Diretora da OPAS pede compromisso político e mais recursos para enfrentar o zika nas Américas

A diretora da Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS), Carissa F. Etienne, durante a reunião do Mercosul. Foto: OPAS

A diretora da Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS), Carissa F. Etienne, disse aos ministros da Saúde que são necessários mais recursos, urgentemente, para enfrentar a propagação do vírus zika, assim como o aumento de casos de microcefalia e outras complicações que poderiam estar vinculadas. A afirmação foi feita em uma reunião especial convocada neste quarta-feira (3) pelo Mercado Comum do Sul (Mercosul), em Montevidéu, no Uruguai.

A representante enfatizou que todos os países das Américas precisam destinar novos recursos com o objetivo de intensificar os esforços para controlar o mosquito transmissor do zika, bem como preparar seus serviços de saúde ante um possível aumento da demanda, realizar campanhas de educação e monitorar a propagação do vírus e aumento de complicações associadas, incluindo a microcefalia e a síndrome de Guillain-Barré.

“Este trabalho vai requerer o apoio tangível e explícito dos níveis políticos mais altos”, afirmou a diretora da OPAS aos ministros.

Nova estratégia

Em uma conversa com a imprensa, Etienne anunciou uma nova estratégia da OPAS para ajudar os países a mitigar o impacto do zika, por meio do fortalecimento de suas capacidades de detectar a chegada e disseminação do vírus, reduzir as populações de mosquitos, assegurar os serviços de saúde necessários e comunicar de maneira efetiva o risco e as medidas preventivas à população. Para implementar essa estratégia, a OPAS está buscando, a princípio, cerca de 8,5 milhões de dólares da comunidade internacional para apoiar estes esforços nos países da região.

A reunião de ministros da Saúde ocorreu dois dias após a diretora-geral da OMS declarar como emergência de saúde pública de importância internacional as séries de casos de microcefalia que estão sendo reportados em áreas onde circula o zika. O Brasil já registrou mais de 3 mil casos suspeitos, que estão sendo investigados. Para Etienne, as lacunas de conhecimento sobre o zika não devem atrasar a ação para evitar a propagação do vírus.

“Um fato do qual estamos completamente seguros é que tanto o vírus da zika, quanto dengue, chikungunya e a febre amarela, são transmitidos pelo mosquito Aedes aegypti”, afirmou Etienne. “As medidas de controle mais efetivas são prevenir a picada e reduzir as populações de mosquitos”, indicou.

Esse ponto de ação deve ser levado adiante pelos governos, mas também “as comunidades, famílias e indivíduos devem ser mobilizados de maneira efetiva para levar adiante o trabalho crítico de eliminar os criadouros de mosquitos, incluindo veículos abandonados, pneus descartados, cilindros de água descobertos ou outros recipientes”.

A diretora da OPAS pediu especial atenção às necessidades das mulheres em idade fértil e, em particular, das que vivem em comunidades de baixa renda, que com frequência carecem de acesso às informações e serviços de saúde que precisam para se proteger.

“A realidade é que um grande número de mulheres em nossa região não tem acesso à educação sexual e métodos anticonceptivos eficazes”, disse Etienne. ˜É muito provável que essas mesmas mulheres vivam em condições de vulnerabilidade, em bairros onde, por exemplo, a habitação e as condições ambientais criam condições ideais para criadouros de mosquitos e, em consequência, para que aumente seu potencial de exposição a picadas de mosquitos. Por isso, devemos fazer todo o possível para investir recursos em serviços de saúde reprodutiva integrais”, indicou.

Líderes de saúde se comprometem a melhorar ações

Ao fim da reunião, os ministros da Saúde do Mercosul e da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) apresentaram uma declaração conjunta em que se comprometem a melhorar as estratégias de seus países para controle do mosquito, com base em experiências recentes e focando simultaneamente não apenas no combate ao zika, mas também outras doenças transmitidas por mosquitos, em particular dengue e chikungunya.

Os ministros da Saúde chamaram a OPAS/OMS para apoiar seus esforços por meio de cooperação técnica, a promover a cooperação horizontal Sul-Sul e a elaborar os protocolos e diretrizes técnicas em vigilância, comunicação de risco e manejo clínico de pacientes, por meio de uma equipe de peritos da região.

Até o momento, 26 países e territórios das Américas registraram transmissão autóctone do vírus zika. Os primeiros casos foram reportados na Ilha de Páscoa, no Chile, em fevereiro de 2014, e, em maio de 2015, o Brasil registrou os primeiros casos de transmissão autóctone no continente americano.

A OPAS/OMS tem colaborado com as autoridades sanitárias brasileiras, mobilizando a própria equipe e especialistas externos por meio da Rede Mundial de Alerta e Resposta a Surtos (GOARN, na sigla em inglês), e tem realizado missões técnicas em outros países e membros. A OPAS também tem fornecido aos países orientações sobre vigilância e manejo clínico de casos de zika, a detecção do vírus em laboratório, o controle de vetores, a vigilância da microcefalia e outras síndromes neurológicas, assim como apoio em comunicação de risco.

No início de março, a OPAS/OMS vai convocar uma reunião de pesquisadores parceiros, incluindo os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e a rede internacional do Instituto Pasteur, para desenvolver uma agenda de pesquisa relacionada às lacunas de conhecimento sobre o zika e seus efeitos na saúde.