida; as pessoas doentes e feridas devem ser autorizados a sair.

Apelo às delegações sírias para que se engajem seriamente e de forma construtiva. Há grandes desafios pela frente, mas não são insuperáveis.

Quantos mais morrerão na Síria, perderão seus entes queridos, serão mutilados para sempre ou perderão suas casas se esta oportunidade for perdida?

Não há alternativa para acabar com a violência que não seja uma solução política. É por isso que estamos aqui.

Vamos provar a todos que o mundo é capaz de se unir e apoiar o povo da Síria quando iniciam a trajetória para uma Síria pacífica, democrática e estável.

Apelo a todos vocês para que mostrem uma visão mais ampla de humanidade, bem como liderança com flexibilidade. Os sírios merecem um futuro de paz, dignidade, respeito mútuo e livre do medo.

Obrigado.”

* * *
United Nations Secretary-General remarks at the high-level segment of the Geneva Conference on Syria

Montreux, 22 January 2014

“After nearly three painful years of conflict and suffering in Syria, today is a day of fragile but real hope.

For the first time, the Syrian Government and the Syria opposition, countries of the region, and the wider international community are convening to seek a political solution to the death, destruction and displacement that is the dire reality of life in Syria today.

All Syrians, and all in the region affected by this crisis, are looking to you gathered here to end the unspeakable human suffering, to save Syria’s rich societal mosaic, and to embark on a meaningful political process to achieve a Syrian-led transition – a vision first put forth a year and a half ago in the Geneva Communique, and endorsed by the United Nations Security Council.

You, the delegates from the Syrian government and opposition, are here for this purpose.

You have an enormous opportunity and responsibility to render historic service to the Syrian people.

It is the most profound of tragedies that peaceful protests in Syria – calling for change – turned into a bloody civil war.

If the Government leaders had listened more attentively and humbly to the concerns expressed by the people, this conference might not have been necessary.

The disaster is now all-encompassing.

Some towns and villages have become unliveable, ruined by constant aerial bombardments. Schools, hospitals, markets, homes and places of worship have been destroyed. Car bombs, suicide and mortar attacks have terrified the population in many parts of the country. Lawlessness and chaos are attracting criminals and foreign fighters from all over the world. Radical groups are imposing their own – destructive and dangerous – vision.

The numbers are appalling: well over 100,000 people killed and large numbers of people missing or detained. Attacks on civilians continue, and all sides have shown a total disregard for their responsibilities under international humanitarian and human rights law.

More than 6.5 million people are internally displaced. More than 9.3 million people in Syria need humanitarian aid, with more than 2.5 million of them living in areas where humanitarian access is seriously constrained – and many have not been reached at all.

Deprivation has become part of political and military strategies.

Once a place welcoming to refugees of all backgrounds, the war has forced more than 2.3 million people – half of them children – to flee to neighbouring countries and beyond. Despite immense strains, Syria’s neighbours have shown admirably generous hospitality.

I am extremely grateful for the commitments made at the humanitarian pledging conference in Kuwait last week. I thank his Highness Emir of Kuwait for his visionary humanitarian support. But humanitarian needs are still unlikely to be met, even less so if the conflict continues.

I also thank the international community for uniting behind the goal of destroying Syria’s chemical weapons programme following the horrific attacks last August.

At the same time, let us recognize that most of the deaths and destruction in Syria come from conventional weapons, which flow in abundance to all the warring sides from many quarters.

Different actors have inserted a sectarian dimension into this conflict. Some of these appeals have generated a self-fulfilling prophecy.

But we have also seen continued inter-communal solidarity and even demonstrations against extremism.

Syrians are still united in their deep love of their country, pride in their cultural and religious heritage, and long history of living in peace. Syrians must start talking to each other again to regain what has been lost. We see powerful examples of this spirit of solidarity every day with the many mothers and fathers striving to protect and ensure the survival of their families on a daily basis in Syria.

It is vital that all Syrians – women and men – are engaged in the effort to shape a shared future.

Let me turn now to the work that begins at this conference:

The Syrians themselves have the primary responsibility to end the conflict, determine their political system and future, and start rebuilding their country. The duty of all members of the international community, whether present in this room today or not, is to do everything within their power to help them achieve these goals.

The Geneva Communique sets out a number of key steps for a Syrian-led transition, starting with the establishment of “a transitional governing body with full executive powers, formed by mutual consent” – including over the military forces and security and intelligence services.

The Communique also states that the public services must be preserved and restored and uphold human rights standards. They must have leaders who inspire public confidence, under the control of the transitional governing body.

I urge all those gathered here today to impress upon both sides the necessity and inevitability of a political solution.

I count on you to encourage the Syrian sides and their delegations to reach a comprehensive settlement based on the Geneva Communiqué.

As the parties seek a political solution, so must they respect international humanitarian law, which has been appallingly violated during this conflict.

The violence must be ended. Attacks against civilians must cease. All parties must work to put an end to all terrorist acts.

I urgently call on the Government and the opposition to allow immediate and full humanitarian access to all communities in need – particularly in besieged areas where hundreds of thousands of people have been cut off from any assistance for months, with disturbing reports of malnutrition and desperate health conditions. Food and medical and surgical equipment must be allowed in; the sick and wounded people must be allowed out.

I call on the Syrian delegations to engage seriously and constructively. Great challenges lie ahead but they are not insurmountable.

How many more will die in Syria, lose their loved ones, be maimed for life or lose their homes if this opportunity is lost?

There is no alternative to ending the violence and a political solution. That is why we are here.

Let us prove to all that the world is able to unite and support the people of Syria as they embark on the path towards a peaceful, democratic and stable Syria.

I appeal to all of you to show greater vision for humanity, as well as leadership with flexibility. Syrians deserve a future of peace, dignity, mutual respect and freedom of fear.

Thank you.”